Começo por uma declaração pessoal: sou terminantemente contra o movimento woke e a cultura de cancelamento. Contudo, é um fenómeno – que não é novo, mas tem ganhado expressão nos últimos anos em Portugal – e reconheço que algumas causas que defendem têm de ser debatidas. Julgo que em qualquer sociedade democrática, valores como igualdade, […]
Começo por uma declaração pessoal: sou terminantemente contra o movimento woke e a cultura de cancelamento. Contudo, é um fenómeno – que não é novo, mas tem ganhado expressão nos últimos anos em Portugal – e reconheço que algumas causas que defendem têm de ser debatidas.
Julgo que em qualquer sociedade democrática, valores como igualdade, justiça, direitos são defendidos por todos. Há nomes dentro deste movimento que solidificam a sua “base teórica”: Kimberlé Crenshaw (o autor do conceito de “interseccionalidade”); Nikole Hannah-Jones (uma jornalista que criou o “1619 Project”, à volta da questão da chegada dos escravos africanos aos Estados Unidos); Robin DiAngelo (criadora do conceito “fragilidade branca”), ou Ibram X. Kendi (que popularizou o termo anti-racismo”), só para mencionar alguns. Muitos são os ativistas que tentam chamar a atenção para alguns propósitos, sendo talvez o nome de Greta Thunberg o mais conhecido, envolvendo a defesa do ambiente e a questão das alterações climáticas. (Embora o atual Rei Carlos III, enquanto Príncipe de Gales, tenha chamado a atenção para estas questões desde os anos 70).
Também poderíamos referir, mais recentemente, sobre racismo, o casal Harry e Meghan, Duques de Sussex, mas os eventos recentes comprovaram que, não só já não são levados a sério, como mentiram sobre as suas aclamações e mostraram-se ao mundo como apenas dois narcisistas à procura de atenção. Não desfazendo aqueles que verdadeiramente lutam e acreditam que estão a defender valores, muitos dos ativistas que se integram neste movimento procuram apenas isso: atenção para si próprios e alguns minutos de fama. Basta lembrarmo-nos daqueles que danificaram e vandalizaram obras de arte: nada fizeram que verdadeiramente diminuísse as alterações climáticas, por exemplo.
A perigosidade deste movimento, e as razões pelas quais abomino-o, prendem-se com alguns pontos que gostaria de deixar como reflexão. Já o filósofo Allan Bloom nos havia advertido sobre este movimento como o reflexo de uma crise intelectual. A cultura de cancelamento e o movimento woke defendem a supressão da liberdade de expressão: todo o discurso que se coloca contra o que defendem ou que põe em causa algumas das suas bases, muitas vezes tidas como verdades absolutas para eles, embora revelem falhas graves de conhecimento, é cancelado. Não há espaço para diálogo, tolerância e discussão de uma ampla análise.
Outra questão é a simplificação dos assuntos, construída numa narrativa binária de opressor e oprimido, sem referir as complexidades estruturais e desenvolvimentos das sociedades e da sua contextualização histórica. Exagero nas questões de identidade também não é positivo, pois perpetua a divisão da sociedade em questões de género, cor, entre outras divisões, provocando o efeito contrário ao defendido: sublinha os estereótipos que dizem querer acabar e promovem mais desigualdades e segregação. Obviamente que era necessário mais espaço para este debate, mas não podia de referir outros dois elementos, talvez os mais importantes pontos negativos desta onda: o impacto na criatividade e na expressão artística, bem como o fim da liberdade de pensamento na Academia.
Os artistas (em todas as vertentes, da literatura à expressão plástica) sentem a pressão da ideologia woke, com medo de não se enquadrarem nessas perspetivas, evitando certos tópicos ou temas, até, para não serem “cancelados”, perseguidos – desde o cyberbullying à destruição das suas obras, retaliação ou assédio – resultando nisto a limitação da liberdade de expressão artística, a exploração de novas e diferentes ideias, à diversidade na arte. No pensamento académico isso é verificado perigosamente: o espírito crítico, a exploração de ideias controversas ou a busca pelo conhecimento ficam tolhidos, espartilhados, por se ter receio de ofender, de se ser marginalizado ou silenciado.
Quando vemos um líder, indiscutível e inspirador, como Winston Churchill (1874-1965), a quem se deve tanto a nível mundial, a ser atacado, chamado de “imperialista sem-vergonha” por esta linha do movimento woke, está tudo dito.
Este artigo foi publicado na edição de outono da revista Líder, que tem como tema Reborn from Chaos: The Path for a New Renaissance, no dossier Leading Politics sobre A nobre e nova arte de mandar.
Subscreva a Líder aqui.

