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Rita Saldanha

Precisamos de lideranças heroicas e não de tementes

12 Outubro, 2022 by Rita Saldanha

Por defeito ou feitio passamos muito tempo da nossa vida à procura de respostas, como se as perguntas que temos nas nossas cabeças fossem um ponto assente ou uma verdade absoluta. Poucas vezes nos damos conta de que são as perguntas que devemos procurar pois são elas que condicionam a procura, que dão o ritmo, a entoação, são elas que pautam o trilho. Por isso mesmo a pergunta certa pode ser o ponto de partida mais seguro, ou, pelo menos, a corda menos bamba onde nos procuramos equilibrar.

A ideia de que o tempo terminou e de que precisamos fazer alguma coisa já, pelo nosso planeta, pela nossa saúde, por uma digitalização humanizante ou pela paz tem implícitas muitas perguntas, muitos sentidos. Tem implícitas as ideias de urgência e de necessidade de decidir e de atuar. Esta tríade é o desafio mais pungente que as lideranças enfrentam porque as obriga a decidir, a atuar e a fazê-lo de forma rápida, antes que o caldo entorne, antes que o caos se dê.

Esta tríade convoca as mais profundas habilidades do ser humano, convoca também a intuição e a comunhão humana. Tudo isto porque é de heróis que precisamos em tempos onde não há tempo a perder. Abigail Marsch, psicóloga e neurocientista americana, num documentário de Guy Beauché tentou entender o comportamento de cidadãos heroicos para entender as origens do altruísmo e da compaixão no cérebro humano.

“Perante situações de perigo extremo, algumas pessoas não hesitam e arriscam a vida para salvar a de outras. Para além de bombeiros, polícias e médicos, há outras pessoas que, no meio de uma situação onde as nossas ações são ditadas pelo instinto de sobrevivência, encontram forças para pensar nos outros. Estendem a mão, transportam para local seguro ou protegem de disparos e loucuras uma pessoa que não conhecem. Que mecanismo humano permite que alguns passem de um comportamento normal para uma postura extraordinária?”  E há diferenças neurológicas, sim, entre os que em frações de segundo avançam rumo ao desconhecido e os que ficam parados.

Ter consciência desta diferença entre cidadãos é tão importante como entender a diferença entre escolher e decidir; Charles Pépin, filósofo, desenvolve um projeto em torno da filosofia prática, ou uma filosofia de ação, partindo do pressuposto de que a ação não é só consequência de uma reflexão prévia, a ação comporta parte da sua verdade nela mesma. Ela tem grande parte da sua verdade na arte de reagir.

Na filosofia aristotélica, o Kairos dá-os esta dimensão da predisposição para o real, da abertura ao improviso e da importância de não ter um olhar exclusivo e implacável para o plano inicial, para o objetivo logicamente determinado. Será com o cartesianismo que esta filosofia de ação fica mais esclarecida, é com Decartes que se determina que a decisão nos permite compensar os limites do entendimento através da vontade ilimitada: “Onde o nosso entendimento é limitado a nossa vontade é ilimitada.” Na verdade, “Escolher é saber antes de agir. Decidir é mais agir antes de saber.”

Julgo que esta frase de Charles Pépin contém toda a mensagem que importa reter quando o mundo pede líderes com propensões heroicas, que atuem em frações de segundos, que tenham consciência de que escolher é selecionar entre várias opções através de uma reflexão lógica e que decidir implica uma ideia mais profunda de ação e convoca a empatia, a intuição, o altruísmo e demais características que vemos em muitos heróis que têm feito a história da Humanidade. A começar pelos heróis que dão as suas vidas anónimas para salvar pessoas de que ninguém ouviu falar. É neles que as lideranças se devem inspirar.

Este artigo foi publicado na edição de outono da revista Líder. Subscreva a Líder AQUI.

