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Titiana Barroso

Parem, por favor, de chamar Estratégia a tudo o que fazem

9 Maio, 2023 by Titiana Barroso

Na mais recente WYtalk, Paulo Rossas, CIO da Lisbon Digital School, trouxe a debate um tema focado na proliferação e (ardilosa) utilização da palavra “estratégia” no mundo do Marketing Digital, e em como isso simplesmente não faz sentido.

Contou-nos o Paulo que, em 1973, Adriano Celentano, artista e cantor italiano, influenciado pelo rock and roll e por tudo o que era Americano, decidiu “escrever” uma música que parecia inglês, mas ninguém sabia bem o que ele dizia. A melodia de fundo era boa, no entanto não queria dizer nada: eram apenas palavras aleatórias inventadas por ele, que soavam a algo que parecia inglês. A música chama-se “Prisencolinensinainciusol”. Obviamente, alcançou o número 1 da tabela de sucessos musicais no país, catapultando Adriano Celentano para a ribalta, e virando estrela nacional. O hit ficou tão famoso, que sempre que as pessoas o esquecem, ele volta, sem ninguém perceber porquê, e torna-se viral. Até teve direito a nova versão, criada em 2017 pelos Chicago’s Tub Ring e a lugar de destaque num episódio da série Fargo da Netflix, recentemente.

E porquê esta história? Segundo o Paulo, o Marketing Digital está a tornar-se num “Prisencolinensinainciusol” onde toda a gente dança a uma melodia interessante, funk, pop, rock and roll, o que seja. A melodia é boa, no entanto, a grande maioria é um Adriano Celentano, inventam-se palavras, expressões, estruturas e momentos. Ninguém sabe muito bem o que quer dizer, mas toda a gente canta, dança, acha graça e até se torna num grande sucesso. Em toda a letra da música “Prisencolinensinainciusol”, só existe uma única palavra verdadeira: “alright”.

Quando olhamos para a música atual do Marketing Digital, há uma palavra que se repete no discurso de todas as pessoas, que é a palavra “Estratégia”.

O problema é que ninguém sabe muito bem onde a aplicar, um pouco como o “alright”. Vale basicamente para tudo, tudo é “alright”. A “Estratégia” passou a ser tudo. Tudo é estratégia. Mas será que está bem? Não. “Not alright.” O “rock and roll” do Marketing Digital é fantástico, tem um potencial grandioso, não podemos é agarrar-nos a um “Prisencolinensinainciusol” e fingir que sabemos o que estamos a dizer. Uma Estratégia para ser Estratégia tem de ter Objetivos e muito mais.

«Mas afinal o que é Estratégia? Na sua essência, Estratégia é Caos. Se no meio do Caos, percebermos os padrões e os conseguirmos comprovar, vamos vencer. Estratégia é então reconhecer padrões. Todos podemos ser estrategas, desde que consigamos reconhecer padrões. Se percebermos o que vai ou pode acontecer, vamos vencer. Onde é que aparece o real valor, aquilo que nos torna diferentes de todos os outros? Quando temos a coragem de criar os nossos próprios padrões e conseguir comprová-los sem que mais ninguém o consiga fazer, e tudo isto, com recurso a dados, evidências, insights humanos, inovação e desconforto. Depois? É seguir as regras de Estratégia e comprovar com tudo o que foi falado», explicou o CIO da Lisbon Digital School.

Quais são os objetivos e o que se quer extrair de valioso com a estratégia? É necessário, de acordo com o Paulo, entender qual é o contexto daquilo que está a ser feito, o que o mundo está a fazer, quais as tendências atuais – serão as gerações sustentáveis, a inflação? E claro, para quem se está a falar, e onde é que o target está – é importante procurar saber mais sobre o target, os seus interesses, idade, sexo, onde os podemos encontrar – se no google, no email, nas redes sociais… e quais as redes sociais! Depois, tem de se entender o que pode ser feito por este target: «porque é que precisam de mim? O que resolvo? Qual o estímulo e o caminho para resolver esse problema?»

