“O burnout não é uma doença natural, é produzida socialmente”, quem o afirma é Carla Furtado, durante a talk “Organizações Burnout Free”, no Leading People – International HR Conference “Act now for Human Health”, em que abordou as questões de definição da síndrome e as circunstâncias em que surge. E as lideranças estão também em […]
“O burnout não é uma doença natural, é produzida socialmente”, quem o afirma é Carla Furtado, durante a talk “Organizações Burnout Free”, no Leading People – International HR Conference “Act now for Human Health”, em que abordou as questões de definição da síndrome e as circunstâncias em que surge.
E as lideranças estão também em sofrimento, não são apenas os colaboradores. “O líder que orquestra a liderança de valor precisa de autocuidado, e isso só acontece se tiver as condições reunidas para o fazer. Só depois entramos nas ações de promoção do bem-estar do colaborador”.
A Professora e autora do livro “Feliciência – Trabalho e Felicidade da Era da Complexidade”, define os três grandes aspetos reconhecidos como característicos da síndrome de burnout:
- Exaustão física e emocional. “Esta exaustão advém de um stress agudo e crónico que o indivíduo já não tem capacidade de gerir”, esclarece.
- Negativismo e cinismo em relação ao trabalho
- Perda de perceção da autoeficácia
Porém, reduzir o burnout a três características seria estar a simplificar muito um problema que afeta tantos milhões de colaboradores: “assim, estamos apenas a ver a ponta do iceberg”, declara a autora.
“Portugal, na comunidade europeia, está entre os países com maior risco para o desenvolvimento de burnout”, na sua perspetiva a posição das organizações é meramente reativa, em que os colaboradores apresentam sintomas, e as empresas tentam remediá-los.
No entanto, para entender na sua totalidade do que se trata esta síndrome, é crucial fazer uma análise mais detalhada do que, de facto, tornou o burnout uma doença socialmente produzida.
Baseando-se na Teoria U do MIT, Carla Furtado apresenta três grandes ruturas que contribuíram para o aparecimento do burnout foram:
– Rutura ambiental: os interesses da economia foram privilegiados e o ambiente ficou para trás, e que se verificou ser insustentável. “Dados pré-pandemia já nos mostravam que se continuarmos com estes padrões de consumo, vamos precisar de um planeta e meio. Com estes hábitos de consumo, o planeta não se consegue regenerar”, acrescenta.
– Rutura Social: “A ideia de que podemos sustentar um planeta em que 1% da população detém a mesma riqueza que 90% da população mundial é irreal”, esclarece, acrescentando que há uma grande incoerência nas pessoas, em que uns têm muito, e outros morrem à fome.
– Rutura Espiritual: “O momento em que o individuo rompe consigo mesmo. A crise do sentido do trabalho, qual é o propósito?” Aqui, a rutura são todos os transtornos de ansiedade, depressão, chegando até ao suicídio.
Ainda assim, o problema é mais complexo. O que acontece agora é um sofrimento social, daí ser tão importante o ambiente no trabalho não ser tóxico. A proposta da autora é um crescimento de valor, e não um crescimento ilimitado que não se preocupa com as pessoas. “Precisamos de entender o bem-estar de uma forma mais ampla, para não corrermos o risco de algumas narrativas das organizações”, acrescenta. O bem-estar psicológico é fundamental no local de trabalho, e para isso é necessário que as empresas tenham um sentido de propósito.
“Precisamos de entender quais são os valores presentes no dia-a-dia e na realidade das empresas, não o que está afixado nas paredes ou escrito nos sites”, alerta.
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Por Denise Calado