Arquivado em:Opinião

Moçambique em destaque na produção científica na área da saúde

12 Outubro, 2022 by Rita Saldanha

Um novo estudo “MAPIS – Mapping of Health Sciences Research and Funding in Angola, Cape Verde, Guinea-Bissau, Mozambique and São Tomé and Príncipe” realizado por Tiago Santos Pereira e Hugo Confraria e com financiamento da Fundação Calouste Gulbenkian, apresenta a atividade de investigação nos PALOP – Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa – através da identificação de publicações científicas na área das ciências da saúde em revistas internacionais geralmente reconhecidas, entre 2008 e 2020.

 

Moçambique em destaque

Entre as conclusões apresentadas, os autores verificam que houve “um aumento significativo na produção da investigação em ciências da saúde nestes países, particularmente durante a última década”, com Moçambique a destacar-se no que respeita ao nível de produção de investigação.

Por outro lado, os resultados mostram também que grande parte da investigação em ciências da saúde é realizada em associação com hospitais, em articulação com o setor clínico e tendo em conta as necessidades concretas de saúde das populações locais, o que se traduz nos temas abordados pelos investigadores nos diferentes PALOP.

“Em Moçambique, a relevância de doenças como o VIH ou a malária reflete-se nos tópicos mais abordados na investigação local, enquanto em Angola ou na Guiné-Bissau surgem outros tópicos, tais como os relacionados com a parasitose (em Angola) ou com o sarampo (na Guiné-Bissau)”, pode ler-se no relatório.

 

Mais colaboração interna é essencial

O estudo conclui que os investigadores em ciências da saúde nos PALOP possuem uma vasta rede internacional, em que países como os EUA e a Dinamarca assumem um papel de maior relevância enquanto parceiros e financiadores, nomeadamente em Moçambique e na Guiné-Bissau. Em paralelo, os autores salientam ainda a escassez de colaborações internas entre os diferentes países que partilham a língua portuguesa.

Depois deste mapeamento conseguiremos perceber alguns dos motivos pelos quais a maioria destes países estão afastados dos circuitos internacionais e, assim, ser mais focados e eficazes.

Maria Hermínia Cabral, diretora do Programa Gulbenkian Parcerias para o Desenvolvimento.

 

Ao apresentar o primeiro mapeamento das atividades conduzidas pela comunidade médica e de investigação focada nestes cinco países, o estudo pretende:

– Reforçar a visibilidade das iniciativas e capacidades de investigação existentes, destacando a sua contribuição para o progresso social e económico;

-Identificar os principais financiadores e líderes científicos nesta área;

– Promover um maior olhar sobre as perspetivas futuras de apoio à investigação nos PALOP.

 

 

 

Arquivado em:África, Inovação, Moçambique, Notícias

Criação de empresas cresce 17%

12 Outubro, 2022 by Rita Saldanha

Até final do 3º trimestre foram constituídas 36 323 empresas em Portugal, mais 5 205 que no período homólogo de 2021, o que corresponde a um crescimento de 17%.

Segundo o Barómetro da Informa D&B, apesar deste crescimento, a evolução trimestral em 2022 tem registado um abrandamento consecutivo: no 1º trimestre, o crescimento de novas empresas foi de 34%, caindo depois para os 9% no segundo e para os 7% no terceiro. Ainda assim, é expectável que o ano de 2022 termine com um número de constituições superior ao de 2021.

Os setores do Retalho, Agricultura e outros recursos naturais e Indústrias são os únicos setores cujo número de constituições até 30 de setembro de 2022 decresce face ao mesmo período de 2021. O Retalho tem um peso especial no registo genérico do tecido empresarial, dado que a queda é acentuada (12%), sendo também o terceiro maior setor a nível nacional em número de empresas. Com exceção do mês de agosto, este setor apresenta quedas há 7 meses. Este comportamento do Retalho é transversal a quase todos os seus subsetores, com destaque para o Retalho de Têxtil e Moda, Generalista e Restante retalho. Apenas o Retalho Automóvel regista um aumento do número de novas empresas.

 

Retalho – criação de novas empresas

Entre os setores com os maiores crescimentos na criação de novas empresas destacam-se os Transportes (+129%), as Tecnologias de informação e comunicação (+29%), os Serviços Gerais (+25%) e o Alojamento e restauração (+23%).

