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Titiana Barroso

«A generalidade das alterações à legislação poderá exponenciar litígios laborais», alerta Joana de Sá (Advogada)

3 Maio, 2023 by Titiana Barroso

As alterações ao nível da legislação laboral introduzidas no dia 1 de maio no Código do Trabalho e diplomas conexos, vão trazer impacto também para as entidades empregadoras.

A Advogada Joana de Sá (Sócia Coordenadora de Laboral da PRA – Raposo, Sá Miranda & Associados) em conversa com a Líder ajuda a perceber as alterações mais relevantes que entraram agora em vigor, assinaladas como os pilares chave da Agenda do Trabalho Digno, e a antecipar possíveis litígios laborais.

 

O que muda na prática na vida dos trabalhadores? 

As mudanças ao nível da legislação laboral são diversas. Em particular no que toca ao Código do Trabalho e, em ordem a dar cumprimento a alguns daqueles que foram assinalados como os pilares chave da Agenda do Trabalho Digno, as alterações mais relevantes estão ligadas à conciliação entre a vida pessoal, familiar e profissional e à valorização dos jovens no mercado de trabalho. Com as alterações agora introduzidas vemos, por exemplo:  

  • O direito ao teletrabalho, sem necessidade de acordo, é alargado aos pais com crianças com deficiência, doença crónica ou doença oncológica, e o pagamento do trabalho suplementar passa a ter novos valores de referência da centésima hora anual em diante.
  • Criação de uma licença por luto gestacional, que pode ir até aos três dias. 
  • A licença exclusiva do pai passar de 20 para 28 dias consecutivos, com um aumento do subsídio quando as licenças parentais são partilhadas, de forma igual, e a partir dos 120 dias, a licença pode ser utilizada em part-time por ambos os progenitores. Além disso, as dispensas e as licenças são alargadas a quem quer adotar ou for família de acolhimento. 
  • Os trabalhadores cuidadores informais não principais, que passam a ter uma licença de cinco dias e o direito a 15 dias de faltas justificadas, assim como passam a ter direito ao teletrabalho, horário flexível ou tempo parcial.

Especificamente quanto à valorização dos jovens no mercado de trabalho, destacamos a criação de regras relativas à remuneração dos estágios profissionais passa a ser, no mínimo, 80% do salário mínimo nacional e a criação de um novo tipo de contrato de trabalho destinado a estudantes em período de férias escolares ou em interrupção letiva.  

 

Que impactos as medidas vão ter para as entidades empregadoras? 

As alterações agora introduzidas ao Código do Trabalho e diplomas conexos, vão trazer efetivo impacto também para as entidades empregadoras.  

  • Com enorme relevância prática destacamos o reforço do dever de informação a prestar aos trabalhadores e as diversas alterações ao nível das disposições relativas ao período experimental em casos de exclusão, de redução do prazo para comunicação da denuncia por parte do empregador e da necessidade de menção expressa no contrato de trabalho à existência de período experimental; bem assim como  as mudanças relativas às regras para o pagamento de compensação com referência a 24 dias de retribuição base e diuturnidades por cada ano completo de antiguidade, em caso de caducidade do contrato de trabalho, e também para o despedimento coletivo em que a compensação corresponderá a 14 dias de retribuição base e diuturnidade por cada ano completo de antiguidade. 
  • Realçamos, ainda, as novas regras relativas ao procedimento de suspensão do despedimento, as regras relativas às comunicações em caso de admissão de trabalhador estrangeiro, no âmbito dos fundos de compensação, bem assim como duração dos contratos de trabalho temporário passa a ter limites máximos e só podem ser renovados quatro vezes, no máximo.
  • Mais, damos nota das novas regras para os trabalhadores das plataformas digitais, que passam a presumir-se como sendo trabalhadores por conta de outrem.

 

Qual será o impacto destas alterações e será possível antecipar um aumento exponencial de litígios laborais? 

