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Rita Saldanha

“Putin não é uma personagem simples, há nele uma estranha relação com a Filosofia”

13 Outubro, 2022 by Rita Saldanha

A man with a mission. Assim, bem à americana, poderíamos estar a anunciar o mais recente filme saído da indústria cinematográfica de Hollywood. A realidade anda, pelos dias de hoje, de mãos dadas com a ficção, pelo que o título cabe que nem uma luva ao espírito que assiste à personalidade complexa de Vladimir Putin. O pensamento político-filosófico do “urso” ex-agente do KGB é o mote para o livro que Michel Eltchaninoff escreveu, “Na Cabeça de Putin”. Mais do que um processo, a História é uma herança moral que o líder russo pretende continuar a escrever, assumindo, se necessário for, um compromisso com a tragédia humana.

 

Fale-nos do nascimento deste livro e do seu porquê.

Escrevi este livro em 2014, logo após a revolução democrática ucraniana de Maidan, a anexação da Crimeia e o início da guerra no Donbass. Porque me parecia existir fora da Rússia, especialmente em França, mas também em muitos países, uma visão caricatural de Vladimir Putin. Amado ou odiado, Putin era visto como um “bad boy”, alguém que gosta de chocar, fazer piadas e intervir na ordem internacional. Putin foi sendo aquele que se opunha cada vez mais aos Estados Unidos da América, ao Ocidente em geral. Comecei este trabalho de investigação primeiro a título individual; foi algo que precisei de fazer porque vivi na Rússia nos anos 1990 e depois nos anos 2000. Nos anos 90 Putin ainda não era uma das grandes figuras da Rússia, mas havia já uma espécie de “putinismo”, uma certa ideologia que as elites políticas russas, e Putin em particular, foram implementando de forma muito estudada, muito consciente, ano após ano.

 

Fale-nos um pouco desse aspecto caricatural de Putin. A que se devia, porque se tinha essa imagem dele?

Muito em parte se ficou a dever àquelas imagens dele divulgadas no mundo inteiro. De torso nu em cima de um cavalo, por exemplo… Queria verdadeiramente sair da imagem caricatural, da imagem excessivamente simples de Putin: o musculoso, o bad boy, para tentar entender o que está na mente do líder russo desde 2000. E se a partir da sua mente pudéssemos extrair diretrizes mais ou menos coerentes para entender as suas decisões isso seria excelente. O meu método foi muito simples: ler todos os discursos de Vladimir Putin, as suas declarações, entrevistas, e ver quais eram as suas referências, os autores que ele citava para construir uma psicologia, um modo de pensar. Mas, sobretudo, para delinear uma doutrina de Putin.

 

E a que conclusões chegou?

No que concerne aos episódios de 2014, tentei mostrar que havia um discurso de oposição ao Ocidente, que foi construído de forma muito estruturada, e que era já um discurso de guerra, de confrontação assumida. Vemos hoje que isso era factual. No domínio psicológico, há que perceber que Putin não é uma personagem simples, há nele muita complexidade. E há nele também uma estranha relação com a filosofia.

 

Refere-se à Filosofia, mas para Putin trata-se de uma verdadeira paixão pelas ideias ou apenas o entendimento destas e da filosofia como um instrumento para atingir os seus fins?

A questão faz todo o sentido. A minha primeira hipótese é que se tratou, antes de tudo, de um instrumento para, de facto, consolidar o seu discurso e por via deste justificar as suas decisões políticas. O que Putin queria entregar ao seu povo era uma visão do mundo, mas não apenas ao seu povo. Ele queria, e quer, impor a sua visão do mundo, uma visão russófila, a todas as sociedades do mundo. E para consolidar esta visão sentiu necessidade de legitimá-la com o legado intelectual de pensadores e filósofos. Sabendo que ele não é de todo um filósofo – o que lhe interessa é a História – soube que precisava de se rodear por pessoas interessadas em Filosofia.

 

Antes de avançarmos para as influências concretas, filosóficas e outras, de Putin, gostávamos de saber como ocorreu a evolução do seu pensamento ideológico desde os tempos em que era um agente do KGB na antiga RDA até à atualidade. Por exemplo, encontrou nesse percurso algum paradoxo, alguma incongruência na cabeça de Putin? Por exemplo, há um aparte no livro em que fala do seu jeito de «falso liberal»…

A questão do liberalismo original de Putin é muito complexa. Em 1991, ele tinha acabado de voltar de Dresden, na Alemanha, onde era agente do KGB, e viu-se a trabalhar com o presidente liberal da câmara municipal de São Petersburgo, Anatoli Sobtchak, que era muito próximo dos democratas e daqueles que queriam derrubar o Comunismo. E é verdade que na época do putsch de agosto de 1991, Putin não ficou do lado dos conservadores, dos golpistas, dos comunistas. Pôs-se do lado dos liberais e dos democratas. Portanto, ele tem uma espécie de “atestado” de democrata que adquiriu no início dos anos 90. Além disso, quando chegou à Presidência, em 2000, Putin tinha muitas referências pró-europeias, pró-liberais; quando dava entrevistas, quando fazia visitas, por exemplo, citava muito Immanuel Kant, o pensador iluminista. Dizia que a Rússia era antes de tudo europeia… então, ele tinha realmente um discurso de abertura sobre o liberalismo e, digamos, o pensamento democrático europeu. Mas é muito difícil saber se Putin era sinceramente liberal. A minha própria hipótese é que o liberalismo era para ele, enquanto ex-agente do KGB, uma espécie de disfarce, de máscara.

