“Boa informação e boa comunicação são essenciais para enquadrar a evolução da inflação que está envolta em elevada incerteza”, afirma Mário Centeno, Governador do Banco de Portugal, a que acrescenta que fatores como o aumento de casos Covid na Ásia e o conflito na Ucrânia “vieram contrariar as expetativas de que as pressões inflacionistas externas […]
“Boa informação e boa comunicação são essenciais para enquadrar a evolução da inflação que está envolta em elevada incerteza”, afirma Mário Centeno, Governador do Banco de Portugal, a que acrescenta que fatores como o aumento de casos Covid na Ásia e o conflito na Ucrânia “vieram contrariar as expetativas de que as pressões inflacionistas externas se dissipariam a breve trecho”.
“Política monetária e inflação: o que esperar?” foi o mote para a apresentação do ex-Ministro das Finanças, durante o encontro em Lisboa, do International Club of Portugal, onde deixou a mensagem de que a inflação na área do Euro deverá “manter-se elevada ao longo de 2022, ainda que se espere uma redução gradual e sustentada a partir de meados deste ano”. E não é de esperar uma espiral inflacionista vinda dos salários.
Para Mário Centeno, “a economia funciona com um todo, está aos mesmos níveis de 2019, mas é uma economia diferente”. Há “menos serviços, mais indústria e é necessário garantir condições de financiamento para rodos os setores”. E na área do Euro existem “preocupações de fragmentação financeira a tomar em linha de conta.”
As previsões do Banco Central Europeu (BCE) apontam para uma redução da inflação na zona Euro para níveis próximos de 2%, já em 2023/24. Contudo, o balanço dos riscos está em alta, pela possibilidade de extensão do conflito na Ucrânia e a aplicação de sansões sobre a Rússia, como na importação da energia.
Dos receios de um longo período de inflação baixa, os novos desafios da política monetária são agora de uma inflação excessiva, o que desencadeou um debate sobre qual a resposta a dar aos “choques inéditos” dos últimos dois anos, com efeitos contrários na inflação e na atividade económica.
Esta situação de feitos contrários, num contexto de desaceleração de crescimento económico, deve fazer-nos pensar. “É preciso ter calma e cautela quando analisamos esta situação”, diz Mário Centeno, a política monetária deve reagir, o que tem vindo a acontecer desde final 2021, entrando em processo normalização. “Paciência e gradualismo na política monetária são necessários, hoje como sempre, e devem ser proporcionais os choques que enfrentamos”.
Vivendo hoje um momento da história europeia que não seria possível antecipar, entre a recuperação de uma Pandemia e a invasão da Ucrânia pela Rússia, o impacto económico, social e geopolítico é de “elevada imprevisibilidade”. Hoje, a economia europeia enfrenta dois choques exógenos de grande dimensão, “sem precedentes” e ainda sobrepostos.
A raiz do processo inflacionista é bem identificada nestas duas dimensões. No entanto, a subida da inflação não se cingiu aos bens alimentares ou energéticos, ou seja, ela foi generalizada em todos os preços, o que Mário Centeno descreve como “processo de transmissão”. “Quanto menos temporário for o fenómeno inflacionista na sua origem, mais provável é que ele seja transmitido a outras componentes da inflação”, afirma relembrando o “animado debate” da inflação ser temporária ou permanente, assumindo a sua posição no “clube dos temporários”.
Segundo um recente inquérito global feito a líderes empresariais, partilhado pelo orador, o maior receio levantado sobre a condução da política monetária do BCE, no futuro próximo, é o de poder existir uma sobre reação que penalize a recuperação económica. “Os custos de uma política monetária agressiva fora do tempo, ou mesmo de uma normalização muito rápida, superam os benefícios”, alerta Mário Centeno, reforçando a importância do acesso a informação e dados atuais e fidedignos.
“Existe um risco de inação evidente, e esse risco está associado com a perda de credibilidade da capacidade do BCE em garantir a ancoragem da inflação no médio prazo”, realça. Há que garantir que essa reação permita o retorno da inflação ao objetivo de 2%, no médio prazo, algo que o BCE não conseguiu fazer durante muitos anos no passado recente, adverte.
Nas perspetivas partilhadas pelo Governador Banco de Portugal, o consumo privado na zona Euro está abaixo dos níveis pré-pandemia, mas o mercado de trabalho está mais alargado do que antes da Pandemia, o que é “absolutamente notável”. Mantem-se a tendência de crescimento contínuo nos salários, que segundo os últimos números disponíveis, até março de 2022, apresentavam valores médios, na zona euro, inferiores a 2%.
Para o Governador do Banco de Portugal, é importante ir seguindo a evolução das expetativas de inflação, ancoragem e indicadores salariais para obter dados mais seguros de forma a compreender estes processos que não são simples para a condução politica monetária a que acresce a coordenação com outras políticas.
Por Rita Saldanha


