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Home Ciência Notícias A escalada do movimento anticiência

Ciência

A escalada do movimento anticiência

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7 Abril, 2021 | 7 minutos de leitura

Há um movimento anticiência que está a surgir dos Estados Unidos da América, para o resto do mundo, preocupando a comunidade científica internacional – numa versão que vai para além de manifestações negacionistas, da rejeição da Ciência e da medicina convencional, tornou-se uma característica fundamental da direita política nos EUA que se nota cada vez […]

Há um movimento anticiência que está a surgir dos Estados Unidos da América, para o resto do mundo, preocupando a comunidade científica internacional – numa versão que vai para além de manifestações negacionistas, da rejeição da Ciência e da medicina convencional, tornou-se uma característica fundamental da direita política nos EUA que se nota cada vez mais presente no mundo inteiro.


Peter J. Hotez, Professor de Pediatria e Virologia Molecular no Baylor College of Medicine, onde co-dirige o Texas Children’s Center for Vaccine Development, num artigo para a Scientific American, lança o alerta para o tema.

Tal com o terrorismo e os programas nucleares ameaçam a segurança global, a anticiência surgiu como uma força dominante e altamente letal. E tal como foi feito com essas ameaças amplamente reconhecidas e presentes nas nossas vidas, deve-se criar uma contraofensiva e construir uma nova infraestrutura de combate a este fenómeno.

A anticiência é a rejeição das visões e métodos científicos convencionais ou a sua substituição por teorias não comprovadas ou deliberadamente enganadoras, muitas vezes adotadas para obter ganhos perniciosos e políticos. Tem como alvo cientistas reconhecidos entre a comunidade na tentativa de os desacreditar. O potencial destrutivo da anticiência foi evidente na antiga União Soviética, sob o comando de Joseph Stalin. Entre 1930 e 1940, milhões de camponeses russos morreram de fome em consequência das visões pseudocientíficas de Trofim Lysenko, que levaram a catástrofes nas plantações de milho e outras colheitas. Os cientistas soviéticos que não concordavam com as teorias de “vernalização” de Lysenko, adotadas por Stalin, perderam os seus empregos, tendo alguns morrido de fome na prisão, como o caso do biólogo Nikolai Vavilov.

Com o mundo a viver no epicentro de uma Pandemia, a anticiência está a causar novamente mortes em massa. Tudo começou na primavera de 2020, quando o governo de Donald Trump lançou uma campanha de desinformação coordenada que descartou a gravidade da epidemia nos Estados Unidos. Tais mensagens quiseram atribuir as mortes pelo novo coronavírus a outras causas, alegando que os casos de internamento hospitalar foram devido a uma recuperação do número de cirurgias tendo Trump afirmado que, em última análise, a epidemia iria desaparecer espontaneamente. Também se promoveu o uso da hidroxicloroquina como uma cura, ao mesmo tempo que se minimizou a importância do uso de máscaras. Tal veio a replicar-se noutros regimes autoritários ou populistas como no Brasil, México, Nicarágua, Filipinas e Tanzânia.

Como cientista na área das vacinas e pai de uma filha com autismo e deficiência intelectual, Peter J. Hotez afirma ter anos de experiência contra o lobby anti vacinas que alega causarem autismo ou outras condições crónicas. Tal contacto com essa realidade fez com que rapidamente reconhecesse as afirmações feitas pelos membros da equipa de Donald Trump e as entendesse como desinformação anticiência.

Segundo o autor, e apesar dos esforços feitos no sentido de alertar para o fenómeno, a desinformação anticiência criou nos estados republicanos um caos em massa. Durante o verão de 2020, à medida que os governadores suspenderam prematuramente as restrições, o novo coronavírus propagou-se nos estados do Sul criando uma segunda vaga de casos e mortes por COVID-19. Mais tarde, durante o outono, uma terceira onda de casos disseminou-se pelos estados do Upper Midwest. Um denominador comum de ambas as vagas foram milhares de indivíduos cuja identidade e lealdade política confundiu-se com o direito de desafiar o uso de máscaras e cumprimento do distanciamento social. O ponto alto foi o caso altamente divulgado da enfermeira de UCI que chorava ao contar as últimas palavras de um dos seus pacientes que insistia em afirmar o COVID-19 como sendo uma farsa.

