Por defeito ou feitio passamos muito tempo da nossa vida à procura de respostas, como se as perguntas que temos nas nossas cabeças fossem um ponto assente ou uma verdade absoluta. Poucas vezes nos damos conta de que são as perguntas que devemos procurar pois são elas que condicionam a procura, que dão o ritmo, a entoação, são elas que pautam o trilho. Por isso mesmo a pergunta certa pode ser o ponto de partida mais seguro, ou, pelo menos, a corda menos bamba onde nos procuramos equilibrar.
A ideia de que o tempo terminou e de que precisamos fazer alguma coisa já, pelo nosso planeta, pela nossa saúde, por uma digitalização humanizante ou pela paz tem implícitas muitas perguntas, muitos sentidos. Tem implícitas as ideias de urgência e de necessidade de decidir e de atuar. Esta tríade é o desafio mais pungente que as lideranças enfrentam porque as obriga a decidir, a atuar e a fazê-lo de forma rápida, antes que o caldo entorne, antes que o caos se dê.
Esta tríade convoca as mais profundas habilidades do ser humano, convoca também a intuição e a comunhão humana. Tudo isto porque é de heróis que precisamos em tempos onde não há tempo a perder. Abigail Marsch, psicóloga e neurocientista americana, num documentário de Guy Beauché tentou entender o comportamento de cidadãos heroicos para entender as origens do altruísmo e da compaixão no cérebro humano.
“Perante situações de perigo extremo, algumas pessoas não hesitam e arriscam a vida para salvar a de outras. Para além de bombeiros, polícias e médicos, há outras pessoas que, no meio de uma situação onde as nossas ações são ditadas pelo instinto de sobrevivência, encontram forças para pensar nos outros. Estendem a mão, transportam para local seguro ou protegem de disparos e loucuras uma pessoa que não conhecem. Que mecanismo humano permite que alguns passem de um comportamento normal para uma postura extraordinária?” E há diferenças neurológicas, sim, entre os que em frações de segundo avançam rumo ao desconhecido e os que ficam parados.
Ter consciência desta diferença entre cidadãos é tão importante como entender a diferença entre escolher e decidir; Charles Pépin, filósofo, desenvolve um projeto em torno da filosofia prática, ou uma filosofia de ação, partindo do pressuposto de que a ação não é só consequência de uma reflexão prévia, a ação comporta parte da sua verdade nela mesma. Ela tem grande parte da sua verdade na arte de reagir.
Na filosofia aristotélica, o Kairos dá-os esta dimensão da predisposição para o real, da abertura ao improviso e da importância de não ter um olhar exclusivo e implacável para o plano inicial, para o objetivo logicamente determinado. Será com o cartesianismo que esta filosofia de ação fica mais esclarecida, é com Decartes que se determina que a decisão nos permite compensar os limites do entendimento através da vontade ilimitada: “Onde o nosso entendimento é limitado a nossa vontade é ilimitada.” Na verdade, “Escolher é saber antes de agir. Decidir é mais agir antes de saber.”
Julgo que esta frase de Charles Pépin contém toda a mensagem que importa reter quando o mundo pede líderes com propensões heroicas, que atuem em frações de segundos, que tenham consciência de que escolher é selecionar entre várias opções através de uma reflexão lógica e que decidir implica uma ideia mais profunda de ação e convoca a empatia, a intuição, o altruísmo e demais características que vemos em muitos heróis que têm feito a história da Humanidade. A começar pelos heróis que dão as suas vidas anónimas para salvar pessoas de que ninguém ouviu falar. É neles que as lideranças se devem inspirar.
Este artigo foi publicado na edição de outono da revista Líder. Subscreva a Líder AQUI.