Não obstante a generalidade das alterações à legislação aqui em análise representar um efetivo reforço das garantias dos trabalhadores a verdade é que algumas delas, na nossa opinião poderá, efetivamente, exponenciar os litígios laborais. Vejamos por exemplo: 

  • O que passa a estar previsto no contexto da cessação das relações laborais por acordo, em que se assiste a uma alteração que, na nossa opinião, nada trará de positivo – “fim da remissão abdicativa”. Para além de entendermos que, smo, as regras ferem regras de natureza constitucional, a verdade é que o próprio legislador “empurra” as partes para o tribunal ao fazer depender a validade da renúncia a créditos do trabalhador, por conta do contrato de trabalho e da sua cessação, da sua homologação por via de salvo por transação judicial;
  • A temática relativa da proibição de discriminações remuneratórias relacionadas com a atribuição de prémios de assiduidade e produtividades, antevemos, também, uma onda crescente de sindicância. Sendo que, este caso, e com o devido respeito, o legislador mostra, na nossa opinião, desconhecimento efetivo sobre a realidade das empresas e da gestão do capital humano;
  • Acresce ainda, e não com menor relevância, a alteração em matéria de proibição da terceirização (outsourcing) – em que passa a empresa a estar impedida recorrer à aquisição de serviços externos, com a finalidade de suprir necessidades que correspondam a funções que eram asseguradas por trabalhador cujo o contrato tenha cessado nos 12 meses anterior através dos mecanismos de despedimento coletivo ou extinção do posto de trabalho (deixando de fora a hipóteses em que os contratos tenham cessado ao abrigo de um acordo de revogação, mesmo que assente em causa objetivas). Também aqui e smo., estamos perante uma disposição que fere princípios constitucionais e que, indubitavelmente, aumentará a litigiosidade. 

 

Arquivado em:Legislação, Notícias, Trabalho

Astrobotânica: sabe o que é?

3 Maio, 2023 by Titiana Barroso

As agências de alimentos e energia atómica da ONU estão em preparações para colher os frutos de uma investigação inovadora em Astrobotânica, as sementes enviadas para o espaço em 2022 estão prontas para regressar à Terra, relata a UN News. 

“Esta é a ciência que pode ter um impacto real na vida das pessoas num futuro não muito distante, ajudando-nos a cultivar colheitas mais fortes e a alimentar mais pessoas”, disse Rafael Mariano Grossi, chefe da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA). 

Estima-se que a população mundial atinja os 10 mil milhões de pessoas até 2050, e perante esse cenário há uma evidente necessidade de encontrar soluções inovadoras por meio da ciência e tecnologia destinadas a produzir mais alimento, a produzir culturas mais resistentes e métodos agrícolas mais sustentáveis, refere a AIEA. 

O céu não é o limite

A astrobotânica não é nada de novo, visto que desde 1946 que se realizam experiências semelhantes. No entanto, esta é a primeira vez que a AIEA e a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) realizam análises genómicas e biológicas em sementes enviadas para o espaço em cerca de 60 anos de experiência na indução de mutação em plantas que pode ser benéfica para as pessoas e para o Planeta. 

A experiência visa desenvolver novas culturas que possam adaptar-se às alterações climáticas, e que consigam ajudar a aumentar a segurança alimentar global. 

Dois tipos de sementes estão agora no espaço: a arabidopsis, uma espécie de agrião que tem sido amplamente estudado por botânicos e geneticistas de plantas, e o sorgo, que pertence à família do painço e é um grão tolerante à seca e ao calor, cultivado em muitos países em desenvolvimento. 

As sementes foram enviadas num vaivém de carga não tripulado da NASA a 7 de novembro de 2022. Enquanto estavam no espaço, foram expostas a uma mistura complexa de radiação cósmica, microgravidade e temperaturas extremas, dentro e fora da Estação Espacial Internacional (ISS). 

Após o seu regresso no início de abril, os cientistas da Joint FAO/IAEA Center of Nuclear Techniques in Food and Agriculture preveem cultivar as sementes e examiná-las em busca de características úteis para perceberem melhor as mutações induzidas pelo espaço e identificarem novas variedades. 

Mais resiliência para enfrentar as alterações climáticas

Depois de cultivadas, uma série de análises ajudará a entender a radiação cósmica e as duras condições espaciais podem fazer com que as plantações se tornem mais resistentes perante as condições de cultivo cada vez mais severas na Terra, de acordo com as agências.  

“Estou muito orgulhoso da nossa parceria com a IAEA, dando frutos na Terra por anos e agora com sementes que viajaram pelo espaço”, afirma o diretor-geral da FAO, Qu Dongyu. 

“Estou maravilhado com a resiliência da natureza e entusiasmado com os benefícios infinitos que a exploração espacial pode trazer para transformar os nossos sistemas agroalimentares a serem mais eficientes, mais inclusivos, mais resilientes e mais sustentáveis ​​em todo o mundo”, conclui. 

