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Home Leadership Notícias Morrer é bom? A finitude como chave da vida e da liderança

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Morrer é bom? A finitude como chave da vida e da liderança

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29 Setembro, 2025 | 14 minutos de leitura

Na tarde da 9.ª edição da Leadership Summit Portugal, o Salão Preto e Prata do Casino Estoril voltou a encher-se, desta vez com um tom mais reflexivo. Da inteligência artificial às novas linguagens da liderança, da reinvenção do trabalho à urgência da inclusão, a segunda parte da conferência, ‘New Rules for Politics, Earth, AI and […]

Na tarde da 9.ª edição da Leadership Summit Portugal, o Salão Preto e Prata do Casino Estoril voltou a encher-se, desta vez com um tom mais reflexivo. Da inteligência artificial às novas linguagens da liderança, da reinvenção do trabalho à urgência da inclusão, a segunda parte da conferência, ‘New Rules for Politics, Earth, AI and Humans’, trouxe debates que se estenderam do plano empresarial ao político, mas também ao íntimo e ao existencial. Foi um percurso que colocou em cima da mesa não apenas a transformação tecnológica e social que atravessa o mundo, mas também a questão maior da condição humana: o modo como vivemos e, inevitavelmente, o modo como morremos.

E foi precisamente nesse território sensível o final de um dos momentos mais inesperados da tarde. ‘Morrer é Bom? ‘ juntou a atriz Joana Seixas e o criativo Hugo van der Ding num diálogo que trocou estatísticas por emoções e teoria por experiência vivida. «Nós branqueamos a morte, limpamos a visão do morto», lembrou Hugo, antes de reconhecer que muitas decisões, grandes e pequenas, estão afinal mais nas nossas mãos do que imaginamos: «Temos de alargar o nosso cuidado ao maior número de pessoas que conseguirmos.» Esta é a segunda parte de tudo o que aconteceu na cimeira, e poderá ler a primeira aqui.

Joana, por sua vez, trouxe a urgência do planeta e do consumo ao centro da conversa: «Estamos a gastar recursos a uma velocidade alucinante e continuamos a acelerar um consumo desenfreado. Talvez tenhamos de fazer um decrescimento.» Para ambos, a reflexão sobre a morte é, afinal, uma reflexão sobre a vida — «Só tendo uma vida feliz podes ter uma morte feliz», resumiu a atriz.

Hugo van der Ding e Joana Seixas

Uma conversa divertida sobre a morte

Joana Seixas e Hugo van der Ding divertiram-se num diálogo que explorou a finitude como eixo da condição humana e da responsabilidade individual e coletiva. O criativo começou por lançar um alerta sobre o ritmo insustentável do nosso mundo: «Achas que o planeta não vai sobreviver mais 50 anos? Isso implica termos menos carros. Exige uma reflexão. Não devemos precisar de tanta coisa. De carros, por exemplo. Porque raio tenho dois carros?» Joana Seixas, nessa senda,  trouxe uma perspetiva económica e ambiental, sublinhando a urgência de repensar o nosso modelo de vida: « O PIB não distingue onde o dinheiro é gasto, seja em educação ou em deflorestação. Temos de olhar para a economia de outra forma. Talvez tenhamos de fazer um decrescimento.» Criticou a substituição constante de bens, um fenómeno que considera mais cultural do que tecnológico: «Estamos a trocar bens que foram feitos para durar muitos anos por carros elétricos. Não é a questão da tecnologia em si. É a absurda substituição por novas coisas e esquecemos as prioridades.»

No centro do debate estava a relação entre a consciência da morte e a forma como vivemos: «O paradigma da morte é muito interessante. Se vivêssemos para sempre, não nos comportaríamos da mesma forma», observou Joana. Sublinhou a importância de um equilíbrio consciente: «No frisson da cidade estamos desligados. Só tendo uma vida feliz podes ter uma morte feliz. Tentar não estar mal comigo própria. A nossa ligação com a natureza ajuda a relativizar tudo.»