 

Portanto, logo então as ideias serviam-lhe como instrumento para chegar onde verdadeiramente queria.

Sem dúvida. No início dos anos 90, era importante estar do lado bom, isto é, estar do lado dos que iam vencer os comunistas e derrotar os nostálgicos da URSS. A seguir, no início dos anos 2000, para seduzir o Ocidente, ele colocou uma máscara do liberal. Mas, no fundo, creio que Vladimir Putin, a camada mais profunda da sua visão do mundo, é a União Soviética. Acredito que o que é constante no seu pensamento é este sovietismo, que não é comunismo. No domínio psicológico, há que perceber que Putin não é uma personagem simples, há nele muita complexidade. E há nele também uma estranha relação com a filosofia.

 

O sovietismo será então a ideologia que o define?

Sim, com certeza. Mas na crença de que se trata de uma evolução natural da História russa, ou seja, o pensamento fundamental de Putin é que a Rússia é um império, um império em evolução. Um império que já teve várias formas. Um império que evoluiu de um modelo czarista e que se transformou em sovietismo, embora sempre com a mesma lógica subjacente, a de um império russo que não obedece, enquanto potência mundial, senão aos seus desejos de expansão.

 

Mas é uma democracia, embora um conceito muito diferente de democracia como a entendemos. Fala de uma “democracia soberana”, inspirada em Vladislav Surkov, a quem chama de “Rasputin de Putin”. O que significa esta «democracia soberana»?

A democracia soberana foi uma ideia que surgiu no primeiro mandato de Vladimir Putin. E que teve na sua base as ideias de Surkov, que, no início do século XXI, era um dos grandes conselheiros ideológicos de Putin – hoje já não o é. Por base tinha a ideia de que o Presidente representa o povo, logo aquele é democrático por essência; quanto à sua soberania, ela é-o na medida em que se afasta do pensamento ocidental e das suas regras, em particular as regras de respeito pelas minorias (minorias homossexuais ou étnicas, por exemplo), assumindo que que é necessário inventar uma “democracia à russa”. Depois Putin foi ao encontro do pensamento de Ivan Ilyin, um filósofo de meados do século XX, cujas ideias iam ao encontro de uma “democracia de aclamação”; ou seja, o chefe, o guia justifica-se pela aclamação do povo, ele é, de algum modo, a encarnação das suas vontades e anseios, assim se eximindo a seguir as regras jurídicas abstratas e complexas vigentes nas democracias ocidentais. A verdade é que todas estas teorias de justificação e legitimação do poder resultaram numa pseudodemocracia, simplesmente porque as regras do debate democrático não são respeitadas na Rússia.

 

A ideia de Putin acerca de uma pretensa superioridade moral da Rússia baseia-se em quê exatamente? Porque já entendemos que Putin é um soberano, é quase o Rei Sol e, portanto, há uma superioridade moral que o inspira, que o alimenta.

É justamente nesse ponto que ele precisa de filósofos! Há uma corrente filosófica russa muito importante chamada corrente eslavófila, isto é, que se refere a uma esfera ética, política e ética estritamente eslava, e que se opõe a outra corrente filosófica, que era a corrente dos ocidentalistas que consideravam que, pelo contrário, a Rússia tinha que se aproximar das normas jurídicas e políticas do Ocidente. E aí Putin cita filósofos como Konstantin Leontiev, um filósofo do final do século XIX, que explica que, de facto, existe uma diferença ética, uma diferença moral entre russos e ocidentais, e esta diferença é na verdade uma superioridade. Acredito que para Putin isto se expressa de uma forma muito simples e muito clara. Para ele, o homem russo é, em última análise, capaz de renunciar ao seu conforto pela pátria, para salvar a pátria. Para Vladimir Putin, cito-o no meu livro, o homem ocidental busca primeiro o sucesso material, colocado como desígnio anterior ao sucesso espiritual. Ao contrário, para Putin, o homem russo é capaz – lute contra Napoleão, Hitler ou qualquer outra ameaça – de sacrificar o seu conforto e até a sua vida em nome de um ideal, que é, antes de tudo o mais, um ideal patriótico, embora também religioso em alguma medida, e que não é senão o ideal de autossacrifício por um Bem maior, uma ideia mais elevada que naturalmente significa Pátria.

Subjaz no seu pensamento, em resumo, a ideia de uma superioridade moral do homem russo.

Sim, o homem russo traduz a ética levada ao extremo, que é o autossacrifício. E é por isso que ele está convencido de que, do ponto de vista antropológico, os russos não podem perder. Portanto, há uma forma de maximalismo moral em Putin, que ele extrai dos pensadores eslavófilos dos séculos XIX e XX, para dizer que de facto há uma superioridade natural do homem russo, que é também cultural.

E quanto às influências de pensamento que foi buscar a Ilyin?

