É interessante verificar que, nesta fase da guerra, Putin e os seus sequazes se tenham afadigado a promover referendos nos territórios ocupados.
Eis três notas sobre os ditos:
- Os ditadores do passado assumiam o seu papel de hierarcas e não se preocupavam por aí além com o voto do povo. Bastava-lhes a sua suposta capacidade de entender melhor que o povo o interesse do mesmo. Não nesta fase: mesmo os mais empedernidos ditadores precisam de um verniz democrático para poderem proclamar uma legitimidade que não têm e que todos sabem que eles não têm. Mesmo assim, procuram esse verniz.
- Todos sabemos hoje, todavia, que o voto não é mais que uma das faces da democracia. Mas o voto democrático é livre e não constrangido. O voto sem qualidade institucional é uma concha vazia. Estas votações com números soviéticos seriam cómicas se não fossem trágicas. São vitórias pírricas contra um inimigo, o Ocidente, satânico e colonialista diz Putin, com ironia involuntária nesta época de pensamento dominante pós-colonialista.
- Os russos que podem, entretanto, vão votando com os pés. Abandonam o país. Uns já o tinham feito; outros fazem-no em resposta à mobilização. Este é um voto poderoso que penalizará a Rússia. A saída de pessoas, incluindo as detentoras de elevado capital humano, terá efeitos nefastos. A combinação de sanções económicas, uma reputação destruída e a fuga de capital humano não prometem nada de bom para a nação russa, tão tragicamente castigada pelos seus dirigentes.


