“A mudança necessária para restabelecer a ordem política e económica no mundo” foi o tema em debate no segmento “Act Now for Peace – How can peace win this war?”, na Leadership Summit Portugal, que esta amanhã juntou no palco do Salão Preto e Prata, no Casino Estoril, Helena Ferro de Gouveia, Professora Universitária e […]
“A mudança necessária para restabelecer a ordem política e económica no mundo” foi o tema em debate no segmento “Act Now for Peace – How can peace win this war?”, na Leadership Summit Portugal, que esta amanhã juntou no palco do Salão Preto e Prata, no Casino Estoril, Helena Ferro de Gouveia, Professora Universitária e Analista de Assuntos Internacionais, António Saraiva, Presidente da CIP, Felipe Pathé Duarte, Investigador e Professor na Nova School of Law, e Ana Gomes, Diplomata, moderado por Aline de Beuvink, Professora e comentadora.
Aline Hall de Beuvink: Como conseguimos sair da crise em que nos encontramos do ponto de vista filosófico, cultural e acima de tudo do ponto de vista da paz, da economia e da política? E o que é necessário para tomarmos o primeiro passo de ajuda à Ucrânia?
Ana Gomes: Primeiro quero contestar o título do debate [“A mudança necessária para restabelecer a ordem política e económica do mundo”]. Esta ordem não nos serve, tem cavado desigualdades, tem dado andamento a projetos autoritários da extrema-direita desastrosos à Democracia. Só precisamos de estabelecer uma nova ordem. Condição sine qua non é ganhar a guerra à Rússia. Se ganharmos, e acho que está no bom caminho, a Rússia vai ser diferente. Se acontecer o contrário, a Europa será diferente. E precisamos de apostar na autonomia estratégica da Europa, com tudo o que isso implica. Precisamos de reformar as regras do Conselho de Segurança e Direitos Humanos das Nações Unidas. E alterar as instituições. Precisamos de mudar estes três vetores de forma a trazer prosperidade regulada.

Aline Hall de Beuvink: Como podemos tomar este passo para reorganizar a parte económica que é tão necessária?
António Saraiva: Para atingir um determinado objetivo temos de dar alguns passos. Em termos de economia, a Europa, no seu passo de tartaruga e falta de visão estratégica, foi vivendo colocando a sua fábrica na China e a sua energia na Rússia.
A pandemia veio mostrar que estrategicamente não tínhamos na Europa o que precisávamos. Temos de reposicionar a União Europeia, deve ser reestruturalizada. Não temos uma defesa. O que é necessário é que a UE reflita o que está a acontecer.
A Europa vai crescendo em território, mas diminui em peso político. E tem demonstrado debilidades que nos são prejudiciais e se nada for feito vai ser fatal. Se a UE não for um bloco coeso, unido, solidário e se nos mantivermos neste cinismo, o projeto está em desagregação.
Aline Hall de Beuvink: Há um denominador comum, que é o conhecimento da História. “Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-lo”. Como conseguimos que isso não aconteça?
Helena Ferro de Gouveia: Temos de pensar em dois atores neste conflito: a Alemanha e a Rússia, que são Estados centrais, com uma relação longa. São relações que perduraram para além das mudanças de regime. Catarina, a Grande, era uma alemã da Prússia, generais alemães lutaram ao lado do Czar contra Napoleão, após a 1ª Grande Guerra Mundial, foi assinado o tratado de Rapallo, que foi assinado à margem da reunião de Génova, com acordos entre a Rússia e a Alemanha, que vigorou até 1941. Mais tarde, quando a República Democrática da Alemanha foi inserida na esfera de Moscovo, foi assinado um novo Tratado, em 1970, e a partir deste momento dá-se uma aproximação através do comércio.
Criou-se uma política de “ser tudo para todos” – para o ocidente e para a Rússia, não hostilizando nenhuma das partes que compunham aquilo que foi o frágil equilíbrio vivido durante a guerra fria. É importante perceber esta politica de aproximação através do comércio, para perceber situações que vivemos. O 24 de fevereiro representou a maior mudança nas últimas 3 décadas para Alemanha. Neste momento estão em curso mudanças tectónicas que vão provocar alterações com impacto na nova ordem que se está a desenhar. Concordo com a Ana Gomes, não precisamos de uma ordem antiga, precisamos de uma nova ordem que reflita a nova realidade, e não o mundo pós Segunda Guerra Mundial, em que se ponha a tónica no Direito Internacional e naquilo que são os Direitos Humanos.