Ivan Ilyin é um defensor de Hegel. Hegel é muito importante na Rússia, e foi-o especialmente no século XX, porque o marxismo-leninismo foi inspirado em Hegel, isto é, numa ideia e num sentido da História. Que o sentido da História augura o advento do comunismo e que é preciso haver momentos negativos para alcançar o positivo. Por isso, às vezes é necessário sacrificar certos indivíduos ou certas camadas da população para alcançar a encarnação do Espírito na História, isto é, no sentido da História. Ilyin foi um grande especialista em Hegel, sublinhando esta ideia de que uma nação é um corpo vivo, não apenas um conjunto de regras jurídicas, fronteiras delimitadas – e este corpo deve respirar! Assim, as suas fronteiras precisam de respirar à medida que um corpo se torna maior ou menor. Mais: este corpo tem uma cabeça, é Vladimir Putin. Para Putin, o corpo russo é um corpo jovem e em boa saúde. Ao contrário, há corpos velhos, há a velha Europa que é uma velha senhora, que só pensa nas suas regras. Há o corpo americano, que é um corpo agressivo. E depois há o corpo russo, que é vigoroso, um corpo com uma missão, assumir o lugar que ele merece na história contemporânea.

 

O conceito de missão leva-nos a um outro, o de messianismo. É aí que entra um outro pensador, Berdyaev.

Sim, volto a insistir, é a ideia de que o povo russo, o homem russo acredita possuir uma missão. Uma missão que é meta-histórica, uma missão mística para salvar a Humanidade. E é isso que Putin faz em 2013, dizendo que não devemos defender as minorias homossexuais, não devemos defender o casamento homossexual, que devemos absolutamente lutar contra a laicização e a secularização, que, sobretudo, não devemos esquecer a Pátria. Quando Putin diz isto, Putin está alinhado com a ideia de que a Rússia vai salvar o mundo da sua decadência e degradação. Trata-se, no fundo, e também, de uma grande batalha espiritual da história do mundo.

 

E quanto a um sentimento de ressentimento? Há ressentimentos em Putin, como os apresenta, por exemplo, Marc Ferro no seu livro “Os Ressentimentos na História”?

Psicológica e politicamente, acho que Putin é movido pelo ressentimento, que é complexo. Primeiro, é um ressentimento contra o desaparecimento da União Soviética, que ele disse ter sido a maior tragédia do século XX. Vejamos, em Dresden, em 1989, no momento da queda do Muro de Berlim, ele sentiu-se ameaçado pela multidão, portanto, experimentou uma sensação de medo face ao caos. E desde logo Putin assacou as culpas desse processo ao Ocidente. Tal como viria a acontecer em acontecimentos posteriores. Em maio de 1999, as forças da NATO bombardeiam Belgrado, uma intervenção que não tinha sido validada pela ONU nem pelas Nações Unidas. Para Vladimir Putin, esta intervenção americana foi vista como uma violação do direito internacional. Na mente de Putin, estas são operações especiais dos serviços americanos e não traduzem a vontade dos povos. Hoje, para Putin, é impensável que os ucranianos prefiram virar-se para a Europa do que para o irmão mais velho, Moscovo. Por isso que ele lançou a sua guerra: crê que os ucranianos, no fundo, não gostam dos seus líderes. E por isso iriam receber o Exército russo como um libertador. A nível interno, a questão do ressentimento é também uma arma nas suas mãos na medida em que todos os dias a comunicação social russa pinta o Ocidente como a raiz de todos os males que os russos sofrem.

E acha que este ressentimento pode levá-lo a ser capaz de uma ofensiva nuclear devastadora?

Creio que Putin não quer uma guerra nuclear, que seria obviamente uma guerra tão autodestrutiva quanto destrutiva. Acho que ele é alguém que ama muito o poder e o dinheiro. Então acredito que Putin pensa primeiro na sua vida e nas pessoas próximas a ele. Mas, ao mesmo tempo, é levado pela sua própria lógica política. Vladimir Putin não pode imaginar perder, até porque é a sua sobrevivência política que está em jogo, pelo que há riscos de consequências incontroláveis ​​desta guerra.

 

Para terminar, do outro lado da barricada temos Zelensky. Que leitura faz deste homem?

Zelensky é alguém que fez campanha eleitoral em forma de uma série de televisão. Então ele é um ator de uma comunicação que tem funcionado muito bem. Ele é alguém que queria, digamos, desencravar um pouco a Ucrânia quando chegou ao poder. Acredito que foi surpreendido pela dimensão do ataque russo. Mas é alguém que teve a força moral de não deixar a Ucrânia, de não se exilar. E assim ele é alguém que fez o que Putin atribui aos russos, isto é, estar pronto para sacrificar a vida pela sua pátria. Acredito que de um bom actor ele veio a tornar-se num líder político que encarna a força da resistência do seu país.

 

Fotografia: Manon Jalibert

Este artigo foi publicado na edição de outono da revista Líder. Subscreva a Líder AQUI.

Arquivado em:Entrevistas

Construir o futuro tecnológico, abraçando o desafio humano

13 Outubro, 2022 by Rita Saldanha

Conhece o jogo de associação de palavras? Se alguém disser “tecnologia”, pensa rapidamente em… Ciência? Metaverso? Eventualmente no smartphone que tem na mão. Num mundo em que as máquinas se comportam de forma inteligente e assumem cada vez mais controlo sobre as nossas vidas quotidianas, pode ser fácil descurarmos que é nos humanos que reside o verdadeiro desafio de um futuro sustentado por tecnologia.

