24 de fevereiro de 2022 marcou o início da invasão russa na Ucrânia, um conflito sem fim à vista que conta já com mais de 1000 dias. Na semana passada, o Presidente russo, Vladimir Putin, assinou uma revisão da doutrina nuclear nacional que alarga as condições em que Moscovo pode utilizar esse tipo de armamento. […]
24 de fevereiro de 2022 marcou o início da invasão russa na Ucrânia, um conflito sem fim à vista que conta já com mais de 1000 dias. Na semana passada, o Presidente russo, Vladimir Putin, assinou uma revisão da doutrina nuclear nacional que alarga as condições em que Moscovo pode utilizar esse tipo de armamento.
A possibilidade da utilização de armas nucleares é algo que não deve ser encarado levianamente pois, «a serem empregues, significarão o fim da humanidade».
Em declarações à Líder, José Milhazes, jornalista e comentador político, afirmou que «a tese da guerra nuclear não tem grande base». «Não prevejo uma guerra nuclear nos próximos tempos pois, mesmo que convencional, irá causar prejuízos gigantescos a ambos os lados e abrirá caminho para as armas estratégicas nucleares», acrescentou.

As armas nucleares convencionais têm menor alcance e potência, sendo usadas para alvos militares localizados em batalhas específicas. Já o temido armamento estratégico permite um alcance mais alargado e é altamente destrutivo, destinado a causar devastação em larga escala. O comentador ressalva que a Rússia não deverá correr este risco, uma vez que «a China já afirmou não admitir a utilização de armas nucleares, bem como a Índia», e Moscovo «ver-se-ia isolado».
Adicionalmente, o lançamento destas armas na Ucrânia «prejudicaria altamente os russos e o seu território». «Relembro que a central nuclear de Chernobyl fica na Ucrânia, mas uma grande parte do território atingido fica na Bielorrússia e Rússia, tendo causado prejuízos gigantescos», explicou.
O balanço humanitário desta guerra já é impressionante sem armas nucleares à vista. De acordo com as Nações Unidas: pelo menos 12 162 civis, incluindo 659 crianças, foram mortos e cerca de 27 000 ficaram feridos. Cerca de 20.000 crianças foram raptadas, 3.400 escolas e hospitais foram destruídos e 10 milhões de pessoas foram deslocadas.
Pensar neste cenário é algo que não deve ser menosprezado, mas Milhazes alerta para «não banalizar o tema», pois estão «em xeque crimes contra toda a humanidade e até a sua destruição». «Devemos ter cuidado e atenção, porque daqui a pouco entramos em pânico e é isso que Putin quer», afirma.
Os últimos avanços no conflito
A recente alteração da doutrina nuclear por parte de Putin torna mais fácil justificar a retaliação contra um membro da NATO por ajudar a Ucrânia. A decisão foi tomada depois de o Presidente cessante dos Estados Unidos, Joe Biden, ter autorizado a Ucrânia a utilizar armas fabricadas nos EUA para atacar o interior da Rússia, de acordo com o Politico. Desde então, a Ucrânia utilizou mísseis ATACMS para atacar uma instalação na região de Bryansk.
«A Europa e os Estados Unidos têm andado a brincar com a Ucrânia, porque tudo o que fazem é tarde e a más horas», afirma José Milhazes, sem rodeios. «Estes mísseis, por si só, não resolvem o problema, e este passo poderia ter sido dado no início da guerra. O Ocidente tem falhado constantemente no envio das armas prometidas à Ucrânia. Perdem-se meses que são muito importantes numa guerra na Europa», acrescentou.
O que pode melhorar a situação é a Ucrânia receber todos os armamentos prometidos.
«Um jogo de gato e rato»
Pela primeira vez, este acordo declara o direito da Rússia poder utilizar armas nucleares contra um Estado que apenas possua armas convencionais, desde que este seja apoiado por uma potência nuclear. Com o apoio dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França – três dos cinco Estados originalmente dotados de armas nucleares – a Ucrânia tornou-se o alvo de Putin.
«Este é um jogo perigoso, de chantagem. Se Putin cumprir com uma das suas ameaças, por exemplo atacar alvos militares de países onde estão armas que podem atacar a Rússia, torna-se uma situação perigosa. Se atacar uma base militar de um país da NATO, como é que esta vai reagir?», explica.
É um jogo de gato e rato. Em princípio, Putin quer ganhar o máximo de terreno possível até Trump entrar em funções, mas os ucranianos também sabem o que está em jogo e por isso pode acontecer algo inesperado, que mude todo este raciocínio. Qualquer coisa de imprevisível pode acontecer dentro de minutos, horas ou dias.
Os EUA já alertaram para a iminência de ataques aéreos em grande escala por parte da Rússia, como forma de retaliação. Nos últimos dias verificou-se um intenso ataque aéreo contra a Ucrânia, que causou enormes danos e matou pelo menos cinco pessoas. Há também informações que sugerem que 10 000 soldados norte-coreanos poderão em breve juntar-se ao conflito.
Em destaque está a utilização de um novo míssil balístico de médio alcance contra a região ucraniana de Dnipropetrovsk, anunciado publicamente por Putin, que foi visto como um aviso para o Ocidente. «Este é um sinal para a NATO, EUA e União Europeia, para que cedam àquilo que a Rússia afirma ser os seus legítimos interesses, mas que sabemos que de legítimos não têm nada», acrescentou o analista político.
Quanto à estratégia do Ocidente, Milhazes é perentório quando afirma que «não pode ceder à chantagem da Rússia». «A melhor política é continuar a apoiar a Ucrânia, fazer com que se reforce para futuras conversações», conclui.


