A história e a sabedoria clássica não deixam dúvidas: o exercício do poder durante longos anos, sobretudo quando acompanhado de sucesso, conduz à húbris. O mito de Dédalo e Ícaro é uma veemente lição: quando o poderoso voa demasiado alto, em direção ao Sol, a cera que lhe cola as asas ao corpo derrete, e […]
A história e a sabedoria clássica não deixam dúvidas: o exercício do poder durante longos anos, sobretudo quando acompanhado de sucesso, conduz à húbris. O mito de Dédalo e Ícaro é uma veemente lição: quando o poderoso voa demasiado alto, em direção ao Sol, a cera que lhe cola as asas ao corpo derrete, e o resultado é a queda. A húbris é uma doença resultante da intoxicação pelo poder. Atente-se aos escândalos empresariais e políticos que têm ocorrido um pouco por todo o mundo, e a conclusão é quase sempre a mesma: por trás do palco e da fanfarra (ou fanfarronice), encontramos a liderança soberba.
Estes líderes deslumbram-se com o sucesso alcançado, a fama mediática, o endeusamento de que são alvo, os elogios dos sicofantas, e a aura de salvadores que lhes é conferida. Com o decurso do tempo, tornam-se avessos à discordância e à crítica. Humilham quem não se curva perante eles. Tornam-se indiferentes ao sofrimento que causam. Acabam rodeados de pessoas que lhes dizem apenas o que querem ouvir. Desenvolvem uma visão insuflada de si próprios. A equipa que os rodeia transforma-se num bando de sicofantas. Passam a viver numa bolha, desligados da realidade. Segundo a investigação, este processo de exercício do poder conduz a alterações biológicas e neuronais. Estas, por seu turno, reforçam o perfil comportamental soberbo. Por vezes, a bolha avoluma-se para lá das leis da física e da vida, ou alguém a pica – e o desastre tomba sobre a organização, o país e, muitas vezes, o próprio líder.
As razões para o comportamento de Putin são complexas. Mas a húbris deve ser colocada na equação. O novo czar exerce o poder há demasiado tempo – caso contrário, não seria um verdadeiro czar! Este exercício tem vido a ser progressivamente menos vigiado por um sistema de pesos e contrapesos que, a existir, poderia prevenir excessos. Putin humilha quem tem a veleidade de se escusar à narrativa correta – a dele. Foi cultivando a imagem de líder forte e vigoroso, não apenas do ponto de vista psicológico e emocional, mas também físico. Assume o papel de líder messiânico, capaz de resgatar a autoestima e o esplendor da alma russa. Encara o destino da Rússia e o seu próprio como inseparáveis. Foi bem-sucedido em múltiplas investidas militares em que se foi envolvendo, o que lhe insuflou a autoconfiança. Está cada vez mais isolado da realidade. Desenvolveu paranoia e pensamento fantasioso. Obama e Merkel abominavam as suas mentiras. É profundamente perigoso. Há razões para supor que, ocorra o que vier ocorrer na guerra da Ucrânia, a toxicidade do poder hubrístico de Putin continuará a causar danos. O czar não terá qualquer pudor em levar-nos a todos para o inferno. O único obstáculo, a existir, será ele próprio: a busca de preservação da sua vida e a manutenção da sua fantasia soberba.
PS1: se quer saber mais sobre a húbris, sugiro a leitura Na doença e no poder e Hubristic leadership. Poderá também encontrar informação muito útil no site Daedalus Trust.
PS2: sobre Putin, pode ler The man without a face, e Putin’s Kleptocracy.
