Há qualquer coisa de profundamente perturbador na forma como, em Portugal, continuamos a olhar para a saúde e para o apoio social como se fossem realidades paralelas, quando na verdade são faces da mesma urgência humana. E talvez o mais inquietante não seja a ausência de soluções, porque elas existem, estão identificadas, testadas e até parcialmente financiadas, mas sim a incapacidade crónica de as concretizar, como se estivéssemos condenados a viver entre o anúncio e a execução, entre a intenção e a realidade, entre o que sabemos e o que fazemos.
As últimas semanas trouxeram-nos um retrato quase didático dessa disfunção, o Estado reconhece que milhares de pessoas permanecem nos hospitais sem necessidade clínica, anuncia financiamento para camas intermédias, admite pagar valores superiores ao custo médio das respostas sociais, e, ainda assim, não consegue transformar essa evidência numa resposta operacional.
Ao mesmo tempo, o setor social, esse território tantas vezes silencioso, mas estrutural, afirma ter capacidade instalada, pronta, disponível, à espera de um sinal que tarda. E, como se tudo isto não fosse suficiente, surgem vozes que apontam para os cuidados domiciliários como uma solução mais humana, mais inteligente e mais sustentável. Três peças, o mesmo problema, e uma pergunta inevitável: o que nos impede, afinal, de fazer o óbvio?
É aqui que importa ser claro, direto e, se necessário, incómodo: o problema não está na falta de recursos, nem na ausência de conhecimento técnico, nem sequer na inexistência de modelos alternativos. O problema está na forma como continuamos a pensar — ou a não pensar — a integração entre sistemas que deveriam, há muito, funcionar como um só. Saúde de um lado, Segurança Social do outro, setor social num limbo funcional onde é chamado a resolver, mas raramente a co-decidir. Esta fragmentação não é apenas ineficiente é, em muitos casos, eticamente questionável.
Tenho defendido, com convicção crescente, que o futuro, se quisermos que ele seja mais digno do que o presente, passa por reconhecer aquilo que durante demasiado tempo foi subvalorizado, a extraordinária capacidade de proximidade do setor social. As Misericórdias, as IPSS, as redes locais não são apenas prestadores de serviços, são infraestruturas humanas de confiança, conhecimento e presença. Estão onde o sistema de saúde raramente chega com profundidade: dentro das comunidades, junto das famílias, no quotidiano das fragilidades invisíveis. Ignorar este capital é mais do que um erro estratégico, é um desperdício social de proporções difíceis de justificar.
E é precisamente nessa proximidade que reside uma das maiores oportunidades de transformação do sistema. Quando articulados com equipas clínicas, suportados por tecnologia adequada e enquadrados por modelos de financiamento inteligentes, os serviços sociais podem constituir a base de uma verdadeira rede de cuidados ao domicílio, não como extensão residual do hospital, mas como centro de uma nova lógica de cuidado. Uma lógica que não começa na doença, mas na pessoa; que não termina na alta clínica, mas acompanha o percurso; que não se limita a tratar, mas procura cuidar.
Não se trata de romantizar o domicílio, nem de ignorar a complexidade clínica de muitos casos. Trata-se, sim, de reconhecer que há uma enorme franja de situações onde o hospital é, hoje, uma resposta excessiva, cara e, muitas vezes, desajustada. E onde a alternativa não deve ser apenas institucionalizar noutro lugar, mas redesenhar o próprio conceito de resposta. Cuidar em casa, com dignidade, com acompanhamento, com integração entre o social e o clínico, não é um luxo, é uma evolução civilizacional.
O que falta, então? Falta coragem para romper com a lógica instalada. Falta capacidade de decisão que ultrapasse os ciclos políticos curtos. Falta, sobretudo, uma visão integrada que coloque a pessoa no centro e organize os sistemas à sua volta, e não o contrário. Porque enquanto continuarmos a gerir camas em vez de percursos de vida, enquanto continuarmos a medir eficiência por ocupação hospitalar em vez de bem-estar das pessoas, estaremos sempre a correr atrás de um problema que, na verdade, já sabemos como resolver.
E talvez seja este o ponto mais desconfortável de todos: não estamos perante um país que não sabe. Estamos perante um país que sabe, mas não faz. E isso, mais do que qualquer constrangimento orçamental ou limitação técnica, é o verdadeiro sinal de atraso. A pergunta, por isso, já não é técnica. É política, é ética, é quase existencial: queremos continuar a alimentar um sistema que se protege a si próprio ou queremos, finalmente, construir um sistema que proteja as pessoas? Porque no fim, e apesar de toda a retórica, é sempre disso que se trata. E o tempo de adiar essa resposta está, claramente, a esgotar-se.