Uma vez identificado o caminho a tomar, há a escolha onde se deve focar o  conteúdo, conforme o que se pretende. «Se queremos ser mais aspiracionais, devemos optar pelo Instagram, se o foco é em entretenimento ou educação, por exemplo, podemos utilizar o Tiktok, etc», refere.

Último passo, e um dos mais relevantes de todos, é a escolha e análise de KPIs. «O que vamos avaliar, medir, para ser considerado um sucesso? Se o objetivo é ter mais pessoas no Website, a métrica é tráfego. Mas dentro de todas as opções, temos de escolher a mais adequada: será todo o tráfego, ou só o de qualidade? O foco está no orgânico ou no pago? E se vamos querer medir, por exemplo, entradas/visitantes no site, a bounce Rate, o tempo em site… começar sempre com a pergunta: o que é para nós um número positivo no final? Depois de tudo isto, de sabermos o que realmente queremos medir, alcançar, comprovar, é sim possível que exista uma Estratégia. “Alright?”», finaliza.

Arquivado em:Notícias

És Mãe Empresária ou Empresária Mãe?

8 Maio, 2023 by Titiana Barroso

Para além de liderar uma empresa, lidero a minha casa, a minha família. Por muito que haja quem confunda, são duas coisas completamente diferentes. Mas acho que nunca deixo de liderar, qualquer que seja o ambiente.

Voltando às parecenças, desengane-se quem acha que as funções são iguais. Podem ter semelhanças, sim… Mas a partir do momento que agimos da mesma forma em contexto de trabalho e em contexto de família, há algo que está muito errado!

Em casa, cuidamos, acolhemos… numa empresa, apesar de também termos de o fazer, tem de ser de uma maneira mais distante. Numa empresa, corrijo os meus funcionários, organizo o trabalho, delego tarefas… em casa também o faço, mas de uma forma mais descontraída e não tão autoritária.

Arrisco-me ainda a dizer que, gerir uma família é mais complicado do que gerir uma empresa, pois há laços afetivos e dinâmicas de relacionamentos que pesam mais na nossa tomada de decisões.

As funções são parecidas, mas têm imperativamente de ser adaptadas ao ambiente. Não podemos tratar um funcionário da mesma forma que tratamos um filho… nem podemos tratar um filho como tratamos um funcionário. Há que saber distinguir bem as situações.

Em termos de desafios, também são separados por uma linha ténue. Uma mãe tem de conseguir ser paciente em ambiente familiar, dar um bom exemplo, saber controlar despesas. E todos estes desafios fazem parte também da vida de uma empreendedora.

Por vezes, pode tornar-se complicado não prejudicar nenhuma das partes: não gosto de deixar de fazer algo importante com a minha família por motivos profissionais, mas também não gosto de me desleixar do meu negócio para estar sempre em casa a exercer o papel de mãe. Não vou mentir, vão acontecer ambas as situações. O segredo está em conseguir fazê-lo de uma forma equilibrada.

Mas não há quem o consiga melhor do que as mulheres. Temos uma sensibilidade e uma força muito superior em ambiente empresarial, assim como uma maior na tomada de decisões. Temos um olhar mais delicado sobre as empresas e as equipas e relativamente a determinados comportamentos e alterações de postura de colaboradores, porque somos também mais atentas a isso por natureza. Conseguimos estar em todo o lado ao mesmo tempo, sempre que somos necessárias. E isto sim, aplica-se em contexto profissional e familiar.

Na organização onde trabalho, criamos grupos, a que chamamos Boards, onde os membros, sempre líderes empresariais ou empreendedores, se reúnem para discutir e ajudar a superar desafios empresariais. Qualquer empreendedora que também é mãe pode (e deve) procurar aconselhamento com outras profissionais de sucesso no mundo da família e no mundo dos negócios. Haverá melhores dicas do que as de alguém que superou bem essa realidade?

Em 2022, Portugal ficou em sexto lugar no ranking da Mastercard dos países com mais mulheres empresárias a nível global. Não estou certa de que posição ocuparemos este ano, mas gostaria que subíssemos este lugar, ou pelo menos o mantivéssemos!