Em perspetiva, para todos quantos acompanham minimamente o setor, há cinco anos (quando o 5G começou a ser tema, recorda-se?) já se ouvia o difícil que podia ser fazer recrutamento em tecnologia. Há dez anos (a idade que tem hoje a ‘Alexa’), o cenário era pouco diferente. E se recuarmos 20 anos (altura em que foi criado o domínio Linkedin.com), a discussão sobre como captar e reter profissionais no ecossistema também já existia.

Desde sempre caracterizado por uma grande competitividade entre as empresas que o compõem, o setor tecnológico tem assistido a mudanças rápidas e significativas. Portugal afirmou-se como um destino particularmente atrativo para investimentos em centros de competências, de serviços e de inovação, o que fez com que muitas empresas internacionais procurassem o país, aproveitando a disponibilidade de talento qualificado e os custos competitivos para se fixarem.

Para as tecnológicas nacionais mais experientes e consolidadas, o hype trazido pela vinda de grandes eventos e pelo impulso de iniciativas ligadas ao ecossistema de inovação e empreendedorismo trouxeram inúmeras vantagens – mas não só. A capacidade de algumas empresas estrangeiras que se têm instalado cá pode, pontualmente, ser superior à interna, mas sempre foi assim. E aspetos como os novos modelos de trabalho e a flexibilidade estão, a par dos salários, a pesar bastante nas decisões dos profissionais.

Novamente, ganhamos em pôr as coisas em perspetiva. O turbilhão a que se assiste vai abrandar e quando outra cidade, ou país, preencher os requisitos para se tornar o próximo grande hub tecnológico do mundo, o valor intrínseco das empresas portuguesas vai voltar a destacar-se.

Benefícios diferenciadores como a solidez e estabilidade dos projetos, o equilíbrio entre a vida profissional e o tempo pessoal, planos de carreira ajustados a diferentes níveis de satisfação e crescimento no trabalho, além de desafios com visibilidade e impacto concreto no dia-a-dia são exemplos de aspetos valorizados pelas pessoas e que devem estar no centro das propostas das empresas.

Não existem “máquinas” sem “criadores” e são os últimos que definem o ritmo a que o futuro se desenha e processa. A tecnologia vai, assim, estar sempre associada a um desafio humano enorme. E ao contrário do que muitos parecem pensar, isso são excelentes notícias.

Arquivado em:Opinião

«É como se o Século XXI começasse agora, com uma nova ordem» 

12 Outubro, 2022 by Rita Saldanha

“A mudança necessária para restabelecer a ordem política e económica no mundo” foi o tema em debate no segmento “Act Now for Peace – How can peace win this war?”, na Leadership Summit Portugal, que esta amanhã juntou no palco do Salão Preto e Prata, no Casino Estoril, Helena Ferro de Gouveia, Professora Universitária e Analista de Assuntos Internacionais, António Saraiva, Presidente da CIP, Felipe Pathé Duarte, Investigador e Professor na Nova School of Law, e Ana Gomes, Diplomata, moderado por Aline de Beuvink, Professora e comentadora.

Aline Hall de Beuvink: Como conseguimos sair da crise em que nos encontramos do ponto de vista filosófico, cultural e acima de tudo do ponto de vista da paz, da economia e da política? E o que é necessário para tomarmos o primeiro passo de ajuda à Ucrânia?

Ana Gomes: Primeiro quero contestar o título do debate [“A mudança necessária para restabelecer a ordem política e económica do mundo”]. Esta ordem não nos serve, tem cavado desigualdades, tem dado andamento a projetos autoritários da extrema-direita desastrosos à Democracia. Só precisamos de estabelecer uma nova ordem. Condição sine qua non é ganhar a guerra à Rússia. Se ganharmos, e acho que está no bom caminho, a Rússia vai ser diferente. Se acontecer o contrário, a Europa será diferente. E precisamos de apostar na autonomia estratégica da Europa, com tudo o que isso implica. Precisamos de reformar as regras do Conselho de Segurança e Direitos Humanos das Nações Unidas. E alterar as instituições. Precisamos de mudar estes três vetores de forma a trazer prosperidade regulada.

Aline Hall de Beuvink: Como podemos tomar este passo para reorganizar a parte económica que é tão necessária?

António Saraiva: Para atingir um determinado objetivo temos de dar alguns passos. Em termos de economia, a Europa, no seu passo de tartaruga e falta de visão estratégica, foi vivendo colocando a sua fábrica na China e a sua energia na Rússia.

A pandemia veio mostrar que estrategicamente não tínhamos na Europa o que precisávamos. Temos de reposicionar a União Europeia, deve ser reestruturalizada. Não temos uma defesa. O que é necessário é que a UE reflita o que está a acontecer.

A Europa vai crescendo em território, mas diminui em peso político. E tem demonstrado debilidades que nos são prejudiciais e se nada for feito vai ser fatal. Se a UE não for um bloco coeso, unido, solidário e se nos mantivermos neste cinismo, o projeto está em desagregação.

 

Aline Hall de Beuvink: Há um denominador comum, que é o conhecimento da História. “Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-lo”. Como conseguimos que isso não aconteça?

