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Titiana Barroso

Narcisistas são melhores ou piores líderes?

28 Abril, 2021 by Titiana Barroso

O narcisismo dos líderes é um pau de vários bicos. É por essa razão que o debate e a investigação sobre a matéria são inconclusivos. Não é possível responder de modo perentório à questão de saber se os líderes narcisistas são, ou não, melhores líderes – e se devem, ou não, ser selecionados ou promovidos. Porque várias pessoas me têm perguntado como devem lidar com líderes narcisistas, aqui partilho cinco reflexões.

#1. O líder narcisista é alguém que se tem em grande conta, se admira a si próprio e procura constantemente a admiração dos outros. Ter amor próprio é saudável e ajuda a prosperar na vida. Mas, quando exagerado, o narcisismo é tóxico para o próprio líder e os liderados. Transforma-se numa desordem da personalidade caraterizada por obsessão com a autoimagem, desejo permanente de atenção e adulação, pensamento fantasioso, e ausência de empatia pelos outros. O narcisista retalia contra quem não lhe devolve os encómios que ele julga merecer.

#2. Há, pelo menos, dois tipos de narcisismo (embora haja quem combine ambos): o vulnerável e o grandioso. O narcisista vulnerável é um “vidrinho de cheiro” desconfiado e agressivo perante quem não valida a sua autoimagem favorável. Portanto, a grande autoconfiança que este líder expressa pode esconder baixa autoestima e grande vulnerabilidade. É por isso que o líder narcisista detesta ser criticado e retalia. A consequência é que se rodeia de quem o bajula e lhe comunica o que ele quer ouvir. O narcisista grandioso é diferente. Dotado de maior autoestima, procura ser o centro das atenções, é arrogante e dominador, e pretende ser tratado como “especial”.

#3. No mundo empresarial, o narcisista grandioso pode ser bem-sucedido. Mostrando autoconfiança e enveredando por projetos ambiciosos que fazem jus à sua autoimagem insuflada, é mais persuasivo – o que lhe permite ascender na carreira e envolver outras pessoas nos seus projetos. Esta ambição capacita-o para alcançar o que outros líderes não conseguem. Quando os arrojados projetos singram, o sucesso tende a ser enorme. Mas há um reverso da medalha: o narcisista grandioso subestima riscos, pelo que os seus projetos ambiciosos podem, também, ser irrealistas e fracassar. Após o falhanço, o líder narcisista pode mesmo resistir a abandonar o projeto, de modo a preservar a sua autoimagem. Consequentemente, em termos globais, os líderes narcisistas não obtêm melhores resultados do que os líderes não narcisistas. Mas geram resultados mais extremados – ora fantásticos, ora desastrosos.

#4. Trabalhar para um líder narcisista “sabe-tudo” pode ser um desafio de grande monta. Um artigo recente sugere que o sucesso do narcisista Steve Jobs se explica pelo seu génio, mas também pelo das pessoas que souberam influenciá-lo. Eis algumas estratégias que podem auxiliar um liderado a influenciar o líder narcisista. Evite tudo o que possa levar o narcisista a sentir que está a ser alvo de ataque pessoal. Em vez de lhe dizer que ele está errado, conceda-lhe margem para se expressar e, durante a conversa, talvez ele próprio compreenda que precisa de ajuda. Em vez de lhe dar lições, coloque-lhe questões que o levem a sentir que tem controlo sobre a situação e que a escolha resultante da discussão é da sua (dele) autoria. Antes de discordar dele ou contrariá-lo num dado assunto, elogie-lhe o mérito e o brilhantismo. Faça sugestões que o levem a sentir que, se mudar o comportamento, será (ainda mais) bem-sucedido.

#5. Um estudo envolvendo crianças com idades entre os 7 e os 14 anos sugere que as mais narcisistas tendem a ser escolhidas para papeis de liderança e sentem-se, elas próprias, melhores líderes. No entanto, a sua real eficácia como líderes de equipa não é maior do que a eficácia de crianças menos narcisistas. Esta evidência está alinhada com estudos sobre liderança nos meios empresarial e político. A ilação é clara, sobretudo para processos de seleção e promoção de líderes: não devemos confundir autoconfiança e autopromoção com real desempenho. Devemos ser cautelosos com pessoas que se insinuam tendo em vista alcançar lugares de poder, fama e sucesso pessoal.

