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Há mais gente a trabalhar em Portugal, mas o país continua no topo das baixas qualificações

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6 Abril, 2026 | 6 minutos de leitura

Portugal apresenta hoje um dos níveis de participação no mercado de trabalho mais elevados da União Europeia. No entanto, esse desempenho convive com fragilidades estruturais que continuam a distinguir o país das economias mais avançadas do bloco.

A conclusão surge no estudo ‘O mercado de trabalho em Portugal: uma análise comparativa na UE’, divulgado pela Randstad Portugal, que analisa a evolução recente do emprego com base em dados do Eurostat referentes ao quarto trimestre de 2025.

O relatório traça um retrato ambivalente: Portugal aproxima-se da média europeia em vários indicadores e, em alguns casos, até a ultrapassa. Mas continua a enfrentar problemas estruturais, como o elevado peso de trabalhadores pouco qualificados, horários de trabalho prolongados e dificuldades persistentes na integração dos jovens no mercado laboral.

Mais participação no mercado de trabalho do que na média da UE

Um dos dados mais positivos do estudo prende-se com a elevada taxa de atividade registada em Portugal. Atualmente, 79,1% da população em idade ativa participa no mercado de trabalho, valor que supera em 3,5 pontos percentuais a média da União Europeia.

A taxa de inatividade — pessoas fora do mercado de trabalho — situa-se nos 20,9%, significativamente abaixo dos 24,4% registados na média europeia.

Este crescimento da participação tem sido impulsionado sobretudo pelas mulheres. Desde meados da década de 1990, a presença feminina no mercado de trabalho tem aumentado de forma consistente. Em 1995, apenas 59,1% das mulheres estavam ativas, enquanto hoje essa taxa já atinge 75,7%, aproximando-se cada vez mais da participação masculina.

Também a taxa de emprego acompanha esta tendência positiva. Em 2024, fixou-se nos 72,8%, um valor superior à média europeia e que confirma a recuperação registada após os efeitos prolongados da crise financeira da década passada.

Desemprego controlado, mas jovens continuam a enfrentar dificuldades

No final de 2025, a taxa de desemprego em Portugal situava-se nos 5,8%, ligeiramente abaixo da média europeia, que ronda os 5,9%. O país posiciona-se assim em linha com economias consideradas relativamente estáveis dentro do espaço europeu. Contudo, os números escondem uma realidade mais complexa quando se observa o mercado de trabalho por gerações.

O estudo evidencia um forte desequilíbrio entre o desemprego jovem e o desemprego global. O rácio entre ambos atinge 3,4 em Portugal, muito acima da média europeia de 2,5. Na prática, isto significa que os jovens continuam a enfrentar obstáculos muito maiores na entrada no mercado de trabalho do que o conjunto da população ativa.

Entre as razões apontadas por especialistas encontram-se fatores como a precariedade inicial das carreiras, a dificuldade em obter experiência profissional e a persistência de um mercado de trabalho ainda pouco preparado para absorver recém-licenciados ou jovens qualificados.

Portugal entre os países com mais horas de trabalho

Outro traço distintivo do mercado de trabalho português é a intensidade das jornadas laborais. Segundo o relatório, 9,1% dos trabalhadores em Portugal cumprem horários mais longos do que o habitual, um valor claramente superior à média europeia de 6,5%. Este indicador coloca o país na quarta posição entre os Estados-membros com mais horas de trabalho.

Esta realidade afeta sobretudo empregadores e trabalhadores por conta própria, grupos que frequentemente acumulam responsabilidades operacionais e de gestão.

Para os analistas, o fenómeno reflete uma cultura laboral mais intensiva em tempo de trabalho, algo que historicamente caracteriza várias economias do sul da Europa. Em contraste, alguns países do norte do continente privilegiam modelos de produtividade mais associados à eficiência do que ao número de horas trabalhadas.

A força de trabalho está mais qualificada, mas ainda insuficiente

Nas últimas décadas, Portugal registou uma transformação profunda no nível de qualificações da população ativa. Hoje, 36,2% dos trabalhadores têm ensino superior, um valor apenas três pontos percentuais abaixo da média da União Europeia. Embora o país se situe numa posição intermédia no ranking europeu, a evolução histórica é significativa.

No início da década de 1990, apenas 11,4% da população ativa possuía formação superior. Em pouco mais de três décadas, esse número praticamente triplicou, atingindo 33,7% em 2024.

Apesar deste progresso, o estudo identifica um problema persistente: Portugal continua a liderar o ranking europeu de trabalhadores com baixas qualificações. No quarto trimestre de 2025, 29,1% da força de trabalho tinha níveis de qualificação considerados baixos, praticamente o dobro da média europeia, que se situa nos 14,7%.

Ainda assim, também neste indicador houve melhorias relevantes ao longo do tempo. Em 1992, quase 77% dos trabalhadores portugueses tinham baixas qualificações, um valor que caiu para 32,2% em 2024 e para 29,1% em 2025.

A evolução é clara, mas a distância face aos países mais qualificados da Europa permanece significativa.

Imigração ganha peso no mercado de trabalho

O estudo identifica igualmente uma mudança importante na composição da população ativa portuguesa: o crescimento da presença de trabalhadores estrangeiros.

No final de 2025, 7,9% da população ativa em Portugal era composta por cidadãos estrangeiros. Apesar do aumento registado nos últimos anos, este valor permanece abaixo da média europeia, que se situa nos 10,5%. Mesmo assim, a tendência sugere uma transformação gradual do mercado de trabalho nacional.

Em várias economias europeias — como o Luxemburgo ou mesmo a vizinha Espanha — os trabalhadores estrangeiros já representam uma fatia muito mais significativa da força laboral.

Em Portugal, a imigração começa agora a assumir um papel mais relevante na resposta às necessidades de mão-de-obra e ao envelhecimento demográfico, dois fatores que pressionam a sustentabilidade do mercado de trabalho.

Quatro décadas de transformação

Para Isabel Roseiro, diretora de marketing da Randstad Portugal, o mercado laboral português sofreu mudanças profundas desde a adesão do país à então Comunidade Económica Europeia em 1986.

Segundo a responsável, nas últimas quatro décadas Portugal aproximou-se progressivamente da média europeia e, em alguns indicadores, até conseguiu ultrapassá-la.

Hoje, destaca-se sobretudo pela elevada participação no mercado de trabalho — impulsionada pela presença feminina — e, mais recentemente, pela crescente contribuição da imigração.

Ainda assim, sublinha que persistem desafios estruturais importantes. Entre eles estão o elevado peso de trabalhadores pouco qualificados, a cultura de horários de trabalho prolongados e as dificuldades enfrentadas pelos jovens na entrada no mercado laboral, problemas que continuam a marcar o funcionamento da economia portuguesa.

Um mercado em convergência, mas ainda com distância a percorrer

O retrato traçado pelo estudo sugere que Portugal percorreu um longo caminho desde o início da integração europeia. A força de trabalho está mais qualificada, a participação no mercado é elevada e o desemprego encontra-se relativamente controlado. Mas a convergência com as economias mais avançadas da Europa continua incompleta.

A modernização do mercado de trabalho — através de mais qualificação, melhores condições de emprego e maior capacidade de integração das novas gerações — surge como um dos desafios centrais para a próxima década.

 

Redação,
Equipa editorial Líder

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