Face ao período antes da pandemia, a criação de novas empresas está ainda 5% abaixo. Apenas os setores das Tecnologias de Informação e Comunicação (+29%), das Atividades Imobiliárias (+20%) e o dos Serviços Empresariais (+2%) superam já o ano de 2019.

A subida das constituições entre janeiro e setembro de 2022 é transversal a todas as regiões, com a Área Metropolitana de Lisboa a concentrar grande parte destas novas empresas (+3 329 constituições, +29%).

 

Encerramentos descem 0,6%

Entre o início de janeiro até 30 de setembro, encerraram 8 826 empresas, o que corresponde a menos 50 encerramentos que o período homólogo e a uma variação negativa de -0,6%. Mais de metade dos setores apresentam valores inferiores a 2021, sendo o setor Grossista o que mais contribui para o decréscimo global do número de encerramentos.

 

Insolvências descem 20%

No mesmo período, registaram-se 1 211 novos processos de insolvência, valor que representa uma descida de 20% face ao período homólogo, mantendo uma tendência que se verifica há quase um ano e meio.

O setor dos Transportes, que é aquele com o maior crescimento na criação de novas empresas, é o único a registar um aumento do número de insolvências, com mais 11 novos processos em 2022.

Arquivado em:Economia, Notícias

Receita para o sucesso: aproximar Academia das TIC

12 Outubro, 2022 by Rita Saldanha

A digitalização de tudo e de todos é uma realidade incontornável, acelerada exponencialmente pela pandemia de Covid-19, a partir de 2020, e pelos cada vez maiores desenvolvimentos tecnológicos a que assistimos. Hoje, multiplica-se o número de projetos que já nascem digitais, com modelos de negócio de sucesso. E, em paralelo, todas as empresas, de todos os setores de atividade, terão de avançar com processos de transformação, assumindo-se cada vez mais como organizações digitais, pois só assim garantirão a sua existência e o seu êxito neste novo mundo que está em construção.

A esta realidade, comum a todos os mercados, acresce no caso nacional a forte e crescente apetência que o país regista enquanto hub preferencial de atração de investimentos em centros de competências de base tecnológica de grupos internacionais, vindos não só da Europa, mas de todos os cantos do mundo. O florescente ecossistema empreendedor, associado às infraestruturas de comunicações de ponta, à grande qualidade dos recursos humanos e à estabilidade do país são fatores considerados determinantes.

Não é por isso de estranhar que se registe uma acentuada falta de talento especializado em TIC. Esta realidade já era reconhecida há muito por todos, até porque a escolha de profissões ligadas às tecnologias de informação e comunicação (TIC) desde sempre registou níveis abaixo do desejável, sobretudo por parte das jovens estudantes portuguesas, mas assume neste momento uma relevância verdadeiramente crítica.

Os dados do Índice de Digitalidade da Economia e da Sociedade (DESI) de 2022 mostram uma evolução positiva em termos de diplomados e especialistas em TIC em Portugal. Assim, os diplomados em TIC representavam 2,6% do total de diplomados em 2020, face aos 2,2% dois anos antes. Ainda assim, estávamos abaixo dos 3,9% da média europeia. Já os especialistas representavam 4,7% da percentagem de pessoas com emprego entre os 15 e os 74 anos em 2021, acima dos 3,5% de 2019 e da média europeia de 4,5% do ano passado. As mulheres representavam no nosso país 21% de todos os especialistas TIC, acima dos 19% da média da Europa.

Nos últimos anos, multiplicaram-se os cursos nas áreas TIC. A rede nacional de Politécnicos, por exemplo, tem conseguido atrair mais jovens para as áreas TIC, não só através de cursos superiores mais virados para a prática, como também através dos Cursos Técnicos Superiores Profissionais (CTeSP), onde já existem muitas opções tecnológicas. Estas formações levaram a uma crescente e inevitável aproximação entre a Academia e as empresas TIC, no sentido de dar resposta às necessidades concretas do mercado em termos de talento, à medida que as organizações se vão digitalizando e adotando soluções tecnológicas de ponta, que levam à extinção de muitos postos de trabalho, graças à crescente automatização, e à criação de necessidade de talento muito mais especializado.