 

Arquivado em:Opinião

Brian Klass: «Existem muitos preconceitos quando se trata de escolher líderes. Alguns óbvios: racismo e misoginia»

8 Maio, 2023 by Titiana Barroso

Depois de entrevistar centenas de líderes corruptos, Brian Klaas escreveu o livro Corruptíveis que percorre os meandros da mente de quem lidera – usando e abusando do poder que lhe foi atribuído. Também não escapa ao escrutínio do autor os cidadãos que permitem que cheguem ao poder este tipo de pessoas com perfis de psicopatia.

Segundo Brian, uma em cada cem pessoas no mundo apresenta traços de psicopatia, contudo esse número sobe para 25 em cem, quando falamos de lideranças de empresas e organizações, incluindo políticas. Brian é Professor Associado de Política Global na University College of London, é também comentador televisivo e Consultor Político. É o Apresentador do podcast Power Corrupts. É especialista em Democracia, Autoritarismo e Política Externa dos EUA. Autor de três livros, The Despot’s Apprentice: Donald Trump’s Attack on Democracy, The Despot’s Accomplice: How the West is Aiding & Abetting the Decline of Democracy e How to Rig an Election. Foi Conselheiro de campanhas políticas nos EUA, da NATO, da União Europeia, de investidores multibilionários, de ONGs e de políticos internacionais.

Nesta entrevista à Líder, reflete sobre alguns dos problemas que abordou de forma desenvolvida no seu último livro.

 

O que o levou a escrever sobre o poder e a sua estreita ligação com a corrupção?

Para a minha pesquisa visitei vários países problemáticos em todo o mundo – lugares cheios de violência, pobreza e desigualdade. Encontrei algumas pessoas verdadeiramente poderosas que muitas vezes eram carismáticas, mas também frequentemente corruptas e psicopatas. Interroguei-me por que razão tantas pessoas horríveis chegam a posições tão relevantes. Quanto mais falava sobre isso com os outros, mais percebia que esse sentimento – de os líderes muitas vezes serem os piores de nós, e não os melhores – é bastante universal. Nunca encontrei alguém que me dissesse “Sim, acho que compreendemos perfeitamente o acesso ao poder e todos os nossos líderes atuais são exatamente quem deveriam ser”. Fiquei intrigado por que nós, como espécie, fizemos tantos avanços na solução de problemas em várias áreas e, no entanto, quando se trata de poder, estamos a lidar com os mesmos problemas que preocupavam os antigos gregos e romanos.

Quando falou com líderes corruptos, quais foram os padrões de comportamento que identificou?

Os líderes carismáticos não são selecionados pela sua competência. São selecionados por parecerem poderosos e carismáticos. Como argumento no livro, com base na Biologia Evolutiva, Psicologia Evolutiva, Ciência Política, Psicologia e Neurociência, temos uma série de preconceitos cognitivos que nos levam a ser atraídos por pessoas que parecem ser bons líderes, mas não são. Quando entrevistei centenas dessas pessoas, o que me impressionou foi que muitas delas eram simpáticas e carismáticas individualmente.

«Entrevistei algumas pessoas verdadeiramente horríveis – criminosos de guerra, ex-déspotas, pessoas que ordenaram torturas. E achei alguns deles encantadores.»

No princípio estranhei, mas depois percebi que havia um insight importante: as pessoas que são boas a fazer os outros gostarem delas, não importa o que aconteça (esses indivíduos são magnéticos), são as pessoas que se tornam poderosas desproporcionalmente.

No livro refere que parece haver um potencial em algumas pessoas para serem corruptas, ou seja, nascemos com essa propensão e o mundo só nos oferece a oportunidade?

Com poucas exceções, como psicopatas, acredito que a corrupção e o abuso de poder são muito mais circunstanciais do que tendemos a acreditar.

«Noutras palavras, acho que tendemos a colocar a culpa nos indivíduos como se houvesse pessoas “boas” e pessoas “más” no mundo, e combater a corrupção é apenas reduzir o número de pessoas “más” no poder. Não acho que isso esteja certo. O mundo é mais complexo do que isso.»