A atriz Joana Seixas

Hugo Van der Ding reforçou a ideia de responsabilidade coletiva, mostrando como a reflexão sobre a finitude nos liga à sustentabilidade: «Cada decisão, desde os pequenos hábitos até aos grandes investimentos, tem consequências que ultrapassam o nosso próprio tempo. Precisamos de olhar para o impacto das nossas ações sobre o planeta e sobre os outros, de expandir o nosso cuidado para além de nós mesmos.»

A conversa evoluiu para a tensão entre o excesso de consumo e a escassez de recursos, a urgência de mudanças sistémicas e a necessidade de recuperar uma conexão com a natureza. «Não precisamos de mais coisas, precisamos de mais consciência», disse Joana, sintetizando a reflexão do dia. Entre economia, ecologia e filosofia, a dupla mostrou que a finitude não é apenas um desafio existencial, mas um convite à simplicidade, à atenção e à responsabilidade ética — individual e coletiva.

No final, ficou claro que morrer não é apenas inevitável, é também uma lente através da qual podemos reavaliar prioridades, hábitos e escolhas. Reconhecer a nossa finitude é, paradoxalmente, o primeiro passo para uma vida mais plena e mais consciente, onde o cuidado, a empatia e a conexão com os outros e com o planeta se tornam imperativos.

O criativo Hugo Van der Ding

 

Liderança inclusiva, novas espécies e o fim da nossa

O palco, depois de almoço, abriu-se aos Global Shapers, com a apresentação de Raquel Bilro e um vídeo de Warda Bouye, trazendo a energia das novas gerações para dentro da sala. Bilro lançou o desafio de olhar para a realidade sem esperar por mudanças vindas de fora: «Temos duas opções sobre os sistemas de educação — esperar que aconteçam por si, ou decidir o que podemos fazer sobre isto. Às vezes temos de fazer as regras e reinventá-las, é para isso que servimos: inspirar». A sua mensagem era clara — liderança é escolha e condição para abrir portas, mesmo quando parecem fechadas.

Já Warda Bouye acrescentou uma nota de urgência serena, lembrando que «a liderança é menos sobre falar e mais sobre ouvir», e que demasiadas vozes femininas foram ensinadas ao silêncio. Para ela, criar espaços de coragem e conexão é o primeiro passo para mudar, porque «todas as sociedades são construídas pelas histórias que são ouvidas».

Raquel Bilro é Global Shaper do Hub Lisboa

 

A inteligência artificial voltou a ocupar o epicentro da cena com Robert Engels, da Capgemini, e o seu provocador Next Species Pact. Engels desafiou o auditório a refletir: «Large language models não são modelos de conhecimento. São excelentes a gerar conceitos simples, mas carecem de profundidade». Esta ideia ecoa debates teóricos atuais, segundo os quais os LLMs funcionam com base em previsões estatísticas de texto, sem a capacidade de absorver plenamente o significado ou de entender contextos complexos de forma verdadeira. Engels sublinhou que, apesar da evolução do ChatGPT e de ferramentas multimodais e multilíngues, persistem limitações que não se podem ignorar: «continua a ser a mesma coisa», disse, «mas com novas reprogramações».

O especialista foi mais longe: «Temos de fazer muito para resolver este contexto. Nós, humanos, somos muito bons a resolver». Para Engels, a chave está em «dar permissão a trabalharmos juntos», sem ingenuidade: «não podemos ser naives». Humane, supportive, flexible, composable, knowledgeable — são os atributos que, na sua perspetiva, terão de guiar esta nova relação. «Temos de masterizar uma nova colaboração entre humanos por causa destas novas espécies tecnológicas», defendeu, deixando no ar a noção de que a próxima etapa da humanidade passa tanto pela nossa capacidade de nos adaptarmos como pela coragem de redesenhar o contrato social com a própria tecnologia.

