“Se não nos precavermos e não fizermos uma gestão da saúde relacionada com o trabalho, não vamos estar preparados para a próxima Pandemia, e a próxima Pandemia pode estar relacionada com a saúde mental”. O apelo é lançado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), na voz de Ana Paula Rosa, Gestora de programas da OIT, na […]
“Se não nos precavermos e não fizermos uma gestão da saúde relacionada com o trabalho, não vamos estar preparados para a próxima Pandemia, e a próxima Pandemia pode estar relacionada com a saúde mental”. O apelo é lançado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), na voz de Ana Paula Rosa, Gestora de programas da OIT, na talk “Saúde mental e bem-estar no trabalho”, durante o encontro do grupo Leading People, parte do projeto Leadership Summit Portugal, na “Casa da Praia” da Agência White (WYgroup).
E ainda acrescenta que “os fatores de risco psicossocial, as questões relacionadas com segurança e saúde no trabalho, saúde ocupacional e estratégias de promoção de saúde têm de entrar para a cultura das empresas e ser integradas nos diferentes sistemas de gestão”.
Em dados avançados pela OIT, estima-se que a depressão seja a segunda causa de incapacidade mais comum no mundo desenvolvido. Os distúrbios mentais são uma das três principais causas de absentismo do trabalho e de reformas antecipadas. E pela consequente diminuição da produtividade, o PIB na zona Euro cai entre 3 a 4%.
Há uma convicção partilhada entre a OIT e a OMS de que alguns transtornos de ordem mental estão associadas com questões do trabalho e têm de ser reconhecidos como tal. Prova disso, é que a partir de janeiro de 2022 entrou em vigor uma nova classificação da OMS que muda a categorização dada à síndrome de burnout. Hoje é reconhecido que “essa situação tem um conjunto de causas inerentes e manifestações, e que é um distúrbio emocional resultante de uma rotina de trabalho desgastante que se vem tornando cada vez mais frequente no ambiente corporativo.”
Sobre a questão da falta de saúde mental, e nas evidências e números que baseiam as convicções e o trabalho da OIT, em parceria com a Organização Mundial de Saúde (OMS), é necessário desconstruir o seu paradigma “como se fosse uma coisa dissociada da saúde, como um todo, quando não o é”. A saúde tem de ser vista como um todo integral, na sua dimensão física, mental, psicológica e social.
E ainda subsiste um problema, que é o estigma associado à doença mental. Esta é “uma pandemia silenciosa, oculta até há pouco tempo”, conforme refere Ana Paula Rosa. “A estigmatização social representa um obstáculo muito grande, não apenas na identificação dos problemas, mas na forma como se lida com eles, nomeadamente no contexto laboral”, afirma. Obstáculos esses na colocação e acesso ao emprego e oportunidades de formação profissional, bem como no entendimento dentro da organização e nos grupos onde a pessoa se relaciona, relativamente à sua capacidade para o trabalho.
Um dos conceitos centrais na abordagem às questões da saúde mental está nos riscos psicossociais que estão presentes em todos os contextos e formas de trabalho. Conforme refere a Gestora de programas, “os números gritantes do absentismo crescente, provocado pelos transtornos e doenças mentais, é de tal ordem significativo e visível, que a OIT justifica uma abordagem relacionada com os riscos psicossociais.”
Estes são riscos que têm a ver com a interação que se estabelece entre ambiente e conteúdo de trabalho, forma de trabalhar, expectativas e competências, e até o contexto cultural e familiar. Nesse aspeto, é feito o importante alerta de que “aquilo que as pessoas levam para o trabalho fica no trabalho e o que as pessoas desenvolvem no trabalho levam para a família”. A OIT considera que os riscos psicossociais, tais como fraca comunicação e baixos níveis de participação, falta de oportunidades de desenvolvimento de competências, carga excessiva de trabalho, violência física e psicológica, assédio entre outros preditores associados ao stress, ansiedade e depressão, têm um peso determinante na saúde e bem-estar nos trabalhadores. É por isso que devem ser equacionados caso a caso, pelas empresas e organizações, e não considerados como uma questão de auto gestão da saúde.
Ana Paula Rosa identifica as áreas prioritárias em que as empresas devem intervir, tais como carga, ritmo e horário de trabalho, a violência e assédio, conciliação entre vida pessoal e profissional e a segurança no emprego. Também é exigida uma visão e abordagem abrangente, tendo em conta a saúde global, em que para além da identificação dos fatores de risco psicossociais, é importante priorizar a sua prevenção, com a vigilância adequada e proteção da saúde dos trabalhadores.
. As empresas são por isso chamadas a escolher estratégias que estejam ao alcance e adaptadas às características dos trabalhadores e da própria organização. Alguns exemplos, passam por o “direito a desligar”, maior comunicação, liderança e suporte, políticas públicas e diálogo social.
Acerca do papel dos empregadores, Ana Paula Rosa, conclui afirmando que “hoje as empresas são chamadas a ter outros papéis que não tinham anteriormente, a pensar no impacto das suas atividades e concorrer para estarem um pouco à frente daquilo que é previsto e solicitado pela lei”.
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Por Rita Saldanha