Existem muitas pessoas que se comportam como pessoas boas, mas podem comportar-se como pessoas más se operarem dentro de um sistema corrupto, e o oposto também é verdadeiro. Ilustro este poto no livro com um estudo muito pertinente que é, acredite ou não, como esse princípio foi comprovado com multas de estacionamento na cidade de Nova Iorque. O que o estudo mostra é que as pessoas são o subproduto das suas próprias disposições, da sua cultura e dos sistemas nos quais vivem e trabalham. Mas é muito mais complicado do que tendemos a acreditar, e definitivamente não é apenas um caso de pessoas boas contra pessoas más.

O exemplo que dá sobre a estratégia de reforço da segurança nos aviões que regressavam do combate na Segunda Guerra Mundial demonstra que, na maioria das vezes, procuramos soluções para problemas mal identificados? Pode explicar isso?

No livro, escrevo sobre “preconceito de sobrevivência”. Há um grande exemplo disso na Segunda Guerra Mundial, em que um técnico de estatística foi encarregue de decidir onde reforçar a blindagem de aviões que realizavam bombardeamentos sobre a Alemanha durante a guerra. O que ele percebeu foi que os aviões com os quais se devia preocupar eram os “invisíveis”, os aviões que não podia ver porque estavam na Alemanha depois de terem sido abatidos. Os que conseguiram voltar, os que podia ver, foram os que conseguiram voar apesar de terem danos. Uso essa analogia para o poder, para dizer que a maior parte da análise de poder e corrupção se concentra nos “planos visíveis”. Noutras palavras, pensamos nas pessoas que são poderosas. O problema com isso é que qualquer um que seja poderoso “sobreviveu” a três níveis: eles queriam o poder, eles conseguiram o poder e permaneceram no poder tempo suficiente para serem importantes. Isso leva a duas ideias centrais do meu livro Corruptíveis: primeiro, precisamos pensar mais sobre colocar pessoas no poder que não o querem (os “planos invisíveis” na minha analogia); e segundo, precisamos pensar cuidadosamente sobre como projetar sistemas para que os melhores líderes sejam capazes de “sobreviver” aos três níveis de poder que identifico.

Ao olhar para os atuais líderes mundiais que marcam a agenda internacional, consegue identificar os bons e os maus? Os corruptíveis e os incorruptíveis?

Hesito em nomear líderes específicos, apenas porque a minha visão de “bom” e “mau” tem mais nuances. Conheci algumas das piores pessoas imagináveis e ainda há coisas boas em algumas delas. Da mesma forma, conheci algumas pessoas realmente inspiradoras, mas ninguém é perfeito. No entanto, estou obviamente extremamente preocupado com alguém como Vladimir Putin. Essa não é uma visão nova.

«Mas o que acho importante ter em mente é que Putin foi “selecionado” pelo sistema na Rússia. Ele foi capaz de sobreviver num sistema implacável porque ele era implacável.»

E isso é algo em que precisamos pensar, porque quem o substituir provavelmente estará a navegar no mesmo sistema que ele. Portanto, a menos que consertemos o sistema, Putin pode cair, pode haver um breve momento de celebração internacional e, então, quem quer que o substitua provavelmente acabará como Putin 2.0. Precisamos focar a nossa atenção na reforma dos sistemas, não apenas na substituição de indivíduos.

A situação que descreve no seu livro, onde reflete sobre o panorama da liderança no espaço público e privado, em que vemos homens brancos, tendencialmente altos, no topo das hierarquias, diz-nos que ainda temos um longo caminho a percorrer para sociedades mais igualitárias e não discriminatórias. Como se consegue acelerar esse processo?

Existem muitos preconceitos desatualizados na sociedade moderna quando se trata de escolher líderes. Alguns deles são óbvios: racismo e misoginia. No entanto, outros são menos óbvios e envolvem modelos desenvolvidos nos nossos cérebros para seleção de lideranças que faziam sentido quando éramos caçadores-recoletores tentando evitar predadores e derrotar tribos rivais na guerra, mas que já não conferem nenhuma vantagem a um potencial líder. Em Corruptíveis, identifico uma série desses preconceitos cognitivos absurdos porque acho importante destacá-los para combatê-los. No entanto, é preciso fazer mais e acho que muito mais esforço deve ser empregue para pensar em como recrutar pessoas mais diversas, tanto em termos de género como de raça. Uma das outras lições que aprendi com a minha pesquisa é que quanto mais pessoas recrutar, mais pessoas poderei remover da pool potencial, o que significa que as pessoas que acabam no poder serão melhores se forem atraídas de uma pool profunda ao invés de uma rasa. Isso significa que devemos pensar com muito cuidado sobre como atrair o maior número possível de novas pessoas para o poder, porque aqueles que têm fome de poder tentarão chegar ao poder independentemente do que fizermos.