Arquivado em:Ciência, Notícias, Sustentabilidade

Fique a par de algumas recomendações para a sustentabilidade do setor das águas em Portugal

3 Maio, 2023 by Titiana Barroso

A promoção da agregação de entidades gestoras de menor dimensão, a continuidade de práticas de certificação e um maior rigor no controlo das perdas de água e na alocação dos mapas de pessoas são as principais recomendações apontadas por um estudo conduzido por investigadores portugueses, que identificou e analisou indicadores determinantes para o desempenho das entidades gestoras e para a sustentabilidade do setor das águas em Portugal. 

No artigo científico Drivers of water utilities’ operational performance – An analysis from the Portuguese case, os investigadores do Centro de Investigação em Economia e Gestão (CeBER) da Universidade de Coimbra (UC) e docentes da Faculdade de Economia da UC, Rita Martins e Luís C. Dias, e o investigador do CeBER e do Centro de Engenharia Biológica da Universidade do Minho e docente do Instituto Superior de Engenharia de Coimbra, António L. Amaral, focaram-se na «identificação de determinantes do desempenho das entidades gestoras do setor das águas, e por essa via, da sustentabilidade do setor, informações que são importantes para definir ou afinar recomendações operacionais, assim como para estabelecer diretrizes que permitam alcançar os objetivos dos planos estratégicos do setor», contextualizam.  

A equipa de investigação analisou dados de relatórios anuais produzidos pela Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR), publicados entre 2015 e 2019, que apresentam informações sobre as entidades gestoras em Portugal, dos setores de abastecimento de água potável e do saneamento de águas residuais. 

Entre os principais indicadores analisados, destacam-se «a energia consumida e produzida pelas entidades gestoras, o pessoal alocado, os rendimentos e gastos anuais, o volume de água ou de água residual no sistema, assim como o volume tratado e faturado, as perdas de água potável, a reutilização de águas residuais tratadas e o volume de lama gerado», revelam os investigadores. Paralelamente, os autores analisaram fatores potencialmente relevantes para explicar o desempenho das entidades nos referidos indicadores, nomeadamente: «a dimensão da entidade, a política de certificação, a tipologia e modelo de gestão da entidade, a abrangência de condutas ou coletores e práticas de reabilitação, e o cumprimento de parâmetros de qualidade da água potável ou da água residual tratada», indicam.

Os resultados mais relevantes 

Esta análise revelou três principais resultados: 1) a importância da dimensão da entidade gestora nos indicadores operacionais (permitindo obter ganhos de escala); 2) a influência do pessoal alocado e das perdas de água sobre os gastos das entidades; 3) o papel essencial que as maiores entidades atribuem a uma política de certificação (ambiental, de saúde e de segurança operacional). O estudo permitiu ainda verificar que as entidades de maior dimensão e as entidades certificadas «se encontram maioritariamente relacionadas com um modelo de gestão do tipo concessão e predominantemente de tipologia urbana», explica a equipa de investigação. 

O conjunto de recomendações apresentadas nesta investigação encontra-se alinhado com «as orientações do Plano Estratégico para o Abastecimento de Água e Gestão de Águas Residuais e Pluviais 2030 (PENSAARP 2030), da Secretaria de Estado do Ambiente», nomeadamente no que diz respeito «à agregação de entidades de menor dimensão, assim como com algumas medidas de eficiência previstas, que passam pela redução das perdas de águas, aumento do controlo de gastos e da alocação de pessoal, e práticas de certificação de qualidade», adiantam António L. Amaral, Rita Martins e Luís C. Dias.  

Para o futuro, os investigadores sublinham a importância de «aprofundar algumas relações entre o modelo de gestão, a tipologia das estações de tratamento e a política de certificação» em prol do desempenho das entidades gestoras e, consequentemente, da sustentabilidade do setor.  

O artigo científico encontra-se publicado no Journal of Cleaner Production.

 

Arquivado em:Academia, Notícias, Sustentabilidade

O novo radar dos norte-americanos. Investimento e turismo batem recordes em Portugal

3 Maio, 2023 by Titiana Barroso

Portugal está no radar dos norte-americanos. Prova disso é o aumento dos turistas, do investimento e do número de voos. Ainda assim as ligações dos norte-americanos a Portugal são penalizadas pela burocracia, o País tem de melhorar as suas infraestruturas, do aeroporto às redes de energia, alertaram especialistas durante a conferência “Turismo & Imobiliário no âmbito das relações Portugal / EUA”, organizada pelo Pestana Hotel Group e Câmara de Comércio Americana em Portugal (AmCham).

