O termo era desconhecido em França até 2020, mas tende hoje para se impor. Se o utilizamos, é porque indica a dupla origem do movimento, uma mais próxima e outra mais remota. Woke significa, antes de mais, «desperto» na linguagem popular afro-americana, e foi recuperado, por sua vez, pelo movimento Black Lives Matter (As Vidas […]
O termo era desconhecido em França até 2020, mas tende hoje para se impor. Se o utilizamos, é porque indica a dupla origem do movimento, uma mais próxima e outra mais remota. Woke significa, antes de mais, «desperto» na linguagem popular afro-americana, e foi recuperado, por sua vez, pelo movimento Black Lives Matter (As Vidas Negras Importam). Mas este termo remete igualmente para a noção de «iluminação», tão importante na história religiosa dos Estados Unidos, assinalada por toda uma série de «despertares religiosos» protestantes.
O termo woke é mais ajustado do que a expressão «politicamente correto», usada nos anos 1980 para descrever as correntes de pensamento que anunciavam estas ideologias. Contudo, «politicamente correto» era uma expressão essencialmente pejorativa, a que recorriam aqueles que se opunham às tentativas dos progressistas de então de controlar a linguagem e evitar expressões «discriminatórias». Por conseguinte, nunca ninguém se apresentava como «politicamente correto». Pelo contrário, o termo woke tem a vantagem de não ter sido inicialmente depreciativo, pelo contrário.
Foi por vezes usada uma outra denominação para designar estes militantes identitários, a de «guerreiros da justiça social» (SJW, social justice warriors). Esta reflete o carácter militante dos wokes e o facto de, para estes, que maioritariamente começaram por ser estudantes, as universidades não deverem visar a procura da verdade, mas sim estabelecer uma verdadeira «justiça social», inclusivamente com recurso a meios coercitivos. É, contudo, evidente que a expressão «justiça social» não está adaptada ao papel central que os militantes woke atribuem às noções de género e de raça, ao passo que a questão social é substancialmente deixada de lado.
Uma terceira expressão por vezes utilizada para designar a doutrina destes militantes woke é cancel culture, «cultura de anulação» ou de «cancelamento». Faz referência, neste caso também pejorativamente, não ao conteúdo, mas ao seu método de ação. Este hábito de «cancelar» os adversários é efetivamente um dos aspetos mais característicos e mais detestáveis deste movimento. Esta vontade de aniquilar e de eliminar os adversários evoca necessariamente a forma como os «inimigos do povo» iam sendo gradualmente apagados das fotografias soviéticas. Além do método, esta noção de cancel culture não permite saber que ideias os wokes querem verdadeiramente promover.
Um termo emprestado da cultura popular negra
O termo woke foi inventado pelos militantes negros americanos e recuperado na cultura dos campus universitários desde aproximadamente os anos 2010, primeiro em torno da teoria crítica da raça, mas, em seguida, mais genericamente, para designar o conjunto das correntes universitárias militantes, do género à interseccionalidade. Woke, na linguagem popular afro-americana, foi criado a partir de woken, o particípio passado do verbo wake, despertar. Esta ideia do despertar ganhou muito rapidamente um sentido político. Nos anos 1920, o profeta rastafári e militante negro de origem jamaicana Marcus Garvey tinha adoptado o slogan «Wake up Africa! Wake up Ethiopia!» para apelar a uma maior consciência política dos negros americanos. A exortação a «serem despertos» permanecerá presente na cultura reggae. O termo woke significa igualmente, nesta mesma linguagem popular afro-americana, estar «à escuta de novidades», também «ser cool», como no artigo do escritor negro William Melvin Kelley, que faz em 1962 uma lista das palavras de origem afro-americana recuperadas pelos beatniks da época. Nesse mesmo artigo, Kelley apela aos negros americanos para que conservem o domínio da sua própria língua.