Um bom exemplo desta aproximação e das sucessivas parcerias que vão sendo anunciadas é a iniciativa “Seeds for the Future”, da Huawei, que resulta de uma estratégia de empoderamento das comunidades académicas, consideradas como um dos mais importantes veículos de crescimento e prosperidade da sociedade. Lançado a nível internacional em 2008, este projeto já alcançou mais de 12 mil estudantes em todo o mundo.

Tendo como mote a valorização do talento, a iniciativa é dedicada a alunos do ensino superior das áreas TIC, dando-lhes a oportunidade de contactar com a realidade do trabalho nas TIC e de conhecerem algumas das tecnologias mais inovadoras, como 5G, Inteligência Artificial, Cloud e IoT. Para tal, os participantes integram atividades como visitas virtuais, mentorias com especialistas e debates. Foi aliás neste contexto que conheci o grupo de participantes nacionais deste ano: 20 estudantes (10 rapazes e 10 raparigas) de 13 instituições de ensino superior distribuídas por todo o território nacional, elevando para 100 o número total dos que já participaram neste programa em Portugal.

Programas como este são essenciais para captar o interesse dos jovens para as áreas tecnológicas mais disruptivas, num processo que deve começar cedo no processo educativo. Não é por acaso que o Governo pretende avançar com a introdução do pensamento computacional, a partir deste novo ano letivo, como uma das capacidades a desenvolver pelos alunos de todo o ensino básico na disciplina de Matemática. É uma pequena semente que certamente dará frutos no futuro, no sentido dos nossos jovens ganharem capacidades de raciocínio lógico e computacional e de terem pensamento crítico ao longo do ensino obrigatório.

Há ainda mais caminhos na formação de talento qualificado em TIC, até porque enfrentamos, tal como a Europa, um problema demográfico grave. Tendo em conta que muitos postos de trabalho estão em mutação, em resultado da aceleração tecnológica, o nome do jogo tem de ser ainda a requalificação. Há uma clara necessidade de recursos tecnológicos e um conjunto alargado de pessoas desempregadas ou em situação de subemprego.

Programas como o UPskill, um projeto da APDC em parceria com o IEFP e a Academia, fazem este ‘casamento’ e permitem que as empresas aderentes ao programa contratem, no final do processo, as pessoas com as qualificações certas para as suas necessidades em concreto. Afinal, não nos podemos esquecer que as necessidades de talento TIC são transversais a todas as empresas e setores de atividade. E que os players globais têm o país cada vez mais na mira, o que só pode ser bom para a nossa economia!

 

 

Arquivado em:Opinião

Afinal, o que queremos ser e fazer?

11 Outubro, 2022 by Rita Saldanha

Ir para a faculdade, casar, ter filhos, uma casa e uma carreira de sucesso são apenas algumas das expectativas que todos têm para as suas vidas. E por que tantos seguem este “caminho” tradicional, tanto da vida real, como na cultura popular ocidental, aprendemos desde muito novos a modelar e emular estes comportamentos.

A família e tradições culturais ditam o que é esperado por nós ao longo da vida, particularmente com as mulheres, o que pode gerar ansiedade quando esses objetivos não são alcançados. Neste sentido, a Vox dá dicas sobre como sair desse círculo vicioso, estando mais consciente do que realmente quer para si.

 

O que diz a ciência

“O que os investigadores averiguaram é que as pessoas moldam os seus comportamentos em conformidade com os dos que nos rodeiam, maioritariamente para ser aceites em sociedade”, diz Daryl Van Tongeren, professor associado de psicologia na Hope College. “Então, muitas vezes, fazemos o que os outros fazem porque queremos fazer parte do grupo, queremos ser aceites, e queremos que gostem de nós.”