Concluo: um nível saudável de narcisismo é importante, desde que combinado com humildade – reconhecendo forças e fraquezas próprias, respeitando as forças dos outros, e estando disponível para aprender. Quando não tem os pés na terra, o narcisista pode transformar-se num ativo tóxico. Em tempos de crise, como o que temos vivido, este tipo de líder pode sentir-se excecionalmente preparado, desenvolver pensamento fantasioso, ignorar conselhos, subestimar a natureza dos perigos e, desse modo, acrescentar crise à já existente. Trump e Bolsonaro – eis dois atores principais de uma tal tragédia.


Por Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

Arquivado em:Leading Opinion, Opinião

«Os espaços de trabalho vão ser desenhados com base no user experience», vaticina Pedro Gomes

28 Abril, 2021 by Titiana Barroso


As intervenções estéticas e funcionais nos espaços de trabalho têm vindo a ser engendrados nos últimos anos. O paradigma mudou e a Pandemia acelerou a redefinição do conceito de local de trabalho.

De forma a proporcionar uma nova experiência no escritório, pensada para potencializar o bem-estar, a felicidade e a produtividade, já se fala inclusivamente em “residências de trabalho”, onde a comodidade, a identidade corporativa e a sustentabilidade não são deixadas ao acaso. E nada será como antes.

Estão prontos para entrar nos escritórios de amanhã?

Para Pedro Gomes, Arquitecto Associado da Savills Portugal: «Os escritórios vão continuar a desempenhar um papel de enorme importância na manutenção de uma cultura empresarial que atrai e retém talento e no desejável equilíbrio entre a vida profissional e pessoal que por mais híbrida que se torne, deve ter em conta as suas diferentes formas, objetivos e modo como é vivido cada momento do nosso dia-a-dia».

Mestre em Arquitetura pela Faculdade de Arquitetura – Universidade de Lisboa desde 2012, Pedro iniciou a sua carreira na VÃO – Arquitetos Associados. Durante cinco anos participou em vários projetos, com especial incidência em projetos de grande escala em três áreas diferentes: reabilitação, hotelaria e residencial. Em 2017, a Aguirre Newman é adquirida pela Savills, onde Pedro Gomes continua a sua carreira como Arquiteto, com especial incidência em projetos fit out de escritórios e coordenação de obra. Em março de 2021 passa a Arquiteto Associado do Departamento de Arquitetura da Savills.

Colocámos a pergunta: Como serão os escritórios do futuro? a quatro especialistas da área. Pedro Gomes aceitou o desafio:

«O futuro dos escritórios deverá passar por um modelo híbrido, em que cada empresa deverá encontrar o equilíbrio entre o trabalho presencial e o trabalho remoto.

No futuro, os espaços de trabalho, do ponto de vista do seu desenho, serão reinventados, através da implementação de mais tecnologia, flexibilidade e com uma preocupação adicional sobre o impacto que poderão causar na saúde e bem-estar dos seus utilizadores. A lógica da monitorização dos espaços de trabalho através de sensores que vão ajudar na gestão de ocupação dos espaços, bem como na recolha de dados de conforto irá ser bastante utilizada.

Imagine entrar no escritório e verificar automaticamente quais os lugares que estão disponíveis para nos sentarmos e marcar o lugar sem ter de andar à procura de um que esteja vazio? É uma lógica que, apesar de já existir antes da Pandemia, agora se vai tornar muito mais recorrente nos projetos de escritórios. Este tipo de tecnologia leva-nos a acreditar que o posto-fixo não será uma realidade do futuro, ou a manter-se será em número muito reduzido, pois com a implementação de sistemas de rotatividade será necessário que os espaços de trabalho se tornem mais flexíveis.

A Sustentabilidade também será uma preocupação, quer na escolha de materiais de acabamentos, quer nas opções técnicas adotadas, com o objetivo de reduzir consumos energéticos que permitam diminuir a pegada ecológica e o impacto que tem gerado no meio ambiente. Com estes avanços ao nível tecnológico, uma coisa teremos como certa: os espaços de trabalho vão continuar a desempenhar um papel de enorme importância na manutenção de uma cultura empresarial que atrai e retém talento e no desejável equilíbrio entre a vida profissional e pessoal que por mais híbrida que se torne, deve ter em conta as suas diferentes formas, objetivos e modo como é vivido cada momento do nosso dia-a-dia. É também aqui que encontramos o grande desafio para as empresas nos pós-Pandemia – a criação de espaços de trabalho cada vez mais desenhados com base no user experience».