Helena Ferro de Gouveia: Temos de pensar em dois atores neste conflito:  a Alemanha e a Rússia, que são Estados centrais, com uma relação longa. São relações que perduraram para além das mudanças de regime. Catarina, a Grande, era uma alemã da Prússia, generais alemães lutaram ao lado do Czar contra Napoleão, após a 1ª Grande Guerra Mundial, foi assinado o tratado de Rapallo, que foi assinado à margem da reunião de Génova, com acordos entre a Rússia e a Alemanha, que vigorou até 1941. Mais tarde, quando a República Democrática da Alemanha foi inserida na esfera de Moscovo, foi assinado um novo Tratado, em 1970, e a partir deste momento dá-se uma aproximação através do comércio.

Criou-se uma política de “ser tudo para todos” – para o ocidente e para a Rússia, não hostilizando nenhuma das partes que compunham aquilo que foi o frágil equilíbrio vivido durante a guerra fria. É importante perceber esta politica de aproximação através do comércio, para perceber situações que vivemos. O 24 de fevereiro representou a maior mudança nas últimas 3 décadas para Alemanha. Neste momento estão em curso mudanças tectónicas que vão provocar alterações com impacto na nova ordem que se está a desenhar. Concordo com a Ana Gomes, não precisamos de uma ordem antiga, precisamos de uma nova ordem que reflita a nova realidade, e não o mundo pós Segunda Guerra Mundial, em que se ponha a tónica no Direito Internacional e naquilo que são os Direitos Humanos.

Aline Hall de Beuvink: Será que somos ingénuos nesta relação com a Rússia? O que está subjacente à questão da guerra e como surge de repente? Os impérios querem voltar a ser impérios?

Felipe Pathé Duarte: Sobre a ingenuidade com a Rússia, Putin já tinha anunciado os seus planos em 2007. Houve vários momentos, ao longo dos tempos, que Putin foi tentando, sempre, aliás, eu olho e vejo-o como um ladrão de Hotel, vai batendo às portas e entra naquela que estiver aberta. Foi wishful thinking pensar que a Rússia podia ser parceiro, e não se ver o que por aí vinha.

Quando à questão da guerra, a Paz pode ser uma excecionalidade, e como tal exige trabalho e esforço. Numa perspetiva filosófica, há uma natureza que me parece essencial da guerra, nós olhamos e vemos vários ângulos, são perspetivas parcelares da guerra, é impossível ter visão conjunta de tudo. Podemos ser ambiciosos e fazer um esforço para perceber a guerra, para perceber a sua natureza. Há duas premissas que nos ajudam a perceber a guerra – a primeira conforme Carl Von Clausewitz, o autor ficou que conhecido pela frase “a guerra como a continuação da política por outros meios”. Ou seja, enquanto houver identidade, soberania, domínio e conflito, há guerra. A segunda é a de que a guerra é um camelão, ela adapta-se, consoante o seu próprio ambiente. E nesse seguimento fala-se de uma “maravilhosa trindade”. Ideia um, a violência primordial, ideia dois o jogo entre a sorte e o acaso, e ideia três a racionalidade. É uma dinâmica das três categorias que tem de ser lida sob a forma da dialética. Isto é um jogo, entre a paixão, força e razão.

A dinâmica da guerra, é como um pêndulo magnético que se move em torno deste três princípios, como se fossem imanes. Consoante a tónica que for dada a cada um destes fatores, assim será o desenrolar da guerra. O que nos leva a perceber que a justeza de um conflito, não dá necessariamente a vitória a esse conflito, ou pelo facto de ter maior capacidade bélica e técnica também não dá vitória. Tudo depende da intensidade que cada fação atribui à vitória. Por regra, as guerras que começam por ocupação territorial não dão a vitória ao que invade, o que não implica capacidade. Este método é interessante, e uma ferramenta analítica que nos ajuda a perceber a guerra. Concluindo, perceber que a guerra é condição humana, a paz é a excecionalidade, e tem de ser trabalhada. A história da Europa conta com 28 séculos de histórias feita na adversidade e na contraposição, a ideia de nação e Estado é feita dessa contraposição.

Aline Hall de Beuvink: Existe esta ideia ilusória de que este espaço, em que vivemos, está confortável e é garantido. Vamos conseguir voltar ao nosso conforto económico, em breve? O inverno está à porta. Todos estão com medo.

António Saraiva: Vamos ter desconforto, tendencialmente, que depois irá gerar num novo conforto diferente. A Alemanha percecionou, finalmente, que a sua estratégia de consumir energia russa é fatal, e essa tomada de consciência está a causar uma alteração profunda na sua indústria, o que vai ter efeitos tectónicos no espaço europeu.

Essa nova realidade vai provocar a todos nós, portugueses, profundas alterações. Temos de rapidamente ter um processo decisório comum, alterar a nossa estratégia industrial, re-industrializar a Europa e nesse sentido não vamos viver nesse conforto. E ainda bem, pois era uma “paz podre”. Temos de caminhar no sentido de encontrar novas formas, energias alternativas. Mas vai ser doloroso esta readaptação. Este espaço temporal em que nos encontramos vai trazer-nos perda de qualidade de vida e custos acrescidos. Temos todos de refletir sobre a baixa do endividamento, porque o custo desse endividamento é cada vez mais caro, e o acesso às fontes de energia também.

