Enlouquecer, sim, mas devagar

Agora que o nosso dia-a-dia tornou-se uma constante: “afasta”, “desinfeta”, “isola”, “não toca” – estamos a negar a mais profunda essência humana de necessidade de relação, toque, proximidade, num esforço sobre-humano de nos defendermos de uma possível ameaça, esquecendo que há outra a pairar e bem mais próxima do que poderemos pensar – o declínio da nossa saúde mental. Será esse o nosso destino? Já não será morrer em batalha mas deixar escorrer por entre os dedos, a nossa sanidade? Lentamente, tal como na história do sapo em lume brando?

Se juntarmos a esta equação, a incerteza, os receios, a pressão de um dia a dia laboral com toda a família junta no mesmo espaço ou a ansiedade de desempenhar uma função no local de trabalho estando o resto da família em casa ou mesmo para quem está sozinho e há meses fechado em casa em teletrabalho sem ver família, amigos ou colegas, temos os ingredientes para uma mistura explosiva em que nem toda a resiliência do mundo nos salvará indefinidamente.

Não irei abordar os comportamentos compulsivos, o aumento de depressões e consequente número de venda de antidepressivos, ataques de pânico, burnout, entre outros; mas como simultaneamente espectadora e protagonista procuro, no âmbito das minhas funções de gestora de pessoas, meios para poder apoiar quem se debate com a dificuldade em conciliar todas estas pressões e de se reajustar a esta insana realidade. Deparo-me contudo, com bastante resistência. Ainda existe um sentimento de vergonha ou pelo menos de um desconforto em admitir que algo poderá estar errado com o nosso estado mental e a dar-lhe a devida importância. Ainda existe o estigma de podermos ser vistos aos olhos dos outros, como menos fiáveis, fracos ou de quase fracasso.

Há uns anos, um proeminente CEO, António Horta Osório, admitiu publicamente a devastação mental pela qual passou devido a um ritmo alucinante de trabalho combinado com poucas horas de sono e um nível de ansiedade tremendo. Quando levado por um período temporal excessivo o resultado pode ser catastrófico, como ele próprio verificou. Na altura, este banqueiro para além de ter partilhado a sua experiência criou um programa interno de mindfulness, nutrição e estudo de personalidade para promover o bem-estar psicológico dos executivos, o que foi algo inédito e de extrema coragem admitir a sua vulnerabilidade e usá-la para ajudar os outros. Como gestores de pessoas deveremos usar este exemplo, difundi-lo e procurar ferramentas e estratégias, sejam estas baseadas nas metodologias do Coaching, na Programação Neurolinguística ou no “simples” reequilíbrio da nossa dieta e atividade física e fazer recentrar-nos no essencial, trazer-nos para o presente e manter-nos focados no nosso bem-estar e de quem nos rodeia. Principalmente não escamotear a nossa responsabilidade para com estas questões, continuar a falar sobre elas e não deixar que as nossas mentes desvaneçam lentamente na obscuridade da vergonha e da indiferença.


Por Daniela Pinheiro, Membro da Comissão Executiva do GPC da APG e HR Learning & Development Manager

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