As relações comerciais, de investimento e trânsito de turistas entre os EUA e Portugal vivem um clima de grande entusiasmo, com indicadores perto de recordes históricos, ou já mesmo em máximos. A conclusão provém da conferência “Turismo & Imobiliário no âmbito das relações Portugal / EUA”, decorrida no hotel Pestana Palace Lisboa.

O peso deste país na formação do PIB português é crescente, designadamente no chamado “motor da economia” portuguesa, o turismo, em que os norte-americanos foram a nacionalidade que mais cresceu em 2022, face a 2019. Do total de hóspedes de mercados internacionais em Portugal, cerca de 10% provêm daquele país, um ganho de quota resultante do crescimento de 25,3% face ao ano pré-pandémico, ao passo que o balanço da generalidade dos turistas internacionais em Portugal aponta um decréscimo de 6,7%. “Foi a origem de turistas que mais cresceu”, explicou António Martins da Costa, Presidente da AmCham, desvendando ainda que os cidadãos dos EUA reforçaram as despesas turísticas em 52%, crescimento superior ao de qualquer outra das nacionalidades acolhidas no país. Luís Araújo, Presidente do Turismo de Portugal, revelou um crescimento de dormidas de norte-americanos em janeiro e fevereiro para mais do dobro, comparado com os dois meses homólogos de 2019.

“Portugal está tão próximo de Nova Iorque quanto a costa leste daquele país”, nota Luís Araújo. Numa análise mais lata, a balança comercial revela-se claramente favorável a Portugal, explicou António Martins da Costa: os EUA evoluíram para primeiro destino das exportações portuguesas fora do espaço comunitário, e são hoje “um parceiro incontornável, pelo que tudo o que seja incrementar esta relação transatlântica traz benefícios para ambos os lados”.

Sinal deste posicionamento, a transação de bens e serviços terão registado 9 mil milhões de euros de exportações nacionais para o outro lado do Atlântico e 5200 milhões de euros no sentido inverso, segundo dados provisórios recolhidos pela AmCham. Beneficiando do reforço do número de ligações aéreas diretas entre os dois países, os 27 milhões de desembarques de norte-americanos em Portugal (metade dos quais em Lisboa) ao longo de 2022 deverão acelerar ainda mais este ano, antevê o Presidente da AmCham. Comparando com dados de 2016, Luís Araújo, Presidente do Turismo de Portugal, explica que os lugares disponíveis em ligações diretas são hoje o dobro: 2 milhões. Isto faz dos EUA o maior mercado de long haul para Portugal, seguido do Brasil, Canadá, Israel e Austrália.

O poder do imobiliário

Entre os efeitos colaterais encontra-se o reforço no imobiliário e a exportação de vinhos, conta o Presidente do Turismo de Portugal. Neste caso, o crescimento da exportação vínica é proporcional ao do número de turistas. EUA superam França e são agora os maiores investidores internacionais em Portugal. Sofia Lufinha, Chief Strategy Officer da TAP, apontou um crescimento de 40% nas frequências de voos dos EUA para Portugal, face a 2019. Entre as cinco companhias com voos diretos dos EUA para Portugal, contam-se agora mais de 100 frequências semanais diretas, das quais 62 asseguradas pela TAP, um reforço da operação na ordem dos 60%, explica a administradora. Do Verão de 2022 para o próximo somam-se 15 frequências semanais TAP. Com mais norte-americanos nos voos da TAP, aumentam também as receitas para a companhia. Na relação entre o primeiro trimestre de 2019 e o período homólogo de 2023, o número de passageiros mais que duplicou, e a receita triplicou. “Os americanos têm muito poder de compra, estão mais disponíveis para pagar opções com mais atributos, serviços e flexibilidade”, desvenda Sofia Lufinha. Mesmo entre os passageiros em trânsito (aproveitando Lisboa enquanto hub de ligação à Europa, África e Israel), o país está a ganhar com o programa stopover, promotor de curtas estadias sem pagamento adicional de voo. “Tivemos um crescimento enorme no primeiro trimestre de 2023, mais de 12 mil passageiros que vinham em connecting e pararam em Portugal”. Apesar do reforço, há ainda muito caminho para andar, nota John Calvão, investidor luso-americano que liderou a Arrow Capital em Portugal de 2010 a 2015, e que aponta ao país o excesso de burocracia. “Somos muito, muito, muito burocráticos. Mudamos de opinião a todo o tempo, há alterações fiscais de ano para ano. Os investimentos feitos a 5, 10, 20 anos, como desenvolvimento imobiliário ou hotéis, não podem dar-se ao luxo da inconsistência das leis, especialmente fiscalidade”.

