Vivemos numa época em que o discurso sobre a importância do erro é quase omnipresente. A ideia de que falhar é um passo essencial para o crescimento, tanto a nível pessoal como profissional, está cada vez mais disseminada. Escutamos sobre “cultura de erro”, “melhoria contínua” e “resiliência”, conceitos que, à primeira vista, são sinais de […]
Vivemos numa época em que o discurso sobre a importância do erro é quase omnipresente. A ideia de que falhar é um passo essencial para o crescimento, tanto a nível pessoal como profissional, está cada vez mais disseminada. Escutamos sobre “cultura de erro”, “melhoria contínua” e “resiliência”, conceitos que, à primeira vista, são sinais de uma sociedade mais consciente e disposta a aprender.
Mas será que, na prática, estamos mesmo a fazer o “Walk the talk” desta conversa?
Ou será que esta é apenas mais uma fachada que não resiste ao primeiro sopro de realidade?
No fundo, a questão é simples: falamos tanto sobre a importância do erro, mas será que sabemos mesmo lidar com ele?
Paradoxalmente, considero que estamos a viver o momento histórico do ‘dedo apontado’ ao erro alheio. Seja no ‘cancel culture’ e tribunal digital, ou nas empresas em que pesquisas indicam que a exigência de perfeição pode gerar burnout e ansiedade. Agora também a pressão da liderança perfeita, que todos os dias aparece refletida em podcasts ou títulos de artigos, ou em atrás dos policias que todos nos tornamos atrás do volante.
Alguns líderes, que defendem a inovação e a aceitação do erro como parte do crescimento, são os mesmos que vivem sob a constante ameaça de serem crucificados ao menor deslize. O medo de falhar pode, em última instância, paralisar a própria inovação que se deseja promover.
De uma forma geral em todas as áreas o julgamento das escolhas dos outros parece estar sempre a um clique de distância. As falhas são criticadas de forma quase instantânea, sem profundidade, sem compreensão, na mesma velocidade em que a roda do hamster gira. O erro do outro torna-se rapidamente num espetáculo público, uma manchete a ser explorada, seja em conversas triviais ou nas capas das revistas. Lembra-me a entrevista viral de 2023 de Giannis, estrela da NBA dos Milwaukee Bucks a um jornalista quando lhe perguntou, após terem sido eliminados, se a temporada tinha sido um fracasso, ao que respondeu: “Não há fracasso no desporto. Há dias bons e maus. Algumas vezes é a sua vez, outras não. Isso faz parte do desporto, como Jordan jogou 15 anos e ganhou 6 campeonatos, os outros 9 anos são fracassos? Não. Isso é um passo para o sucesso.”
Isto levanta uma questão inquietante: será que aceitamos os erros em teoria, mas na prática somos intolerantes a eles?
Precisamos de uma auto-reflexão sincera. Se o erro é verdadeiramente visto como uma oportunidade de crescimento, estamos dispostos a abraçá-lo, em nós e nos outros?
Ou será que usamos este discurso como uma armadura de modernidade, enquanto por trás mantemos uma mentalidade punitiva e exigente? Aceitar o erro é muito mais do que um conceito a ser debatido em mesas redondas ou manuais de liderança. Trata-se de construir uma cultura de verdadeira compreensão, de empatia e, acima de tudo, de humanidade, ou como gosto de dizer ‘kindness’.
No final de contas, o erro não é o inimigo. O inimigo é a nossa incapacidade de vê-lo como parte natural do processo de evolução. De apontar menos o dedo ao outro e mais a nós próprios, de forma a perguntarmos: “O que posso aprender aqui? O que posso melhorar?” É preciso uma transformação, aquele lugar comum tão incomum – a mudança que começa em cada um de nós, nas pequenas escolhas diárias, para que possamos criar espaços, sejam eles pessoais ou profissionais, onde errar e aprender sejam realmente valorizados.
O futuro da nossa sociedade depende da nossa capacidade de “walk the talk” e não apenas de apregoa-lo.
O que estou disposto a mudar hoje?

