Vandalismo, ruas com cheiro a pólvora, milhares de feridos e quase meia centena de mortos. Em Moçambique, o caos instalou-se depois da realização e respetiva divulgação dos resultados das eleições presidenciais. De norte a sul, o terceiro maior país lusófono tem sido palco de manifestações que contestam fortemente os apuramentos das mesas de voto. Sonhos em suspenso de uma nação em chamas e mergulhada em cólera.
A vitória de Daniel Chapo e da Frelimo, partido que lidera os destinos do país desde a independência há 49 anos, provocou uma reação popular que está longe de ser pacífica. O Centro de Integridade Pública de Moçambique (CIP), uma organização não-governamental que visa combater a corrupção, faz um balanço aproximado de 45 mortos, quase todos às mãos da polícia.
Num cenário distópico e de guerra a vida do povo moçambicano, nas últimas duas semanas, tem sido um autêntico terror. Apesar disso, o presidente cessante, Filipe Nyusi, considerou a ação policial ‘necessária e de boa gestão’ para evitar pilhagens, pode ler-se no site da Agência de Informação Moçambicana. Por outro lado, de acordo com vários órgãos de comunicação social portugueses e também regionais daquele país, ativistas locais contaram estar em marcha uma campanha de «violência brutal» e «repressão» contra qualquer tipo de manifestação pública.
Mas como escalaram os confrontos?
No dia das eleições, a nove de outubro, surgiram as primeiras denúncias de irregularidades, por partidos da oposição à Frelimo, e também por observadores nacionais e internacionais. Uma semana depois, Venâncio Mondlane, principal opositor à Frelimo e que teve oficialmente cerca de 20% dos votos, convocou para dia 21 de outubro uma greve nacional geral para ‘repudiar’ a manipulação eleitoral que estava em curso. Dois dias após o anúncio, na noite de 18 de Outubro, Elvino Dias, conselheiro jurídico de Venâncio Mondlane, e Paulo Guambe, mandatário do Podemos, foram assassinados. As suspeitas de terem sido mortes com motivações políticas espalharam-se além fronteiras e a nível interno acertaram no coração de um povo já magoado.
No dia 21 de outubro, os confrontos tomaram a cidade de Maputo. Balas reais, gás lacrimogénio, milhares de feridos, dezenas de mortos e 500 detidos. A capital de Moçambique, devido à imensidão de tumultos, ficou em chamas e foi engolida por nuvens pretas em todo o lado. A partir daí, os episódios de violência tornaram-se constantes um pouco por todo o país.
Entretanto, em Quelimane, capital da província de Zambézia, os acontecimentos desta semana reforçam o descontrolo e o clima de insegurança que varre o país. A detenção de um líder de uma manifestação levou a população a matar um dirigente local da Frelimo. Mas há mais. Raptaram a mulher de outra figura do partido, incendiaram uma esquadra e libertaram os presos.
Economia abalada e uma taxa de desemprego demasiado alta
Esta quinta-feira, um grupo de dezenas de apoiantes de Venâncio Mondlane, reuniu-se junto à fronteira de Ressano Garcia, principal ligação à África do Sul, travando a passagem de pesados para o país vizinho. O impacte económico e financeiro dos protestos e das paralisações também é amplamente sentido. O CIP estima perdas de 360 milhões de euros, não só pelo rasto de destruição provocado nas manifestações, como pelo abalo nos setores de comércio e serviços de reparação, transportes, informação e comunicações, hotéis, restaurantes e outros. O Conselho Nacional de Defesa e Segurança (CNDS) de Moçambique expressou «deplorar a colocação de entraves ao funcionamento das instituições e à livre circulação de pessoas e bens».
Moçambique está a ferro e fogo, numa encruzilhada de violência, subversão democrática, indignação e desconfiança social. O panorama pessimista ainda não vê qualquer lâmina de luz, mas o governo já traçou um plano para o país voltar à normalidade. Todavia, a taxa nacional de pobreza aumentou de 48,4% para 62,8% entre 2014 e 2020, tendo cerca de um quarto da população desempregada. Além disso, o Índice de Democracia 2023 da Economist Intelligence Unit considera a governação de Moçambique autoritária com base em vários indicadores democráticos. Nestas condições, prevê-se um caminho espinhoso para um povo que, ainda assim, tem o Índico no horizonte.