Parar para desligar, parar para pensar com a ajuda da filósofa alemã Hannah Arendt, aluna de Karl Jasperes que se tornou cidadã americana, tendo morrido em 1975. A forma audaz como foi ao longo dos anos manifestado o seu pensamento através dos seus livros, fez dela uma figura incontornável da história do pensamento na Europa, […]
Parar para desligar, parar para pensar com a ajuda da filósofa alemã Hannah Arendt, aluna de Karl Jasperes que se tornou cidadã americana, tendo morrido em 1975. A forma audaz como foi ao longo dos anos manifestado o seu pensamento através dos seus livros, fez dela uma figura incontornável da história do pensamento na Europa, nos Estados Unidos e no mundo.
Quando falamos no Direito a Desligar é inevitável abordar o tema do pensamento, em particular do pensamento crítico, da relação do Homem com o trabalho, do tempo e do progresso, entre outros. O que a seguir poderá ler é um roteiro para parar e pensar, roteiro inspirado naquela filósofa, escrito por Samantha Rose Hill, investigadora no Centro de Política e Humanidades Hannah Arendt e professora Associada do Brooklyn Institute for Social Research. Samantha escreveu a mais recente biografia publicada em Portugal sobre Hannah Arendt.
I. A perda da Liberdade
A obra de Hannah Arendt de 1958 A Condição Humana trata os elementos fundamentais da atividade humana: os labores, o trabalho, a ação, vida privada e a ascendência do social. Esta ascendência do social faz colapsar a distinção entre a vida privada e pública e transforma toda a atividade numa forma de comodidade. No centro do seu trabalho está uma crítica à Modernidade e o receio de que a liberdade na época moderna não possa ser salva. Como é que criamos e protegemos os espaços da liberdade? Para Arendt o elemento fulcral para proteger a liberdade seria separar a Economia e a Política.
II. Eternidade e Imortalidade
Na nossa era Contemporânea temos trocado o desejo humano pela imortalidade (sermos lembrados após a nossa morte inevitável pelos nossos feitos e palavras em vida) pela eternidade (a falsa esperança de que podemos viver para sempre). Nós surgimos do planeta Terra, mas também fomos nós que o criamos. Temos, por isso, o dever de cuidar do nosso planeta – a única casa própria para a vida humana – temos o dever de criar um mundo em que cada pessoa que nasça seja livre de criar um novo começo, de se recriar.
III. Tempo e Progresso
Desde a Modernidade que o Homem tem falado sobre aceleração e progresso. Em entrevistas, Arendt muitas vezes mencionava que “o único tempo que existe é o tempo presente, o Agora”, “ninguém pode saber o futuro”; Contudo, temporalidade que governa as nossas vidas está sempre ligada ao futuro, mas nós existimos entre o passado e o futuro, incapazes de ver o que está mesmo diante de nós. Nem mesmo os melhores lógicos no mundo conseguem saber com certeza o que acontecerá daqui a cinco minutos. Para Arendt isto cria um problema para a vontade e para a ação. Como escreveu na Condição Humana, temos de parar para pensar no que estamos a fazer. Temos de recuar e pensar de novo em cada problema que surge perante nós; tomar uma decisão baseando-nos em experiências passadas seria um erro trágico, já que o mundo está em constante mudança, por isso, temos de constantemente de pensá-lo de novas maneiras.
IV. Pensamento Crítico
A conceção de pensamento crítico de Hannah Arendt refere-se a um pensamento crítico de reflexão em que existe um diálogo interno. Chamou-lhe “dois em um”, todos somos um “dois em um”. Neste espaço de pensamento “2 em 1” somos capazes de atualizar o próprio e, assim, responsabilizarmo-nos pelas nossas ações; interrogarmo-nos sobre os nossos princípios morais, que guiam o nosso comportamento, em vez de inconscientemente agirmos conforme o que estiver a acontecer. Para iniciar este tipo de pensamento precisamos de várias coisas: estar em harmonia connosco, ter um espaço de solidão em que possamos estar sozinhos e precisamos de nos retirar do mundo das aparências e da atividade.
V. Pluralidade no Pensamento
Nunca estamos tão solitários como quando estamos sozinhos. Vivemos num mundo com outras pessoas e as nossas experiências estão condicionadas pela pluralidade da experiência humana. Ao pensar, estamos a ser capazes de tornar o sentido da nossa experiência para nós mesmos. E todo o pensamento vem da experiência. O pensamento tem o poder de nos desconstruir ao questionar tudo aquilo em que acreditamos. É desconfortável e necessário.
VI. Tecnologia e Pensamento
Hoje mesmo quando estamos sozinhos, não estamos realmente isolados. Estamos constantemente rodeados por tecnologia, e podemos alcançar um smartphone, computador ou tablet assim que uma voz interior nos diz para o fazer, ou quando a solidão nos atinge, ou simplesmente não conseguimos suportar o silêncio das nossas casas. Aprender a pensar por si mesmo requer que se torne amigo de si e que abrace um mundo sem o vício constante da tecnologia. Temos de ter e arranjar tempo para pensar.
Esta pode ser uma das coisas mais poderosas que podemos fazer pela democracia hoje, investir na qualidade do nosso pensar, desenvolver a nossa capacidade de julgar, e escapar da bolha das redes sociais.
VII. Amor Mundi
Amar o mundo – Amor Mundi – significa amar o bom e o mau e o sofrimento que existe encerrado em si. É uma afirmação pura da vida que reflete o desejo insaciável pela experiência e entendimento de Hannah Arendt.
VIII. A banalidade do Mal
A banalidade do mal implica a incapacidade de imaginar o mundo da perspetiva do outro. Monstros não existem. Os homens existem e eles praticam o mal. Isto não significa que todos sejam capazes de fazer o mal, mas sim que se há uma maneira de condicionar as pessoas para não o praticarem, a resposta está no próprio processo de pensamento. Como é que pensa por si mesmo num momento em que os chips estão em baixo?
IX. Pensamento Poético
Num dos seus blocos de notas Arendt escreve a questão: “Existe alguma maneira de pensar que não seja tirânica?”. O oposto do pensamento tirânico, ou seja, o pensamento ideológico que divorcia a experiência do pensamento, é o pensamento poético – abordar o mundo com curiosidade e um espírito socrático que permita que cada um abrace a sua própria experiência sensual da vida.
X. Sentido
É a questão a que volto sempre quando leio Hannah Arendt e relaciona-se com a questão que é fundamental à condição humana: onde é que as pessoas vão buscar o seu sentido?
O crescimento de populismos de direita, estagnação económica, a perda da mobilidade de classe, epidemias e drogas, uma grande solidão, refletem uma sociedade que está a sofrer de uma grande crise existencial.
As pessoas perderam o sentido e precisamos de trabalhar em conjunto para criar espaços onde as pessoas possam realmente ter encontros significativos enquanto seres humanos, e nutrir as diferenças e espaços entre elas; isso requer que se pense sobre as experiências que cada um tem. Não podemos interpretar as pessoas através de frameworks pré-fabricadas, ou através de aplicações para redes sociais, mas sim através do mundo real, partilhando as nossas histórias com outros. Os seres humanos são inerentemente contadores de histórias.
Este artigo foi publicado na edição de inverno da revista Líder.
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