A pressão externa da família, amigos e comunicação social acentua esses sintomas, potencialmente criando conflitos emocionais no que toca a determinar o que realmente quer para o futuro. Com tempo e reflexões, pode usar os seus valores e motivações como guias para viver uma vida autêntica.

 

 Viver em piloto automático

Muitas pessoas não param para pensar o que realmente querem para as suas vidas. Vamos assistindo aos nossos amigos e familiares mais próximos a viver as suas vidas e a riscar as suas checklists de objetivos e sonhos, e tentamos seguir esse guião estritamente.

Quando a vida está cheia de exigências – “deves ir para a faculdade, deves casar, comprar uma boa casa, ter filhos, chegar ao topo da carreira”, etc – há muito pouco espaço para improvisação.

Como muitos destes eventos estão ligados à riqueza e poder de compra, os que não têm forma de pagar propinas ou pedir um crédito habitação podem sentir que estão a falhar.

No entanto, só quando nos desviamos do caminho e saímos do modo piloto automático – propositadamente ou não – é que consideramos se o caminho até então é o certo para nós.

 

Refletir

Para realmente entender o que quer para si e para a sua vida, tem de fazer uma reflexão e entender realmente o que o motiva.

Quando pais, amigos, ou outras pessoas fazem pressão para, por exemplo, seguir uma carreira de medicina, e na verdade o seu sonho é a moda, pode se sentir-se com stress, ou preocupado por desapontar os pais se se desviar do caminho, diz Jeremy Nicholson, um psicólogo social.

As coisas para as quais está intrinsecamente motivado para fazer são as que o fazem sentir mais autêntico. No entanto, se cresceu com certas expectativas e obrigações, saber o que o motiva pode ser difícil. Nicholson recomenda prestar atenção aos seus sentimentos quando confrontados com grandes eventos de vida.

 

Tenha em consideração os seus valores

“O que eu gosto de fazer na vida?” é uma pergunta enganosamente difícil.

Como ninguém entra neste mundo enquanto ser humano plenamente realizado, isto requer um processo de tentativa-erro. Assim, o ideal é considerar o que naturalmente o entusiasma, e alimentar esses desejos.

“Se morasse numa ilha e não houvesse ninguém por perto para agradar ou impressionar, o que gostaria de ter na sua vida? O que é que estaria a fazer? Quais são as suas paixões e competências naturais?

Pense nas coisas que mais valoriza na vida e avalie suas decisões em relação a esses valores. Por exemplo, se você está a pensar aceitar um novo emprego com um salário mais alto que talvez pareça bom no papel, mas envolveria afastar-se das pessoas mais chegadas, reflita sobre o quanto você valoriza sua autonomia, relacionamentos e finanças.

 

Arquivado em:Notícias, Trabalho

Confiança das empresas na política fiscal recua 8 anos

11 Outubro, 2022 by Rita Saldanha

Cerca de 80% das empresas nacionais estão menos convictas de que a política fiscal do Governo tenha impulsionado o desenvolvimento e favorecido a competitividade. Este é o valor mais elevado de rejeição dos instrumentos fiscais do Governo desde 2014.

O Observatório da Competitividade Fiscal 2022, elaborado pela Deloitte, revela ainda que em termos agregados dos dois últimos anos, a perceção negativa aumentou 23 pontos percentuais, revertendo uma tendência positiva que se vinha registando em anos anteriores.

A mesma análise conclui também que uma maioria crescente dos empresários portugueses consideram o sistema fiscal complexo e ineficaz, passando de 54% (OE2021) para 68%, o que demonstra uma perceção mais negativa, entre a classe empresarial.

Medidas fiscais OE2022

Segundo as conclusões do inquérito feito às empresas portuguesas, e à semelhança de anos anteriores, os inquiridos consideraram as medidas fiscais do OE2022, em termos gerais, indiferentes.

Ainda assim, 40% dos inquiridos consideram que o orçamento em vigor é positivo para a consolidação orçamental, enquanto, no polo oposto, 63% avaliam as suas medidas como negativas para o relançamento da economia.