Agora é feito um novo desafio à lealdade dos partidários republicanos com a resistência às vacinas COVID-19. Várias pesquisas efetuadas e um estudo publicado pela revista Social Science and Medicine, apontam os republicanos ou os republicanos brancos, como o principal grupo resistente à vacina, em que pelo menos um em cada quatro membros da Câmara Republicana diz-se recusar à sua toma.

Historicamente, o fenómeno anti ciência não faz parte dos principais traços do Partido Republicano. A Academia Nacional de Ciências foi fundada durante a administração Lincoln; a NASA no governo Eisenhower e o PEPFAR (U.S. President’s Emergency Plan for AIDS Relief), o PMI (President’s Malaria Initiative) e o programa NTDs (doenças tropicais negligenciadas) foram lançados no governo George W. Bush. Enquanto Professor de Microbiologia na George Washington University nos anos 2000, o autor menciona a sua experiência no desenho destes programas, trabalhando em estreita colaboração com membros da Casa Branca do governo de Bush.

Agora, o autor considera a adoção de uma postura anticiência como a principal prática e plataforma do Partido Republicano até o ano de 2015, quando o movimento anti vacinas passou a um extremismo político de direita. Tudo começou no sul da Califórnia, quando eclodiu uma epidemia de sarampo após uma ampla recusa à toma da vacina. A legislatura da Califórnia proibiu essas dispensas por uma questão de proteção de saúde pública, o que veio ainda incendiar um grito de guerra pela “liberdade de saúde”. A liberdade de saúde ganhou força e acelerou no Texas, onde formou um comité de ação política vinculado ao Tea Party (a ala radical do Partido Republicano). Os protestos contra as vacinas tornaram-se a principal plataforma deste partido, o que veio a generalizar-se em 2020 para desafiar o uso de máscaras e o distanciamento social.

A agenda anticientífica do Partido Republicano norte americano, foi agora para além-fronteiras. No verão de 2020, a linguagem anticiência da direita americana estava no centro das manifestações anti máscaras e anti vacinas em Berlim, Londres e Paris. No comício de Berlim, segundo o autor, foram relatadas ligações ao movimento conspiracionista QAnon e outros grupos extremistas. Juntando-se a isso, tem surgido informação dos serviços de inteligência dos EUA e Reino Unido, de que o governo russo liderado por Putin está a trabalhar na destabilização das democracias por meio de elaborados programas de desinformação ligados à COVID-19. A recusa pública às  vacinas COVID-19 estende-se até à Índia, Brasil, África do Sul e muitos países de baixos rendimentos.

O mundo aproxima-se das três milhões de mortes pela Pandemia COVID-19, e torna-se evidente que o SARS CoV2 não é o único responsável. Facilitar a disseminação da COVID-19 é um movimento anticiência expandido e globalizante que começou de forma modesta sob a bandeira da liberdade de saúde, adotada pelo Tea Party no Texas. Até agora, milhares de mortes resultaram de uma política anticiência, o que é apenas o início, sendo agora visível o impacto da recusa à vacinação nos EUA, na Europa e nos países mais pobres de África, Ásia e América Latina.

Segundo o autor conter o movimento anticiência exige trabalho e uma abordagem interdisciplinar. Dado o papel de decisores políticos, como a Rússia, e organizações anti vacinas que dominam a Internet, antecipa-se uma contraofensiva complexa e multifacetada. Na sua visão, as sociedades devem estar preparados para implementar uma infraestrutura sofisticada de maneira a neutralizar este fenómeno, semelhante ao que já foi feito noutro tipo de ameaças globais. Concluindo, a anticiência é agora um enorme problema de segurança.

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