No seu livro diz que ainda temos as nossas cabeças na idade da pedra. É por isso que escolhemos mal os nossos líderes?

Alguns aspetos da seleção da liderança são baseados na evolução. No livro destaco um estudo que mostra que, numa eleição, as crianças podem escolher com precisão os líderes simplesmente olhando para fotografias dos seus rostos, o que sugere que muitas das nossas escolhas dependem de características absurdas, como a configuração facial. As pessoas que nos parecem líderes têm maior probabilidade de se tornarem líderes. Além disso, em tempos de crise, é mais provável que as pessoas recorram a um homem fisicamente forte – essa é a origem do termo “homem forte”. Isso também tem raízes evolutivas, porque durante a maior parte da história da humanidade, escolher um homem fisicamente forte foi uma boa ideia. Agora, isso já não é verdade – mas os modelos nos nossos cérebros ainda podem estar a funcionar dessa forma, principalmente em momentos de emergência. (Esta é uma das razões pelas quais Vladimir Putin posa sem camisa). No entanto, algumas das razões são socialmente construídas, não evolutivas.

«Temos sistemas de poder que são sexistas e racistas, e também temos esforços de recrutamento que nunca pensam cuidadosamente em atrair os melhores de entre nós e filtrar os piores.»

Acho que podemos fazer muito melhor, mas o primeiro passo é reconhecer que estamos a ter um mau desempenho na seleção dos nossos líderes.

Esta situação põe em causa as democracias. Como combater isso?

A Democracia é, como Winston Churchill certa vez brincou, “a pior forma de governo, exceto todas as outras já experimentadas”. Concordo com isso. Tem falhas, mas é o melhor sistema que existe. Acho que precisamos de gastar muito mais tempo e dinheiro no recrutamento de candidatos. Atualmente, a maioria dos partidos políticos apenas espera por voluntários para concorrer ao cargo. Isso é o equivalente a estender o tapete vermelho a pessoas famintas de poder que querem entrar na política pelos motivos errados. Em vez disso, deveriam gastar muito mais recursos para encontrar pessoas que provaram ser líderes eficazes em cargos não políticos e tentar convencê-los a concorrer a cargos públicos. Não vai resolver tudo, mas Corruptíveis apresenta uma série de sugestões de como corrigir isto – é o último terço do livro – e estou otimista de que pode ser corrigido. Consegue imaginar a possibilidade do mundo se organizar de forma não hierárquica, onde a figura do líder seja diferente do que tem sido até hoje? Não. Não somos insetos sociais que se podem organizar e cooperar com feromonas emanados de uma única Rainha, precisamos de hierarquia para ordenar a sociedade.

«A história da humanidade teve períodos muito menos hierárquicos do que são hoje, mas era quando vivíamos em grupos muito menores, conhecidos como “bandos”, que geralmente tinham apenas 80 pessoas.»

Agora que vivemos num mundo globalizado e interconectado de oito mil milhões de indivíduos, divididos em cerca de 193 países, é impossível imaginar um retorno à ordem não hierárquica. Estamos presos aos líderes, então devemos conseguir ter os líderes certos.

Acha que a ideia de uma liderança sensitiva pode ser um caminho que mitiga essa forma de pensar a liderança e que nos leva a entregar o poder aos piores?

Acho que as pessoas que não querem o poder têm maior probabilidade de exercê-lo com eficácia. Eles também são mais propensos a serem sensíveis aos outros. Em Corruptíveis escrevo sobre o conceito de distância psicológica, que é a ideia de que os líderes devem estar perto o suficiente das pessoas que estão a impactar para ainda se importarem com elas, mas emocionalmente longe o suficiente para serem capazes de tomar decisões racionais. É um equilíbrio.