Robert Engels é Global CTIO and Head of Lab for AI Futures and Insights & Data da Capgemini

 

Natalidade em foco, acreditar nas pessoas e apostas diferenciadoras

Pedro Moura, da Merck Portugal, subiu ao palco para a FLASH TALK – Leading the Game, Win with Humanity, trazendo um tom de alarme: a liderança, disse, tem de olhar para o futuro com olhos humanos e atentos. Trouxe um exemplo extremo, quase distópico: o Japão daqui a umas centenas de anos será um país onde talvez só exista uma criança. Os índices de natalidade, explicou, não são apenas números: são sinais de alerta. «Os números podem parecer abstratos, mas as consequências são bem reais», afirmou. Menos população significa menos geração de riqueza, menos capacidade de sustentar a segurança social, menos dinamismo no mercado de trabalho e nas empresas.

Para Pedro Moura, esta é uma emergência silenciosa que não permite passividade. As empresas não podem ser meras espectadoras da crise demográfica; têm de se envolver, de criar soluções. E apresentou um movimento de fertilidade, convidando as organizações a aderirem e a assumirem um papel ativo na construção de um futuro sustentável, onde a humanidade e a economia caminhem lado a lado.

Pedro Moura, Managing Director · Merck Group

Catarina Graça, da Claranet, trouxe ao palco a reflexão sobre uma Humanidade Aumentada e a nova linguagem da liderança, onde flexibilidade e bem-estar se erguem como pilares. Sublinhou a importância de um feedback transparente e claro com as equipas: «No setor tecnológico, os progressos são alucinantes», disse, lembrando que os líderes devem equilibrar o presencial e o remoto sem perder a leitura humana da gestão.

Hoje, afirmou, convivem nas empresas quatro gerações, cada uma com perspetivas distintas, e cabe aos líderes reconhecer e harmonizar essas diferenças. A inteligência artificial, acrescentou, amplifica o que fazemos, mas só nós compreendemos o porquê: «Qual é a marca que querem deixar nas vossas organizações? Mobilizar, inspirar e acreditar nas pessoas.» Uma chamada à ação, à liderança empática e à criação de organizações onde a tecnologia serve o humano e não o inverso.

Catarina Graça é People & Culture Executive Director na Claranet Portugal

Seguiu-se o debate Two Sides – New Rules for the Future of Work, com Filipe Seixas (ISQe) e Pedro Campos (Devoteam), moderado por Rita Rugeroni Saldanha, a explorar como tecnologia e pessoas estão a moldar o futuro do trabalho. O Fórum Económico Mundial destacou recentemente os desafios da inteligência artificial: escassez de talento, congelamento de contratações e líderes de recursos humanos a preparar a integração da IA nas empresas.

Pedro Campos foi direto: «Temos de olhar para a IA não como um fim, mas como um meio. Será que é uma moda? Discordo que vá destruir postos de trabalho.» E acrescentou: «O Forum Económico Munidal diz que vão aparecer mais empregos do que aqueles que vão ser suprimidos. É uma requalificação. A IA é o nosso copiloto. É o nosso assistente.» Sublinhou também que «é fundamental ter literacia digital sobre a IA e os líderes devem abrir espaço à experimentação», lembrando que, apesar das máquinas, só os humanos sabem porque fazem o que fazem.

Filipe Seixas trouxe o olhar estratégico: «Qual é o caminho de futuro das apostas diferenciadoras? Como manter constância em adaptabilidade e fulgor de talento? Olhar para as competências do futuro é essencial.» E reforçou: «O líder do futuro terá de aprender a trabalhar com IA, integrado na equipa. É importante ter um mindset aberto, explorar outras perspetivas e saber aproveitá-las.»

Filipe Seixas (ISQe) e Pedro Campos (Devoteam), moderados por Rita Rugeroni Saldanha,

No fundo, a mensagem foi clara: a IA não substitui, amplifica. A tecnologia e a liderança humana devem caminhar lado a lado, com curiosidade, experimentação e capacidade de adaptação. Como disse Pedro Campos, «temos de redesenhar as pessoas dentro da empresa», preparando líderes e equipas para um amanhã que já começou.