No imobiliário, área muito associada aos Golden Visa (designação informal das ARI – Autorizações de Residência para Atividade de Investimento), os cidadãos dos EUA valeram 12% do investimento em imobiliário realizado nos últimos 10 anos em Portugal. A confiança depositada em Portugal resultou, em 2022, no posicionamento dos norte-americanos como maior investidor internacional (muito por via das ARI), ultrapassando, inclusive, os franceses.

“Os americanos não só são a fonte que está a aumentar mais o número de turistas e despesa de turismo induzida em Portugal com crescimento mais acelerado, como em termos de investimento imobiliário são os que têm maior presença, tendo passado para primeiro lugar”, explicou António Martins da Costa. Patrícia Barão, Diretora do Departamento Residencial da JLL Portugal, enalteceu o papel dos norte-americanos em Portugal num passado recente, culminando num recorde de investimento alcançado em 2022, explicou. “Descobriram Portugal nas várias vertentes de imobiliário”, notou, com uma “evolução grande nos últimos cinco a seis anos em investimento no imobiliário comercial. No total, em 2022, o investimento americano foi de 1150 milhões de euros, representando 33,7% do total investido em Portugal no imobiliário comercial. Tivemos portfólio com pesos grandes – o portfólio Crow, de hotelaria, representou 850 milhões de euros. Grandes fundos, como Blackstone, investiram no total 300 milhões de euros em portfólio industrial e de logística”. Números relativos ao primeiro trimestre de 2023, apresentados por Patrícia Barão, mostram os norte-americanos como intervenientes em 67% do investimento imobiliário comercial em Portugal, crescimento exponencial face à quota de 6% em 2016. No segmento do imobiliário residencial, das 170 mil transações no ano passado, apenas 6% foram responsabilidade do mercado internacional. Os EUA representam 15% desta quota internacional, quando em 2016 eram apenas 2%.

Apesar de constrangimentos como a burocracia e as longas demoras na aprovação de projetos, Portugal apresenta a tetralogia hospitalidade/segurança/clima/gastronomia, a que se juntam preços abaixo dos praticados nos EUA. Patrícia Barão deu disso nota com o exemplo de uma família que vendeu um imóvel na Florida e com a receita adquiriu uma casa em Cascais e ainda lhe restou um aforro para uma vida confortável em Portugal. “Não há dúvidas de que estamos no radar dos americanos”, aponta a especialista. Mais 35% de voos diretos de Portugal para os EUA já este verão. No sentido inverso, 2023 deverá ser um ano histórico, prevê Ana Paula Vila, Commercial Specialist da Embaixada dos EUA em Portugal.

No ano antes da pandemia, viajaram 15 mil portugueses para os EUA, número quase igualado pelos 14 mil registados no ano passado. Agora, só em dois meses de 2023, janeiro e fevereiro, viajaram 9962 turistas para os EUA. Miguel Mota, Sales Manager for Portugal at Air France KLM & Delta Air Lines, aponta um crescimento de turismo de lazer de Portugal para os EUA na ordem dos 10% em relação a 2019. Já nos primeiros meses de 2023, o crescimento eleva-se para 30%, face ao período homólogo de 2019. Para o verão de 2023 antevê-se mais 35% de voos diretos a partir de Portugal.

Arquivado em:Economia, Notícias

O confinamento das competências sociais

3 Maio, 2023 by Titiana Barroso

Quais as consequências do confinamento pandémico para o desenvolvimento de competências sociais e relacionais dos estudantes do ensino superior, quando iniciam a sua vida profissional? A evidência é ainda escassa para responder perentoriamente à questão. Mas um trabalho publicado recentemente no Financial Times (2 de maio) faz alguma luz sobre a matéria. Informa a reportagem que a Deloitte e a PwC estão a facultar formação adicional a recém-formados cujo processo educativo foi afetado pelo confinamento durante a pandemia. Razão: estes jovens carecem de competências de comunicação e de trabalho em equipa. Embora sejam mais capacitados para trabalhar independentemente, são menos autoconfiantes para fazer apresentações em público, expressar a sua voz durante as reuniões, e desenvolver redes de relacionamento e trabalho colaborativo com outros membros da organização. Esta evidência suscita-me três reflexões – que pouco ou nada têm a ver com a pandemia.