Aline Hall de Beuvink: Temos de nos reinventar enquanto nos temos de concentrar na defesa do território e em ajudar a Ucrânia. A defesa que a Ucrânia faz do seu território é também a defesa dos nossos valores, da liberdade e da democracia. Sobrestimamos o poder da Rússia e subestimamos o da Ucrânia.

Helena Ferro de Gouveia: Temos de fazer a pedagogia e encarar a realidade. Vivemos tempos muito desconfortáveis, vamos alterar a nossa forma de produzir e consumir. Temos de ter uma maior consciencialização. É preciso perceber porque estamos a fazer isto. Não é este momento nem esta circunstância, mas estamos a arquitetar o futuro, para os nossos filhos e netos. Onde nos situamos e onde queremos estar. Quando olho para o projeto da UE é preciso não esquecer que surgiu como um projeto de paz na sua génese.

Temos um país que está em risco, há muito que a Ucrânia defende o seu direito de existir. Logo depois da anexação da Crimeia que se preparam para uma invasão. É na Ucrânia que se está a combater o que queremos ser na nossa sociedade.

Vamos ter de fazer sacrifícios maiores, a liberdade não é um dado adquirido, tem um preço. Pensando no caso de Timor, que lutou décadas contra a Indonésia nunca nos passou pela cabeça dizer para ceder.

 

Aline Hall de Beuvink: E que preço tem a liberdade?

Felipe Pathé Duarte: Houve subestimação mútua. A motivação desta guerra não é meramente expansionista, é profundamente identitária, com um fundamento ideológico. Há uma espécie de inevitabilidade da atuação russa, da ideia de uma potência continental, contrariamente às orgânicas que marcam o ocidente. De um lado Esparta, de outro lado Atenas, onde há liberdade e democracia.

Ana Gomes: A guerra não é só na Ucrânia, atinge-nos a todos. Hoje, poucos, têm lucros fabulosos caídos do céu. De facto, vivemos num mundo mais globalizado do que nunca. Há uma justa repartição dos sacrifícios.

Esta crise é uma tremenda oportunidade para fazermos a transição da energia, por exemplo. E isso implica mudar um sistema económico dominante neoliberal. É vital estabelecer regras no plano nacional e internacional nos Direitos Humanos. Sabemos que a Rússia não é o único membro que viola as regras, quem tem posições privilegiadas são os principais violadores. Precisamos de reformar as Nações Unidas. A Europa é muito mais poderosa do que demonstra.

Esta guerra é muito diferente de todas as outras. Estamos a ver uma potência nuclear,

Os sucessivos apelos de negociação de paz, supõem a rendição da Ucrânia. É evidente que vai haver negociações a um determinado momento, mas tem de haver a derrota da Rússia antes.

Aline Hall de Beuvink: É como se o Século XXI começasse agora, com uma nova ordem, que nos colocará a pensar. 

Assista a este debate, e a todas as intervenções da Leadership Summit Portugal 2022, disponível on demand, com acesso universal e gratuito, na Líder TV na posição 165 do MEO e 560 da NOS, a partir do dia 14 de outubro.

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“Só há um caminho para a vitória, não há volta a dar”, dispara Serhiy Haydaychuk

12 Outubro, 2022 by Rita Saldanha

Serhiy Haydaychuk, Presidente do CEO Club da Ucrânia, organização que representa cerca de 250 CEOs das maiores empresas ucranianas, é perentório ao afirmar: “Se estivermos do lado do bem, se mantivermos os valores da dignidade, liberdade, e autodeterminação, ganhamos a guerra”.

“A Guerra que colocou as lideranças da Ucrânia à prova”, foi o mote para a entrevista do jornalista João Póvoa Marinheiro, no âmbito da Leadership Summit Portugal, que esta manhã levou ao palco do Salão Preto e Prata do Casino do Estoril, a visão dos empresários e dos líderes de negócios ucranianos.

Sobre a resolução do conflito que se vive na Ucrânia, após a invasão russa a 24 de fevereiro de 2022, Serhiy Haydaychuk afirma “só há um caminho para a vitória, não há volta a dar”, ao que acrescenta uma visão positiva sobre o futuro do seu país. Entre cinco a 10 anos, a “Ucrânia será uma das economias mais atrativas do mundo”. Destacando a “imagem forte e o reconhecimento do país, associado à coragem, bravura e dignidade”, uma parte fundamental para a vitória. “Não devemos tomar apenas a responsabilidade pelos nossos negócios, mas também pelo nosso pais”, declara.

Business as usual entre uma guerra 

Uma outra solução para a vitória passa pela ideia de “criar uma grande confiança horizontal”, um conceito repetido ao logo da entrevista, que na opinião do empresário, assenta a chave para a possibilidade de manter empresas a funcionar e os negócios a prosperar, entre um clima de instabilidade.

Quanto ao impacto da guerra sobre o tecido empresarial ucraniano, todos os negócios sofreram, mas os setores mais frágeis são aqueles associados a negócios de dimensão mais pequena, sem capacidade de manter as operações por um período mais longo. O Presidente do CEO Club da Ucrânia, divide essas organizações em três grupos: os que perderam tudo, pela destruição dos bombardeamentos, que são entre 10 a 15%; os que estão bem, estão localizados na parte ocidental, entre 15 a 20%, e adaptaram-se rapidamente; e a maioria, entre 60 a 70%, que sofreram em diferentes tipos de extensão.

