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Marcelo Teixeira

Moçambique: pátria que não para de sangrar

15 Novembro, 2024 by Marcelo Teixeira

Vandalismo, ruas com cheiro a pólvora, milhares de feridos e quase meia centena de mortos. Em Moçambique, o caos instalou-se depois da realização e respetiva divulgação dos resultados das eleições presidenciais. De norte a sul, o terceiro maior país lusófono tem sido palco de manifestações que contestam fortemente os apuramentos das mesas de voto. Sonhos em suspenso de uma nação em chamas e mergulhada em cólera.

A vitória de Daniel Chapo e da Frelimo, partido que lidera os destinos do país desde a independência há 49 anos, provocou uma reação popular que está longe de ser pacífica. O Centro de Integridade Pública de Moçambique (CIP), uma organização não-governamental que visa combater a corrupção, faz um balanço aproximado de 45 mortos, quase todos às mãos da polícia.

Num cenário distópico e de guerra a vida do povo moçambicano, nas últimas duas semanas, tem sido um autêntico terror. Apesar disso, o presidente cessante, Filipe Nyusi, considerou a ação policial ‘necessária e de boa gestão’ para evitar pilhagens, pode ler-se no site da Agência de Informação Moçambicana. Por outro lado, de acordo com vários órgãos de comunicação social portugueses e também regionais daquele país, ativistas locais contaram estar em marcha uma campanha de «violência brutal» e «repressão» contra qualquer tipo de manifestação pública.

 

Mas como escalaram os confrontos?

No dia das eleições, a nove de outubro, surgiram as primeiras denúncias de irregularidades, por partidos da oposição à Frelimo, e também por observadores nacionais e internacionais. Uma semana depois, Venâncio Mondlane, principal opositor à Frelimo e que teve oficialmente cerca de 20% dos votos, convocou para dia 21 de outubro uma greve nacional geral para ‘repudiar’ a manipulação eleitoral que estava em curso. Dois dias após o anúncio, na noite de 18 de Outubro, Elvino Dias, conselheiro jurídico de Venâncio Mondlane, e Paulo Guambe, mandatário do Podemos, foram assassinados. As suspeitas de terem sido mortes com motivações políticas espalharam-se além fronteiras e a nível interno acertaram no coração de um povo já magoado.

No dia 21 de outubro, os confrontos tomaram a cidade de Maputo. Balas reais, gás lacrimogénio, milhares de feridos, dezenas de mortos e 500 detidos. A capital de Moçambique, devido à imensidão de tumultos, ficou em chamas e foi engolida por nuvens pretas em todo o lado. A partir daí, os episódios de violência tornaram-se constantes um pouco por todo o país.

Entretanto, em Quelimane, capital da província de Zambézia, os acontecimentos desta semana reforçam o descontrolo e o clima de insegurança que varre o país. A detenção de um líder de uma manifestação levou a população a matar um dirigente local da Frelimo. Mas há mais. Raptaram a mulher de outra figura do partido, incendiaram uma esquadra e libertaram os presos.

 

Economia abalada e uma taxa de desemprego demasiado alta

Esta quinta-feira, um grupo de dezenas de apoiantes de Venâncio Mondlane, reuniu-se junto à fronteira de Ressano Garcia, principal ligação à África do Sul, travando a passagem de pesados para o país vizinho. O impacte económico e financeiro dos protestos e das paralisações também é amplamente sentido. O CIP estima perdas de 360 milhões de euros, não só pelo rasto de destruição provocado nas manifestações, como pelo abalo nos setores de comércio e serviços de reparação, transportes, informação e comunicações, hotéis, restaurantes e outros. O Conselho Nacional de Defesa e Segurança (CNDS) de Moçambique expressou «deplorar a colocação de entraves ao funcionamento das instituições e à livre circulação de pessoas e bens».

Moçambique está a ferro e fogo, numa encruzilhada de violência, subversão democrática, indignação e desconfiança social. O panorama pessimista ainda não vê qualquer lâmina de luz, mas o governo já traçou um plano para o país voltar à normalidade. Todavia, a taxa nacional de pobreza aumentou de 48,4% para 62,8% entre 2014 e 2020, tendo cerca de um quarto da população desempregada. Além disso, o Índice de Democracia 2023 da Economist Intelligence Unit considera a governação de Moçambique autoritária com base em vários indicadores democráticos. Nestas condições, prevê-se um caminho espinhoso para um povo que, ainda assim, tem o Índico no horizonte.

