Ao longo dos últimos vinte anos visitei centenas de empresas. E continuo a ficar surpreendida quando sinto que ainda precisamos de falar de ergonomia. Não é que tenha perdido importância, pelo contrário.
A ergonomia já devia estar em todo o lado, de forma quase invisível, integrada na forma como pensamos, desenhamos e trabalhamos. Ergonomia não é só uma cadeira melhor ou um posto de trabalho ajustado. É produtividade, saúde, melhoria contínua, qualidade e resultados.
E é precisamente por isso que continuo a perguntar-me como é possível desenhar um produto pensando apenas na sua função ou na sua estética, esquecendo quem o vai produzir. Se um produto for mais simples de fabricar, mais intuitivo de utilizar ou mais fácil de manter, todos ganham. Ganham as empresas e ganham os trabalhadores. E, no fim, ganha também quem o compra.
Na verdade, muitas vezes nem estamos a falar de grandes investimentos ou programas de bem-estar. Estamos a falar do essencial, daquilo que deveria fazer parte de qualquer decisão desde o primeiro momento.
Há um exercício que gosto de fazer e que hoje deixo também a quem está a ler. Quando pegarem num objeto do vosso dia a dia, parem por um instante e perguntem-se: «Como terá sido produzido? Quantas pessoas participaram? Quantas máquinas? Quantos movimentos? Como foi transportado? Por quantas mãos passou até chegar às nossas mãos?» É nesse percurso que a ergonomia também vive.
E agora que entramos numa era marcada pela Inteligência Artificial, muitos perguntam-me onde fica a ergonomia. A minha resposta é simples.
Enquanto houver pessoas, haverá ergonomia.
Mesmo quando trabalharmos cada vez mais com sistemas inteligentes, continuaremos a desenhar interfaces, processos e experiências para seres humanos. Continuaremos a ter de compreender as nossas capacidades, mas também os nossos limites. Por isso, talvez a verdadeira pergunta não seja: «Ainda precisamos de falar de Ergonomia?» Mas sim: «Quando é que ela deixará de ser um tema, para passar a fazer parte da forma como pensamos?»
Porque esse sempre foi o verdadeiro objetivo: que a ergonomia deixe de ser uma especialidade e passe simplesmente a fazer parte da forma como desenhamos o trabalho.