Pode ler todas as intervenções na edição de primavera da revista Líder.

Arquivado em:Notícias, Trabalho

A nova era dos psicadélicos no tratamento da depressão

28 Abril, 2021 by Titiana Barroso

Robin Carhart-Harris, Psicólogo e Neurocientista responsável pelo Centro de Investigação dos Psicadélicos do Imperial College de Londres, foi o autor de um recente estudo sobre como a psilocibina, uma droga psicadélica “clássica” quimicamente semelhante ao LSD e um dos constituintes dos “cogumelos mágicos”, pode ser eficaz no tratamento da depressão. Após 15 anos a investigar as alternativas aos medicamentos antidepressivos, foram agora publicados os resultados do seu ensaio clínico, o primeiro no Reino Unido, que recorreu ao uso da psilocibina como um nova promessa terapêutica.

Num artigo de opinião para o The Guardian, o investigador explica por que razão a psilocibina parece ser um tratamento mais eficaz para a depressão do que um antidepressivo típico e afirma estarmos à beira de uma mudança de paradigma na saúde mental, com uma melhor compreensão das origens da depressão e a descoberta de um tratamento mais eficaz.

A doença mental afeta cerca de mil milhões de pessoas em todo o mundo, sendo a depressão responsável por 25% dessa incapacidade. Em paralelo, o número de prescrições de antidepressivos aumenta anualmente com um mercado estimado de 15 mil milhões de dólares.

As taxas de prevalência da doença não baixam e há muito que a Psiquiatria não tem conseguido explicar como e por que a depressão ocorre. O uso comum de antidepressivos com base na serotonina (os ISRS – inibidor seletivo da recaptação da serotonina) tem sido até hoje a principal opção de tratamento, como é o caso do Prozac (fluoxetina) ou mais recentemente o Cipralex (escitalopram). O facto das pessoas se sentirem deprimidas pela baixa produção cerebral de serotonina serviu de justificação para que o usos destas opções terapêuticas se tornasse massificado. No entanto, os recentes estudos indicam que os ISRS, em comparação com o placebo, não são assim tão mais eficazes.

No ensaio clínico liderado pelo Neurocientista, foram comparados entre dois grupos os efeitos do tratamento com antidepressivo ISRS e com psilocibina. No final do estudo, a taxa média de resposta ao escitalopram foi de 33%, mas em comparação, a psilocibina funcionou mais rapidamente e com uma taxa média de resposta de mais de 70%.

O investigador já suspeitava o bom desempenho da psilocibina em comparação com os ISRS, não esperava, contudo, que fosse tão bom. Sabia-se que o uso de uma terapêutica com psilocibina teria efeitos superiores no bem-estar psicológico mas não tanto nos marcadores de gravidade da depressão. No entanto, as pessoas no grupo da psilocibina também mostraram melhorias na maioria dos sintomas de depressão, como ansiedade, trabalho e funcionamento social, pensamentos suicidas e a capacidade de sentir emoção e prazer.

O estudo veio ainda mostrar, através das imagens cerebrais recolhidas, que embora os ISRS reduzam os sintomas depressivos, a psilocibina parece libertar pensamentos e sentimentos. A terapia psicadélica parece catalisar um tipo de crescimento psicológico que conduz à saúde mental, coincidindo em muitos aspetos com um crescimento espiritual.

Na opinião de Robin Carhart-Harris, a mudança do paradigma em relação à terapêutica anti depressiva irá fazer com que a Psiquiatria adote um modelo “biopsicossocial” de abordagem à doença, quebrando o ciclo do uso exclusivo de uma “droga única” durante décadas. Este novo modelo explica os sintomas da depressão como uma resposta adaptativa à adversidade, com causas psicossociais identificáveis, embora complexas. As drogas psicadélicas podem tratar a depressão ativando estados cerebrais que evoluíram nos humanos como resposta a mudanças psicológicas profundas.

Já são vários os países que estão a aderir a projetos de pesquisa e legalização de terapias com base nos psicadélicos, como os EUA, Canadá, Austrália e Reino Unido. Para o investigador estes são importantes avanços que mostram um reconhecimento global do uso e benefício da psilocibina no caminho ainda difícil para o alcance de uma melhoria no bem-estar psicológico da população.