«Neste momento acho que estamos a falhar no equilíbrio, pois muitos líderes nunca se encontrarão ou falarão com as pessoas que estão a ser impactadas pelas suas escolhas.»

O CEO de uma empresa que está a despejar lodo tóxico em algum lugar da África Ocidental, por exemplo, nunca terá de ver as consequências das suas escolhas – a sua distância psicológica é muito grande. Acho que precisamos de pessoas no poder para entender o peso da responsabilidade e ter lembretes constantes sobre como as suas escolhas estão a afetar a vida das pessoas reais.

Depois de escrever este livro, que tipo de recomendação daria aos líderes de empresas ou organizações?

Existem 10 princípios que concluem o livro e sugiro que eles os sigam. Mas, além desses, daria alguns pequenos conselhos. Primeiro, projete cada sistema tendo em mente a pior pessoa do mundo. Imagine que tem um psicopata a tentar ser contratado, promovido ou à espera de se tornar o CEO. Agora, projete o seu sistema com essa pessoa em mente – ele eliminará as maçãs podres. Em segundo lugar, pense cuidadosamente sobre como atrair aqueles que naturalmente não querem o poder. Eles geralmente são os melhores líderes. Em terceiro lugar, quando estiver a tentar decidir a quem dar o poder, faça uma pergunta muito simples: “Para que quer o poder?” Essa pergunta é difícil para as pessoas sedentas de poder responderem, porque para elas o poder é um objetivo em si, não um mecanismo para alcançá-lo. Para as pessoas que realmente se importam com algo ou alguém, o poder normalmente é visto como um fardo necessário, que pode e deve ser exercido com cuidado para mudar o mundo para melhor. As pessoas certas terão uma boa resposta para essa pergunta. Não podemos “corrigir” o poder para não produzir maus resultados algumas vezes. Mas podemos fazer muito melhor.

 

Esta entrevista foi publicado na edição de primavera da revista Líder. 

Subscreva a Líder AQUI. 

Arquivado em:Entrevistas

Como detetar “red flags” antes de aceitar o emprego 

8 Maio, 2023 by Titiana Barroso

O burnout em contexto de trabalho surge devido a condições negativas sistémicas, como oportunidades de promoção desiguais, falta de autonomia ou flexibilidade, sensação de não pertença ou um desalinhamento de valores.

Assim, é importante que os candidatos a emprego estejam preparados para fazer perguntas durante as fases de entrevista e fazer observações pertinentes aos recrutadores, para identificarem “red flags” antes de aceitar o emprego. A Harvard Business Review deixa-lhe dicas para evitar entrar num emprego que, à partida, já está desalinhado com o que pretende.

Falta de Autonomia

Pode sentir-se em burnout quando sente que tem pouco poder de escolha em como e quando trabalhar. Os gestores de uma organização saudável vão confiar em si para fazer o seu trabalho da melhor forma. Para avaliar como uma empresa encara a autonomia, pergunte:

  • Tenho flexibilidade sobre quando faço o meu trabalho durante o dia?
  • Como avaliam as minhas horas de trabalho?
  • Como atribuem as cargas de trabalho e prazos?
  • Se houver trabalho por turnos, quanto tempo de antecedência dão em termos de mudanças de horário?

Preste atenção: é importante garantir que o seu manager é aberto, flexível e que não faz “micromanaging”. Respostas claras a essas perguntas indicam que as expectativas estão alinhadas em toda a equipa e que os colaboradores recebem a autonomia adequada.

Falta de justiça

Quando o seu trabalho não é valorizado ou não se sente tratado com igualdade , é fácil sentir-se em burnout ou desmoralizado. Para evitar que entre numa organização que não valoriza os colaboradores, pergunte:

  • Que tipo de métricas são recolhidas para fazer avaliações?
  • Como é que se decide quem é promovido?
  • Têm um processo para revisões de equidade salarial?
  • Tem um responsável de diversidade?
  • Como são comunicadas as metas de diversidade?

O importante é saber se a empresa possui processos proativos que garantem um maior património e quantos recursos a eles são alocados. Se a empresa não estiver a recolher dados sobre a diversidade ou equidade, ou se o entrevistador não se sentir à vontade para responder a essas questões, é improvável que as considerem relevantes na empresa.