Arquivado em:África, Moçambique, Notícias, Política

Guterres agarrou o leme e alertou: ‘nenhum país está seguro’

14 Novembro, 2024 by Marcelo Teixeira

Segundo dados da Agência Internacional de Energia, se o consumo de petróleo se mantiver ao mesmo ritmo, resta-nos 39 anos até ao esgotamento da matéria-prima.  Enquanto isso ocorre, o site Worldometers dá conta dos milhões de hectares de floresta perdidos anualmente, levando ao esgotamento dos solos e consequente desertificação. O número de pessoas sem água potável também não para de aumentar. António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, foi direto ao assunto: ‘os ricos causam o problema e os pobres pagam o preço mais alto’. 

 António Guterres encontrou-se, esta terça-feira, com líderes de todo o mundo, na 29.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP29), a decorrer em Baku, no Azerbaijão. No segundo dia da cimeira, o antigo primeiro-ministro português avisou estar em curso uma ‘destruição climática’ protagonizada pelas nações mais ricas. Numa voz inconformada referiu que as ‘consequências negativas no ambiente fustigam, sobretudo, os mais pobres’. Na encruzilhada do clima, António Guterres apontou uma pegada ambiental deixada pelos mais poderosos, lançando para a plateia um relatório da OXFAM com uma verdade inconveniente: “os bilionários mais ricos emitem mais carbono em uma hora e meia do que uma pessoa média emite em toda a sua vida”. 

  Apesar da ausência de figuras de peso, como o presidente cessante dos Estados Unidos, Joe Biden, o chefe do Kremlin Vladimir Putin ou Xi Jinping da China, o secretário-geral das Nações Unidas confrontou, sem identificar, todos aqueles que ainda exploram combustíveis fósseis. ‘A revolução da energia limpa está aqui. Não há nenhum grupo, nenhuma empresa, nenhum governo que a possa travar’, lembrando que o mundo inteiro está a assistir a ‘uma aula magistral de destruição climática’ e que ‘nenhum país está seguro’. O presidente francês, Emmanuel Macron, também recusou o convite assim como o chanceler alemão, Olaf Scholz, e a presidente da Comissão Europeia, Úrsula von der Leyen. 

 Para evitar o adiamento de soluções, cerca de 200 nações estão reunidas na cimeira anual da ONU com o objetivo de angariar centenas de milhares de milhões de dólares para financiar uma transição global para fontes de energia mais limpas, especialmente nos países mais pobres, e limitar os danos climáticos causados pelas emissões de carbono. António Guterres destacou que ‘o financiamento climático não é caridade’. O evento vai durar até dia 22 de novembro, na esperança de serem construídas pontes que procurem salvar o futuro do planeta. E já agora a Humanidade. 

 

Imagem:  IISD/ENB | Mike Muzurakis

Arquivado em:Clima, Notícias, Sustentabilidade

Segunda edição do ciclo Afro-Portugal mergulhou nas memórias e identidades africanas

12 Novembro, 2024 by Marcelo Teixeira

Levantar o alçapão dos ‘movimentos memorialísticos’ e refletir sobre a complexidade da ‘circulação de identidades africanas e afrodescendentes’ foram os temas centrais da 2.ª edição do ciclo Afro-Portugal, ainda a decorrer, em Coimbra, até dia 15 de novembro.

Programado ao longo de quinze dias, o evento carateriza-se pela sua multidisciplinaridade no que diz respeito às representações da cultura africana. Debruça-se em desvendar possibilidades para um futuro que se avizinha, desconstruindo os esquecimentos e erros do passado. Dentro dessa diversidade, através de expressões artísticas como a música, ou no espírito tácito da literatura e do teatro, o assunto veio para a mesa dos intervenientes com afinco e esperança. Assim, para burilar a complexidade das questões, o programa contou também com diversas conversas que visaram identificar e debater problemáticas do ser humano e das suas identidades.

Por exemplo, no passado fim-de-semana, dia nove de novembro – Mês da Identidade Africana – Vânia Andrade Puma apresentou a performance A’KUBATA, em colaboração com as Mulheres Negras Escurecidas e as Batucadeiras Bandeirinha. Na performance, as mulheres participantes «emprestam as suas vozes aos pensamentos identitários, dando forma ao espaço e questionando  os limites entre o ser e o não ser», lê-se no documento de apresentação do ciclo.

Nesse mesmo dia, o Teatro Griot apresentou Ventos do Apocalipse, com texto, adaptação e encenação de Noé João. A peça deambula no romance homónimo da escritora moçambicana Paulina Chiziane, a primeira mulher africana distinguida com o Prémio Camões.

O ciclo Afro-Portugal contou com o apoio da Cena Lusófona, Casa da Esquina, Casa da Cultura da Guiné-Bissau, Faculdade de Letras da UC, Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas (FLUC) e pelo Centro de Arqueologia e Artes (FLUC).

 

Imagem destaque: Instagram A Escola da Noite – Teatro da Cerca de São Bernardo

Arquivado em:África, Cultura e Lifestyle, Notícias

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