 

Sinfonia, transformar relações e a Humanidade como princípio

Pedro Gomes, da TP Portugal, trouxe ao palco The Human-AI Symphony, oferecendo um olhar sobre a convivência entre humanos e máquinas. Recordou que «o cérebro consome 20 watts de potência mas consegue mudar o mundo», enquanto a IA «produz informações que nos ajudam a tomar melhores decisões e pode aumentar a produtividade em 40%». Destacou que, na fase de formação, a IA «reduziu o tempo de aprendizagem e deu mais conforto aos nossos colaboradores».

«A IA procura todas as soluções possíveis para o nosso cliente», explicou, «tornando tudo mais eficaz e alinhado com as suas necessidades». Mas frisou a distinção essencial: «Não substitui talento, mas amplifica-o». Para Gomes, a liderança do futuro «orquestra, não escolhe lados», e cabe aos líderes «valorizar a colaboração e ter em conta os aspetos éticos». A mensagem final foi clara: «Temos de ter uma abordagem holística. Os humanos não deixam de ser a chave para a tomada de decisão. A IA traz densidade de informação, mas os humanos trazem a alma. Como numa sinfonia.»

Pedro Gomes, CEO da Teleperfomance em Portugal, trouxe o conceito de sinfonia ao palco

 

Netta Jenkins, CEO da Aerodei, veio com a liderança inclusiva na ponta da língua, apresentada como Inclusive Leadership Equation, mostrando que liderar não é apenas gerir, mas transformar relações, estruturas e confiança dentro das organizações. «Eu não acordei como uma líder inclusiva», começou por confessar, explicando que o percurso de liderança se constrói através da prática, do estudo e da experiência. «Quando saí da minha empresa, a minha equipa toda veio comigo. A receber menos, com incertezas e porquê? Porque confiam em mim», acrescentou, evidenciando a força da lealdade e do vínculo humano, que são a base de qualquer liderança eficaz.

Para Jenkins, a liderança inclusiva não se limita à gestão das pessoas, mas implica confrontar e adaptar os sistemas existentes: «A maioria de nós foca-se nas pessoas. Poucos estão dispostos a confrontar o sistema». É preciso coragem para desafiar estruturas rígidas, desmontar processos ineficazes e criar novas dinâmicas que favoreçam a colaboração e a resiliência organizacional. O foco, disse, deve ser sempre na confiança e na co-criação: «Um sistema por trimestre, co-criar com a tua equipa. Os sistemas devem servir os resultados do negócio, com agilidade e a resiliência».

Netta Jenkins é TECH CEO e especializada em liderança inclusiva

A abordagem de Netta é ao mesmo tempo humana e estratégica. Para ela, o sucesso de uma liderança inclusiva depende de compreender que cada indivíduo traz uma voz e um valor únicos, e que é responsabilidade do líder criar espaços para que essas vozes sejam ouvidas e valorizadas. «O sistema está fraturado. Tornei-me obcecada com pessoas. Estudei comportamento como uma cientista e resultou. A minha equipa ficou mais forte», disse, sublinhando que a liderança inclusiva é um processo contínuo de aprendizagem, ajustamento e compromisso com resultados sustentáveis, mas sempre centrada na dignidade e no crescimento de cada colaborador. No final deixou uma questão, na próxima reunião, decisão ou um desafio de equipa?

Com energia diferente, mas não menos marcante, Eduardo Soley apresentou o Game of Leaders, mostrando como a aprendizagem pode nascer do jogo e da empatia. «Enquanto não percebermos que antes de líderes somos humanos, não vamos conseguir ir em direção ao objetivo desejado», afirmou, sublinhando que a base da liderança eficaz é compreender e sentir o que os outros sentem. Explicou que o feedback positivo ativa a serotonina e que a colaboração estimula a oxitocina, reforçando que «a criatividade nasce na segurança. É a humanidade que nos faz ser melhores».

Eduardo Soley é Sócio e Head de Growth & Novos Negócios da Cuboo Experience

 

Aceda à galeria de imagens completa aqui.

Todos os conteúdos vão estar disponíveis em breve na Líder TV e nos canais 165 do MEO e 560 da NOS.

Marcelo M. Teixeira,
Jornalista

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