Aline Hall de Beuvink: Será que somos ingénuos nesta relação com a Rússia? O que está subjacente à questão da guerra e como surge de repente? Os impérios querem voltar a ser impérios?
Felipe Pathé Duarte: Sobre a ingenuidade com a Rússia, Putin já tinha anunciado os seus planos em 2007. Houve vários momentos, ao longo dos tempos, que Putin foi tentando, sempre, aliás, eu olho e vejo-o como um ladrão de Hotel, vai batendo às portas e entra naquela que estiver aberta. Foi wishful thinking pensar que a Rússia podia ser parceiro, e não se ver o que por aí vinha.
Quando à questão da guerra, a Paz pode ser uma excecionalidade, e como tal exige trabalho e esforço. Numa perspetiva filosófica, há uma natureza que me parece essencial da guerra, nós olhamos e vemos vários ângulos, são perspetivas parcelares da guerra, é impossível ter visão conjunta de tudo. Podemos ser ambiciosos e fazer um esforço para perceber a guerra, para perceber a sua natureza. Há duas premissas que nos ajudam a perceber a guerra – a primeira conforme Carl Von Clausewitz, o autor ficou que conhecido pela frase “a guerra como a continuação da política por outros meios”. Ou seja, enquanto houver identidade, soberania, domínio e conflito, há guerra. A segunda é a de que a guerra é um camelão, ela adapta-se, consoante o seu próprio ambiente. E nesse seguimento fala-se de uma “maravilhosa trindade”. Ideia um, a violência primordial, ideia dois o jogo entre a sorte e o acaso, e ideia três a racionalidade. É uma dinâmica das três categorias que tem de ser lida sob a forma da dialética. Isto é um jogo, entre a paixão, força e razão.
A dinâmica da guerra, é como um pêndulo magnético que se move em torno deste três princípios, como se fossem imanes. Consoante a tónica que for dada a cada um destes fatores, assim será o desenrolar da guerra. O que nos leva a perceber que a justeza de um conflito, não dá necessariamente a vitória a esse conflito, ou pelo facto de ter maior capacidade bélica e técnica também não dá vitória. Tudo depende da intensidade que cada fação atribui à vitória. Por regra, as guerras que começam por ocupação territorial não dão a vitória ao que invade, o que não implica capacidade. Este método é interessante, e uma ferramenta analítica que nos ajuda a perceber a guerra. Concluindo, perceber que a guerra é condição humana, a paz é a excecionalidade, e tem de ser trabalhada. A história da Europa conta com 28 séculos de histórias feita na adversidade e na contraposição, a ideia de nação e Estado é feita dessa contraposição.

Aline Hall de Beuvink: Existe esta ideia ilusória de que este espaço, em que vivemos, está confortável e é garantido. Vamos conseguir voltar ao nosso conforto económico, em breve? O inverno está à porta. Todos estão com medo.
António Saraiva: Vamos ter desconforto, tendencialmente, que depois irá gerar num novo conforto diferente. A Alemanha percecionou, finalmente, que a sua estratégia de consumir energia russa é fatal, e essa tomada de consciência está a causar uma alteração profunda na sua indústria, o que vai ter efeitos tectónicos no espaço europeu.
Essa nova realidade vai provocar a todos nós, portugueses, profundas alterações. Temos de rapidamente ter um processo decisório comum, alterar a nossa estratégia industrial, re-industrializar a Europa e nesse sentido não vamos viver nesse conforto. E ainda bem, pois era uma “paz podre”. Temos de caminhar no sentido de encontrar novas formas, energias alternativas. Mas vai ser doloroso esta readaptação. Este espaço temporal em que nos encontramos vai trazer-nos perda de qualidade de vida e custos acrescidos. Temos todos de refletir sobre a baixa do endividamento, porque o custo desse endividamento é cada vez mais caro, e o acesso às fontes de energia também.

Aline Hall de Beuvink: Temos de nos reinventar enquanto nos temos de concentrar na defesa do território e em ajudar a Ucrânia. A defesa que a Ucrânia faz do seu território é também a defesa dos nossos valores, da liberdade e da democracia. Sobrestimamos o poder da Rússia e subestimamos o da Ucrânia.
Helena Ferro de Gouveia: Temos de fazer a pedagogia e encarar a realidade. Vivemos tempos muito desconfortáveis, vamos alterar a nossa forma de produzir e consumir. Temos de ter uma maior consciencialização. É preciso perceber porque estamos a fazer isto. Não é este momento nem esta circunstância, mas estamos a arquitetar o futuro, para os nossos filhos e netos. Onde nos situamos e onde queremos estar. Quando olho para o projeto da UE é preciso não esquecer que surgiu como um projeto de paz na sua génese.
Temos um país que está em risco, há muito que a Ucrânia defende o seu direito de existir. Logo depois da anexação da Crimeia que se preparam para uma invasão. É na Ucrânia que se está a combater o que queremos ser na nossa sociedade.
Vamos ter de fazer sacrifícios maiores, a liberdade não é um dado adquirido, tem um preço. Pensando no caso de Timor, que lutou décadas contra a Indonésia nunca nos passou pela cabeça dizer para ceder.
Aline Hall de Beuvink: E que preço tem a liberdade?
Felipe Pathé Duarte: Houve subestimação mútua. A motivação desta guerra não é meramente expansionista, é profundamente identitária, com um fundamento ideológico. Há uma espécie de inevitabilidade da atuação russa, da ideia de uma potência continental, contrariamente às orgânicas que marcam o ocidente. De um lado Esparta, de outro lado Atenas, onde há liberdade e democracia.
Ana Gomes: A guerra não é só na Ucrânia, atinge-nos a todos. Hoje, poucos, têm lucros fabulosos caídos do céu. De facto, vivemos num mundo mais globalizado do que nunca. Há uma justa repartição dos sacrifícios.
Esta crise é uma tremenda oportunidade para fazermos a transição da energia, por exemplo. E isso implica mudar um sistema económico dominante neoliberal. É vital estabelecer regras no plano nacional e internacional nos Direitos Humanos. Sabemos que a Rússia não é o único membro que viola as regras, quem tem posições privilegiadas são os principais violadores. Precisamos de reformar as Nações Unidas. A Europa é muito mais poderosa do que demonstra.
Esta guerra é muito diferente de todas as outras. Estamos a ver uma potência nuclear,
Os sucessivos apelos de negociação de paz, supõem a rendição da Ucrânia. É evidente que vai haver negociações a um determinado momento, mas tem de haver a derrota da Rússia antes.
Aline Hall de Beuvink: É como se o Século XXI começasse agora, com uma nova ordem, que nos colocará a pensar.

Assista a este debate, e a todas as intervenções da Leadership Summit Portugal 2022, disponível on demand, com acesso universal e gratuito, na Líder TV na posição 165 do MEO e 560 da NOS, a partir do dia 14 de outubro.