Para Serhiy Haydaychuk, a fórmula de liderança passa pela “responsabilidade pelos outros”, reforçando que a maioria dos líderes ficaram no país, uma vez que “se queremos salvar o negócio temos de ficar no terreno, junto da nossa equipa”, sob pena de se perder a empresa. “Devemos ser um modelo, mostrar que somos fortes e confiantes, e que lutamos contra todas circunstâncias. Para além disso, é importante dar um sentido de vida a estas pessoas – não é apenas uma questão de sobrevivência, é dar às pessoas que fazem parte da equipa um significado, um sentido, terem outros objetivos, coisas que vão para além de apenas sobreviver”.

Uma guerra é uma oportunidade 

E quais as histórias de sucesso?

“Cada crise traz grandes oportunidades. Se por um lado, uma guerra é uma história dramática, por outro, traz oportunidades para os líderes. Destrói e mata, mas estimula a criatividade, novas decisões, desenvolvimento tecnológico, etc”.

Desde o início da guerra, muitos dos membros do CEO Club já lançaram negócios adaptados à nova realidade. Desde drones, software militar, equipamento de proteção militar, entre outros. Como muitas companhias internacionais pararam a atividade, ou deixaram o país, isso deu oportunidade para outros negócios surgirem.

Uma das mais importantes lições para Serhiy Haydaychuk, foi a de que quando a guerra chegou a todas as instituições, foi fundamental o apoio uns aos outros, e cultivar uma confiança horizontal. E, além disso, manter um espírito positivo, “se estás vivo, estás ok!”, desabafa.

750 mil milhões de dólares para a reconstrução da Ucrânia

Será possível? A resposta é positiva e a vitória a única saída. O principal impulsionador dessa reconstrução são os líderes empresariais ucranianos. “Não é suficiente ganhar no campo de batalha, a seguir à guerra vamos ter outra batalha”, declara Serhiy, não deixando para dúvidas que todos vamos ajudar à reconstrução do país.

“Hoje a nossa civilização está a passar por um dos momentos mais críticos da História – por um lado temos as forças do mal, a levar a Humanidade para tempos negros, e por outro lado as forças do bem, em direção ao progresso e ao desenvolvimento. Agora, acontece a interseção entre os dois. Há quem peça aos ucranianos para se sentar com os russos e falar sobre a paz, mas quando as tuas cidades estão destruídas, amigos e familiares mortos, percebemos que a Rússia não quer sentar-se e falar sobre paz. E este é um ponto de viragem na Humanidade, se nos comprometermos com um país criminoso, os outros países, também criminosos, vão levantar-se e querer mostrar-se.”

Assista a esta entrevista, e a todas as intervenções da Leadership Summit Portugal 2022, disponível on demand, com acesso universal e gratuito, na Líder TV na posição 165 do MEO e 560 da NOS, a partir do dia 14 de outubro.

 

 

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A mensagem inspiradora de David Simas na Leadership Summit Portugal 2022

12 Outubro, 2022 by Rita Saldanha

David Simas, Presidente da Fundação Obama, pôs a plateia a aplaudir de pé na Leadership Summit Portugal, no Casino Estoril, ao contar a sua experiência como emigrante nos EUA e ao serviço do Presidente Barack Obama.

Durante a sua talk, partilha a primeira vez que entrou na Casa Branca. Conduzido por um Fuzileiro até à apelidada “Sala de Situação”, onde um grupo de pessoas todos os dias da semana, 24 horas ao dia, analisa “estados de sítio” em várias zonas do País. «A violência já fazia parte da condição humana, Barack Obama sabia-o e já tinha essa preocupação», chama a atenção o luso-descendente, que fez parte da administração na Casa Branca durante a presidência de Obama, como Assistente Adjunto do Presidente em 2009, e durante a campanha de reeleição foi diretor de Pesquisa de Opinião. O regresso à Casa Branca garantiu-lhe a posição de Adjunto do Presidente e Diretor do Gabinete de Estratégia Política e Relações Externas.

Licenciado em Ciência Política no Stonehill College e doutorado na Faculdade de Direito de Boston, Simas acredita no investimento e desenvolvimento de lideranças para um mundo melhor. O líder da Fundação Obama tem como principal missão investir nas novas gerações e no seu poder cívico.

«Temos a responsabilidade de não perder a Humanidade»

Quando fala em líderes refere-se a todos os cidadãos, são eles que têm poder na comunidade. «Enquanto cidadãos tomamos todos os dias decisões, relativamente ao que compramos e no que investimos. Com a paz é igual».

Mas quando dá exemplos concretos é a Barack Obama e aos pais que vai buscar inspiração. «Desde cedo que Obama está atento e explica a constante procura pela paz. Deve ser esta a missão de um líder. Temos essa responsabilidade, não perder a Humanidade que nos é querida», explica num crescendo de admiração pelo ex-presidente dos EUA, que ganhou inclusivamente o Prémio Nobel da Paz em 2009, num período em que o país estava envolvido em várias intervenções militares.