Carga de trabalho insustentável

De acordo com o estudo da Gallup “Employee Burnout, Part 1: The 5 Main Causes”, os colaboradores têm 70% menos probabilidade de sofrer um burnout quando têm tempo suficiente para fazer o seu trabalho.

Para entender como um potencial empregador valoriza o seu tempo dentro e fora do local de trabalho, pergunte:

  • Quais são as horas de trabalho padrão? Com que frequência as pessoas precisam de trabalhar aos fins de semana?
  • Quanto tempo se gasta em reuniões? Para quando estão programadas?
  • Qual é o tempo de resposta esperado nos e-mails?
  • Como se priorizam tarefas e reduzem a sobrecarga?
  • Como é que a equipa comunica quando tem muito a fazer?

Com as respostas que recebe, parece que a empresa tem uma cultura agitada em que todos precisam estar disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana? Espera-se que assuma muitas tarefas não remuneradas? As reuniões são agendadas regularmente no início da manhã ou depois das quatro? Preste atenção também em como é tratado durante o processo de entrevista. Os recrutadores chegam no horário agendado? Mantêm o contacto durante todo o processo?

Arquivado em:Gestão de Pessoas, Notícias

E se lhe dissermos que a natureza é essencial no equilíbrio emocional dos líderes?

8 Maio, 2023 by Titiana Barroso

Vivemos num mundo conturbado, repleto de acontecimentos que irão exigir grandes adaptações. Valores se alteraram e muito rapidamente acabamos por nos habituar a um estilo de vida que nos trouxe algumas penalidades.

Contudo, nem tudo será negativo! Devemos reconhecer que de tantas alterações, a evolução tecnológica também nos trouxe coisas boas, permitindo um fluxo de informação que fez “cair” determinadas temáticas que ainda eram vistas como grandes tabus.

A saúde mental, era um desses temas tabus de difícil discussão e até mesmo reconhecimento.  De repente passou a ser tema da atualidade e cada vez mais, é notória a preocupação crescente face às causas que provocam a degradação da nossa saúde mental. Inúmeros motivos podem ser alegadamente nocivos ao nosso equilíbrio mental, emocional e físico e podemos recorrer a vários estudos para percebê-los melhor.

Fala-se do stress, da depressão e da falta de saúde emocional no trabalho uma vez que têm um impacto elevado tanto na sociedade como na economia, porém as causas dessa problemática acabam por ter muitas vezes uma origem que vem lá de trás, resultando de uma série de questões que provavelmente venham da infância.

Enfim, a ideia deste artigo não é focar nos problemas, mas sim realçar o importante papel que a natureza pode desempenhar enquanto fator primordial para a nossa qualidade de vida.

Os seres humanos, precisam equilibrar o tempo passado em ambientes de stress com o tempo dedicado a atividades ao ar livre em contato direto com a natureza.

Se investirmos em ações, projetos e programas que aproximem crianças e adultos da natureza, tanto quanto investimos em novas tecnologias e na sua acessibilidade, estaremos a oferecer à nova geração – e à sociedade – benefícios incontáveis.

Cada vez mais, presenciamos crianças e jovens a cumprirem agendas repletas de atividades pré-programadas, passando horas conectados às redes sociais e dias inteiros indo de salas de aula para quartos cercados de concreto.

É necessário voltar à base nalgumas questões fundamentais da nossa experiência de vida. Proporcionar momentos e espaços adequados para o desenvolvimento pessoal que as crianças e os adolescentes tanto necessitam.

Não podemos esquecer que os jovens de hoje serão os líderes de amanhã. Precisamos atuar!

 

Arquivado em:Liderança, Notícias

Já foi criada a Aliança Portuguesa para a Promoção da Saúde Mental no Local de Trabalho

8 Maio, 2023 by Titiana Barroso

Acaba de ser criada a Aliança nacional que promove a Saúde Mental no local de trabalho em Portugal.