No que toca às medidas mais emblemáticas do OE2022, 85% dos inquiridos considera que o desdobramento dos escalões do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares (IRS) deveria ter sido mais ambicioso.

Paralelamente, 74% consideram que a obrigatoriedade de englobamento das mais-valias por parte dos contribuintes no último escalão de IRS vem penalizar o funcionamento eficiente do mercado de capitais.

Quanto às medidas fiscais do OE2022 percecionadas de forma positiva, destacam-se o “IRS Jovem”, valorizado por 69% dos inquiridos e o programa “Regressar”, com 64% da amostra a concordar que se trata de uma boa medida para a atração de talento.

Também o Incentivo Fiscal à Recuperação (IFR) avaliado positivamente por 55% dos inquiridos, que, no entanto, lhe apontam como principais limitações a proibição de cessar contratos de trabalho por despedimento coletivo ou por extinção do posto de trabalho, pelo período de três anos, e a limitação à distribuição de dividendos, durante idêntico período.

Com o intuito de minimizar o aumento significativo do preço dos combustíveis, em virtude da crise dos combustíveis fósseis, o Governo adotou medidas fiscais, nomeadamente a revisão do Imposto sobre Produtos Petrolíferos (ISP) e a criação do AUTOVoucher.

Todavia, essas iniciativas foram consideradas por 89% dos inquiridos como insuficientes para colmatar a situação.

Maior insatisfação com o Plano de Recuperação e Resiliência

Na sequência da pandemia decorrente da Covid-19, que abalou a conjuntura económica global nos anos de 2020, 2021 e 2022, foi aprovado um Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) com o objetivo de relançar a economia europeia. De acordo com 63% dos inquiridos, o PRR Português não responde às necessidades do país, representando uma oportunidade perdida, tendo-se verificado um aumento considerável face a 2021 (49%) daqueles que têm esta opinião.

A estrutura deste plano assenta em três dimensões nucleares: (i) Resiliência, (ii) Transição Climática e (iii) Transição Digital. De acordo com os inquiridos (37%), a dimensão mais relevante é a Transição Climática. No que respeita à avaliação dos mecanismos de apoio e incentivos fiscais, é relevante realçar que 60% dos inquiridos concorreu a incentivos fiscais nos últimos anos.

De entre estes, destacam-se o SIFIDE II, com 79% das respostas, e o CFEI II, com 66%. Contrariamente, 64% dos participantes neste estudo não concorreu a incentivos financeiros nos últimos anos. Ainda assim, o Sistema de Incentivos à Investigação e ao Desenvolvimento Tecnológico e o Sistema de Incentivos à Inovação Produtiva foram por estes considerados como os incentivos financeiros mais relevantes.

A grande maioria dos inquiridos (80%) concorda com a manutenção dos incentivos existentes, embora 61% defenda que estes deveriam ser reforçados com novos incentivos, sendo que a inovação produtiva e a investigação e desenvolvimento tecnológico foram as áreas consideradas mais prioritárias pelos participantes neste estudo.

Refletindo sobre a competitividade e atratividade da economia portuguesa, os inquiridos elegem, como áreas de mudança mais importantes para a captação de investimento, a legislação laboral (48%) e a simplificação da burocracia em geral (47%). Numa linha semelhante, elegem como principais obstáculos a burocracia em geral (66%) e a carga fiscal sobre as empresas (52%).

 

Este Observatório tem-se assumido como um barómetro da perceção que as empresas têm das políticas fiscais adotadas pelos diversos Governos e dos seus efeitos ao nível da competitividade das empresas portuguesas. À semelhança do ano anterior, pela relevância de um contexto que se impôs de forma dramática e que não podemos ignorar, decorrente dos efeitos da pandemia do Covid-19 e da guerra na Ucrânia, incluímos, neste Observatório, algumas questões que visaram avaliar a abordagem do Governo às adversidades do momento, desde logo a implementação do Plano de Recuperação e Resiliência e a resposta à corrente crise energética.

Luís Belo, Partner e Tax Leader da Deloitte

Arquivado em:Economia, Notícias

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