O termo woke acabará por assumir um sentido mais político com o êxito musical da rapper Erykah Badu, «Master Teacher», em 2008: «Mesmo quando o pregador te mente […] tu ficas sempre desperto / Mesmo que passes por dificuldades e conflitos / Para manteres uma vida sã, fico sempre desperto.» Poderíamos então traduzir o termo woke mais precisamente por «consciente», «informado» acerca dos assuntos políticos e sociais, ou até, numa linguagem mais militante, «conscientizado». Em 2012, a mesma Erykah Badu usa novamente a expressão stay woke num tweet de apoio às cantoras da banda punk Pussy Riot, detidas na Rússia: «A verdade não precisa de crenças. Mantenham-se woke. Observem com atenção o que se passa #FreePussyRiot.» O movimento woke aponta então para o despertar para uma visão global do Mundo em que todas as injustiças poderão ser assinaladas e combatidas. É no seio do movimento Black Lives Matter que a expressão stay woke se tornará, no final dos anos 2010, num grito de chamamento para toda uma juventude indignada com a morte de jovens negros às mãos da polícia.
Esta expressão é o título da curta-metragem que apresenta, em 2016, o movimento Black Lives Matter e relata a sua história. Além dos militantes afro-americanos, o termo será depois utilizado pelos jovens militantes brancos para designar aqueles que estão «conscientes» das injustiças feitas aos membros de todas as minorias oprimidas, não apenas a minoria negra, quer se trate de opressão associada à raça, ao género ou a qualquer outra pertença comunitária e vitimária. Em 2017, a palavra entra no Oxford English Dictionary, que o define assim: «Originalmente: bem informado, atualizado. Na atualidade, principalmente: atento à discriminação e à injustiça raciais ou sociais; usado frequentemente na expressão “mantém-te woke”.» Em França, o termo só se tornou corrente no final de 2020, e na maioria das vezes num sentido pejorativo: a eco-feminista Sandrine Rousseau forneceu inúmeros exemplos daquilo que pode ser um pensamento woke.
Esta origem do termo na música negra leva a que o movimento Black Lives Matter seja o que mais bem encarna o movimento woke. Um militante woke negro é, de certa forma, mais legítimo do que qualquer militante branco. É o que exprime a música negra Georgia Anne Muldrow, que participou na canção de Erykah Badu. Segundo ela, a apropriação do termo pelos brancos é ilegítima, porque «ser woke é definitivamente uma experiência negra»: permite «compreender aquilo por que passaram os [nossos] antepassados» e também o facto de que «lutamos desde o dia em que aqui desembarcámos». Os wokes genuínos poderiam então ser unicamente os militantes negros.
Só mais tarde o termo woke será utilizado para ridiculizar este novo conformismo. O maior êxito neste domínio é o livro do comediante inglês Andrew Doyle, Woke. A Guide to Social Justice. Apresenta-se como um manual para se ser woke, redigido por uma «poeta interseccional radical empenhada no feminismo e na justiça social», na verdade uma estudante burguesa, Titania McGrath, muito ativa nas redes sociais e insuportável distribuidora de lições. As contas de Titania nas redes sociais, criadas por Doyle, são igualmente hilariantes. Por exemplo, a propósito da covid, Titania explica: «Estamos demasiadas vezes dispostos a julgar e a diabolizar aqueles que não compreendemos. Como vegetariana e humanitária, recebo refugiados de todo o tipo. E, sim, isso inclui o coronavírus.» Os absurdos de Titania anunciam geralmente os delírios woke com alguns dias ou alguns meses de antecedência. Com frequência, as suas fórmulas são interpretadas à letra por militantes woke. Rokhaya Diallo tratou assim de acompanhar um dos seus tweets, que dizia: «Se alguém vos pedir provas de racismo, basta responder que pedir provas de racismo é, por si só, uma prova de racismo. A bola está do vosso lado, fanáticos.» Há que dizer que este é um resumo preciso do pensamento de Robin DiAngelo, autora de proa da «teoria crítica da raça».
Este excerto do livro A Religião Woke, de Jean-François Braunstein, é publicado com o consentimento da Editora Guerra e Paz.
Este artigo foi publicado na edição de outono da revista Líder, que tem como tema Reborn from Chaos: The Path for a New Renaissance.

