Era uma vez um povo que vivia numa ilha onde o azul do mar se perdia de vista até engolir o horizonte que dava início ao céu. Neste local paradisíaco, de clima subtropical, o ritmo dos dias era marcado pela parcimónia dos seus habitantes, da frugalidade de quem não se deixa apressar pela vida. O seu quotidiano girava à volta do sentido de comunidade. Cultivar a terra, caminhar, manter o corpo ativo e conviver em redor de um prato e da ocasional aguardente. Sempre orientados para fora de si mesmos, para a família, amigos e vizinhos, não deixavam de olhar também para dentro, encontrando o propósito que guiava as suas vidas. A razão para se levantarem todas as manhãs.
Esta não é uma história de ficção, mas sim a realidade de quem deu origem ao conceito de ikigai. Não existe uma tradução literal para o termo, profundamente enraizado na cultura de Okinawa, um arquipélago no sul do Japão que reúne um número de centenários acima da média. Essencialmente, este conceito representa o ponto de equilíbrio entre paixão, vocação, missão e profissão, como um propósito que dá sentido à vida e orienta as escolhas do dia a dia.
Héctor Garcia, coautor do livro Ikigai: O Segredo Japonês para uma Vida Longa e Feliz, entrevistou mais de 100 idosos residentes na aldeia de Ogimi, em Okinawa, famosa por ser uma ‘aldeia da longevidade’. Algo que estes habitantes saudáveis e ativos têm em comum é cada um cultivar este sentido de propósito que guia as suas vidas.
«Quando lhes perguntámos qual era o seu ikigai, deram-nos respostas claras, como os seus amigos, jardinagem e a arte. Todos sabem qual é a fonte do seu entusiasmo pela vida e dedicam-se a isso todos os dias» afirma Garcia, cuja obra contribuiu para fazer o termo chegar a todo o mundo. Num artigo publicado na página oficial do Governo do Japão, o autor explica ainda que outra característica distintiva desta comunidade é os seus idosos terem fortes laços sociais com os seus pares e reunirem-se frequentemente para desfrutar de karaoke ou festas de aniversário.
Continuar a trabalhar ou dedicar-se, com entusiasmo, a passatempos é outra característica comum a muitos idosos japoneses fora de Okinawa. Um inquérito nacional realizado em 2018 revelou que 47,5% das pessoas, com 70 anos ou mais, se mantêm ativas seja trabalhando, dedicando-se a passatempos ou participando em atividades comunitárias. Outro estudo concluiu que pessoas acima dos 65 anos, cujo trabalho é feito apenas por razões financeiras, têm um risco 1,55 vezes maior de declínio na capacidade funcional, em comparação com aqueles que trabalham em busca do seu ikigai.
Não é preciso esperar pela ‘terceira idade’ para procurar esse sentido. O ikigai não surge apenas no fim da vida, constrói-se no quotidiano, nas escolhas pequenas e nos gestos repetidos. É uma prática contínua de alinhamento entre o que fazemos, o que nos apaixona e o que nos move.
Mais do que romantizar este ideal nipónico ou reduzi-lo ao cliché de «se fizermos o que gostamos, não trabalharemos um único dia na vida», importa não esquecer que o ikigai não é uma fórmula mágica para a felicidade, mas uma orientação possível no caos que a vida impõe. É uma lembrança constante do que nos move e um esforço consciente para o trazer à tona no quotidiano. Mesmo quando há folhas de Excel para entregar.
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Por: Mode
Este artigo foi publicado na edição nº 33 da revista Líder, cujo tema é ‘Condição Humana’. Subscreva a Revista Líder aqui.