A ASM – Aliança Portuguesa para a Promoção da Saúde Mental no Local de Trabalho foi apresentada no final de abril, na FLAD (Fundação Lusoamericana para o Desenvolvimento). Gabriel Bastos, Secretário de Estado da Segurança Social, reforçou a importância desta aliança para unir esforços de reflexão conjunta em torno da Saúde Mental. Comentou ainda que: “Somos seres relacionais e somos por isso mesmo influenciados pelos meios em que vivemos. Precisamos de espaços de trabalho felizes e saudáveis, mas infelizmente isto não acontece assim demasiadas vezes”.

“Precisamos de garantir uma estreita colaboração entre as várias áreas governativas, de forma coordenada e ainda intervenção dos diferentes atores sociais no contexto da Sociedade Civil. Precisamos de unir esforços para enfrentar problemas complexos, como é o caso da Saúde Mental. É isso mesmo que a ASM se propõe a fazer, uma Aliança que vem agregar esforços” acrescentou.

A ASM, juntou os principais atores no panorama nacional com responsabilidade em áreas fundamentais para a promoção da Saúde Mental no Local de Trabalho. Ministério da Segurança Social, Autoridade para as condições de Trabalho, Coordenação Nacional das Políticas de Saúde Mental, Coordenação do Programa Nacional de Saúde Ocupacional, Organização Internacional do Trabalho e organizações públicas e privadas, abordaram os temas mais críticos no que toca à Saúde Mental em Portugal, em particular em contexto de trabalho, assumindo a importância de atuarem de forma articulada e em aliança para enfrentar um problema complexo e de enorme dimensão, que tem sido continuamente ignorado e subfinanciado face à dimensão e impacto do mesmo.

Nas várias intervenções foi reforçada a importância da atuação precoce, ao nível da promoção e prevenção da saúde mental, que não se esgota no setor da Saúde, mas envolve o da Educação, o do Trabalho e a Sociedade Civil como um todo. “Já está comprovado que um modelo reativo de resposta e tratamento à doença mental grave não chega. Precisamos de uma mudança de paradigma. Temos de tratar esta questão como um problema epidemiológico, um problema de saúde pública e alterar a forma como o abordamos. Precisamos de um modelo multidisciplinar que envolva também a sociedade civil”, refere Miguel Xavier, Coordenador das Políticas de Saúde Mental em Portugal.

Na mesma linha de trabalho o Coordenador do Programa Nacional de Saúde Ocupacional, José Rocha Nogueira, referiu que está a ser preparado um novo Guia Técnico que pretende ajudar a promover a literacia em Saúde Mental. Acrescentando ainda que a saúde mental será também prioridade no novo Ciclo Programático com início em 2024, com objetivo de ajudar na diminuição dos riscos psicológicos e na criação de melhores condições de trabalho.

A Inspetora Geral do Trabalho, Fernanda Campos, saudou a constituição da Aliança que considera ter um papel importante para as mudanças que se pretendem promover numa área que assume uma importância extrema, reiterando a disponibilidade da ACT em ser um parceiro ativo na concretização da sua missão.

De igual forma, a representante do escritório de Lisboa da Organização Internacional do Trabalho, Mafalda Troncho, salientou o importante dia que se assinalava e o papel da OIT pela inclusão de “um ambiente de trabalho seguro e saudável” como princípio fundamental do Direito no Trabalho, e no âmbito do qual a saúde mental é uma dimensão importante a considerar.

Pela voz de Filipa Palha, Presidente da ASM ouvimos os objetivos da Aliança, pioneira em Portugal pela forma como agrega os diferentes stakeholders num trabalho conjunto rumo ao combate ao silêncio e estigma em torno da saúde/ doença mental. Ficou claro o reforço do compromisso desta nova Aliança, como sistema agregador, dinamizador, promotor do diálogo e cooperação entre organizações públicas e privadas de diferentes dimensões e áreas de atividade, alinhados com os compromissos internacionais. “Temos muito trabalho pela frente, num contexto político económico e social com desafios exigentes.

Mas hoje estamos mais fortes porque deixámos de estar sozinhos. […] Podemos, pois, acreditar que a ASM começa a ser o espaço de cooperação que não existia, e que contribuirá para que, em conjunto, sejam dados os passos necessários para chegarmos mais longe na promoção da saúde mental no local de trabalho”, conclui.

 

 

Arquivado em:Notícias, Trabalho

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