«É muito importante o que os pais fazem pelos filhos, como vi os meus pais fazerem por mim. O meu pai disse-me: “A vida de um emigrante é difícil e de muito sofrimento. Mas sempre com o pensamento que a vida do meu filho vai ser melhor”. Sou filho de pai açoreano e mãe alentejana, quando os meus pais me visitaram na Casa Branca, Barack Obama foi recebê-los à porta e agradecer diretamente aos meus pais pelo filho estar ao serviço dos EUA». Um gesto de verdadeiro respeito por parte do presidente. «Isto é liderança, isto é paz. O que se pode dizer a duas pessoas com a 4.ª classe? É respeitá-los e perceber que eles são os líderes da Democracia».

Para Simas, a Democracia é a expressão derradeira de autodeterminação e de liberdade. «Em Democracia quais são os nossos valores? Quais os princípios a que devemos ser consistentes? «A Democracia para mim é estar na terra dos meus pais. Em 1974, lembro-me bem da beleza da Democracia».

Sob o mote “A paz enquanto desafio para todos os líderes”, o Presidente da Fundação Obama deixa conselhos muito concretos: «O desafio da paz começa com o desafio de quem sou. Não podemos liderar os outros sem nos liderarmos a nós próprios. Quais são os nossos preconceitos, os nossos gatilhos, se somos levados pelo ego ou pelo prestígio não vai funcionar. A liderança verdadeira leva-nos à lente da generosidade e a colocarmo-nos na perspetiva do outro. Isto é uma noção fundamental de liderança. Este é o ponto de partida. Em segundo, não se deve dizer o que os outros devem fazer, deve-se envolver as pessoas. A verdadeira expressão de um líder é perceber que o que temos em comum é muito mais do que o que nos separa. Pela primeira vez temos um chamamento pela paz e de nos centrarmos em cada ser humano».

Falou também da importância de pensarmos em ações consequentes, de não deixarmos de parte os direitos humanos e aproveitarmos a altura certa.

E encerrou a sua intervenção com mais uma história marcante: Nelson Mandela perante uma plateia de 50 mil pessoas disse que «a mudança não acontece se esperarmos por uma pessoa e um momento. Nós somos a mudança».

Assista à talk de David Simas, e a todas as intervenções da Leadership Summit Portugal 2022, disponível on demand, com acesso universal e gratuito, na Líder TV na posição 165 do MEO e 560 da NOS, a partir do dia 14 de outubro.

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Time’s up – Desejos e realidades

12 Outubro, 2022 by Rita Saldanha

A mensagem de que vivemos uma emergência climática tem sido tão repetida que se pode tornar inoperante. E, no entanto, importa não perder de vista o problema. Os alertas da comunidade científica têm sido repetidos e apenas os excessivamente otimistas (dir-se-ia com a síndrome de Poliana) e os indefetíveis das teorias da conspiração poderão continuar a manifestar ceticismo. Perante a magnitude do problema, eis a questão: o que fazer?

Ninguém, obviamente, terá a resposta para problemas desta magnitude. Mas podemos tentar encontrar respostas, imperfeitas, limitadas e falíveis, mas acionáveis. Deste modo, como regenerar o planeta, sem entrar na via muskiana de criar alternativas em Marte? Importa considerar, desde logo e por muito óbvio que tal pareça, que a sustentabilidade é uma questão humana e não planetária. Poder-se-á mesmo dizer que as alterações climáticas são a resposta de Gaia à interferência humana, uma forma de ajustamento que não nos interessa ver prosseguida.

Como atuar? As organizações podem abraçar os objetivos de desenvolvimento sustentável como guias para a ação. Muitas já o estão a fazer, mas muito mais pode ser feito, de forma genuína. Casos como o escândalo Dieselgate na Volkswagen mostram que o abraço dos ODS é por vezes formal e ritualístico, uma forma de relações públicas sem substância.

As organizações podem ainda criar contextos favoráveis à mudança. Por exemplo, não impondo, mas favorecendo o consumo de menos carne subsidiando refeições vegetarianas desejavelmente nutritivas e saborosas – e favoráveis à saúde e ao planeta. Podem estimular a prática do exercício físico. Trata-se de coisas pequenas e insuficientes, mas necessárias. A transformação digital pode também alavancar novos hábitos de trabalho com menos deslocações.

A par destas pequenas transformações, serão necessárias grandes mudanças. É necessário um novo paradigma energético. A invasão da Ucrânia pela Rússia putinista, uma terrível fonte de destruição, poderá ser um estímulo para nos ajudar a curar o vício petrolífero. O desenvolvimento do Toyota Mirai, um carro movido a hidrogénio, poderá simbolizar o início de uma nova etapa. Experiências no âmbito da “carne celular “antecipam a possibilidade de comermos carne sem criarmos e sacrificarmos animais. Todos os setores, como a arquitetura e a agricultura, desenvolvem novas soluções com impactos positivos.

Estas são mudanças difíceis porque desafiam o status quo de vários setores. A alternativa é continuar a fazer tudo da mesma maneira esperando resultados diferentes. O que, como já alguém disse, corresponde à definição de estupidez. O tempo é, pois, de regeneração. Realisticamente, mas na direção da utopia para a tornar realidade.

Este artigo foi publicado na edição de outono da revista Líder. Subscreva a Líder AQUI.

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