Primeira reflexão: é cada vez mais claro que uma certa fascinação com o teletrabalho, a qual resultou das experiências durante o período pandémico, incorpora riscos. O trabalho de uma equipa não resulta da mera soma dos trabalhos dos seus membros. As interdependências implicam esforços de cooperação e coordenação que requerem competências sociais-relacionais. A criatividade e a inovação também beneficiam dos encontros presenciais, mais ou menos espontâneos, que ocorrem no quotidiano de qualquer organização.

Segunda reflexão: o trabalho presencial, diferentemente do realizado no nosso “cubículo virtual”, submete o nosso cérebro a maior quantidade e diversidade de estímulos, e pode ser uma fonte de energia emocional e relacional. O recato do nosso “cubículo” pode contribuir para a nossa concentração e afastar-nos de distrações desnecessárias – mas pode também dificultar o trabalho em equipa.

Terceira: uma parcela significativa das competências sociais-relacionais, que são essenciais ao trabalho em equipa, desenvolvem-se com a prática. Mesmo antes da pandemia, muitos estudantes universitários ingressavam na vida profissional desprovidos de qualquer experiência de trabalho. Tanto as famílias como as instituições de ensino superior poderiam/deveriam valorizar, de modo mais enfático, essas experiências durante as férias e os fins-de-semana. Colocar as “mãos na massa”, durante o período em que se frui de educação superior, pode ser menos prazeroso do que fruir dos “prazeres da vida”. Mas é educativo. A execução de trabalhos mais “modestos”, inclusive tarefas manuais, durante esses períodos acarreta uma vantagem adicional: consciencializar os estudantes de que, quando vierem a exercer funções de liderança, devem respeitar e valorizar as pessoas que executam esses trabalhos “modestos” e mal remunerados. Essa pode ser uma boa forma de os estudantes tomarem contacto com o “mundo real “– um desafio que as instituições de ensino superior são por vezes acusadas de não ensinar a enfrentar. Importaria, pois, que o desenvolvimento de competências sociais não ficasse confinado ao espaço dos campi universitários (e, pior, à desvergonha de algumas praxes académicas, perdoe-se-me o despropósito).

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A nova ordem mundial

2 Maio, 2023 by Titiana Barroso

Anda no ar a ideia de uma nova ordem mundial. Os proponentes são a China – não mais uma economia emergente, mas o novo superpoder – e a Rússia – o antigo superpoder em fase de denegação nostálgica e imperialista. A ideia tem defensores no Ocidente, nomeadamente as forças anti-americanas e anticapitalistas. É necessário, defendem, pôr fim ao modelo neoliberal. A geopolítica, que Miguel Morgado trata em Guerra, Império e Democracia (Dom Quixote), voltou à ordem do dia.

O capitalismo tem muitos defeitos mas muitas das suas imperfeições podem ser mitigadas por Estados competentes. A versão neoliberal serve de nêmesis para tudo e para todos, desde os detentores dos meios de produção que querem ver o Estado à distância a alegados abusadores sexuais em apuros. O capitalismo temperado pelo Estado continua a ser preferível às soluções alternativas apesar dos devaneios antiamericanos e dos muitos bónus que os EUA, sede por excelência do capitalismo global, têm dado aos seus inimigos – o presidente Trump, a retirada atabalhoada do Afeganistão, uma diplomacia da preleção democrática sem o impacto material da abordagem chinesa.

Em todo o caso, uma nova ordem liderada pela China e pela Rússia parece uma proposta assustadora: uma combinação de hard power (China) e ressabiamento (Rússia) apoiada por um pequeno núcleo de ditadores. Custa ver o presidente do Brasil arrastar o seu país para este plano. A posição em relação à Ucrânia é lapidar: quer promover a paz com o apoio de quem não quer parar a guerra. Convinha que não esquecesse o que tem vindo a ser referido por vários analistas, como Nuno Severiano Teixeira: se a Rússia parar de combater, a guerra acaba; se a Ucrânia parar a Ucrânia acaba.

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