Arquivado em:Notícias, Saúde

O fosso criado pela Pandemia entre ricos e pobres

28 Abril, 2021 by Titiana Barroso

Hoje sabemos que a Pandemia surtiu efeitos nefastos sobre as economias dos países fazendo aumentar as desigualdades nos níveis de rendimento. No working paper “The Unequal Inequality Impact Of The COVID-19 Pandemic” recentemente publicado, Zsolt Darvas, Investigador da Universidade Corvinus de Budapeste e senior fellow da Bruegel, aborda a questão sobre o desigual impacto da Pandemia causada pelo COVID-19 e respetivas contrações do PIB dentro dos países que fez aumentar o fosso entre ricos e pobres.

Apesar de só ser possível daqui a dois anos ter acesso a dados oficiais sobre a desigualdade dos níveis de rendimento, os dados relativos ao emprego em 2020 já estão disponíveis e mostram que a diferença da perda de postos de trabalho entre as pessoas mais e menos qualificadas está relacionada com o impacto económico da Pandemia provocada pelo novo coronavírus. Segundo o Investigador, o alcance da recessão económica em 2020 ampliou a iniquidade dos rendimentos dentro dos países.

Ricos e pobres

A disseminação do vírus SARS CoV-2 além de ter provocado a morte de mais de 3 milhões de pessoas, resultou na mais profunda contração económica desde a Segunda Guerra Mundial. Em dados apresentados pelo estudo, estima-se que a Pandemia vá empurrar entre 143 a 163 milhões de pessoas abaixo do limiar de pobreza ($1.9 por dia) entre 2019 e 2021, revertendo assim primeira vez na história de uma geração a tendência de queda da pobreza global. O aumento da pobreza extrema amplifica a lacuna entre ricos e pobres e as desigualdades dentro dos países.

Dado o impacto desproporcional da Pandemia, esta veio afetar primeiramente grupos mais vulneráveis, como as mulheres, trabalhadores imigrantes e trabalhadores com baixas qualificações. Uma vez que os rendimentos médios são mais baixos nos setores mais afetados (alojamento, comércio, restauração), em comparação com os setores mais qualificados (tecnologia, financeiro), esta divergência irá aumentar a desigualdade dentro dos países.

Para além dos trabalhadores com baixos níveis de escolaridade terem sofrido uma maior taxa de desemprego e apresentar um nível de rendimento mais baixo, não possuem as mesmas capacidades para o teletrabalho do que as pessoas com formação mais elevada. Esta cisão entre as pessoas de formação mais básica e superior é também visível na União Europeia, onde os governos implementaram programas extensivos de proteção ao emprego, fazendo aumentar a diferença entre os ricos e os pobres.

A história das Pandemias e recessões

Alguns trabalhos anteriores já tentaram estimar o impacto das Pandemias nas desigualdades de rendimento nos países, nomeadamente em cinco crises pandémicas: SARS em 2003, H1N1 (gripe A/suína) em 2009, MERS em 2012, Ébola em 2014 e Zika em 2016. Apesar de não se terem incluídos outros fatores como o agravamento da crise financeira global após o colapso da corretora Lehman Brothers em setembro de 2008, o ano de 2009 acabou por ser o mais severo no cenário económico global. É pouco provável que nesse ano, como consequência da gripe suína, os EUA tenham sofrido uma maior contração do PIB do que a média global.

Não considerando o ano de 2009 e respetiva Pandemia causada pela gripe A, certo é que a crise de 2020 foi, em todas as contas, muito mais grave do que qualquer uma das outras quatro epidemias anteriores e torna-se, portanto, questionável se os resultados dessas epidemias anteriores seriam relevantes para a Pandemia atual. As recessões tendem a ter impactos adversos divergentes, com as pessoas mais pobres a sofrer mais perdas de rendimento do que os ricos.

Como exemplo, nos Estados Unidos da América, o impacto das recessões ao longo de cinco décadas não foi uniforme em todos os grupos demográficos, tendo sido mais sentido por homens, trabalhadores negros e hispânicos, jovens e trabalhadores com baixo nível de escolaridade. Durante a Grande Recessão, que ocorreu entre 2007 e 2009 após o estouro da bolha imobiliária dos EUA e uma crise financeira global, os mais desfavorecidos foram os mais afetados. Com base em pesquisas realizadas em março e abril de 2020 nos EUA, Reino Unido e Alemanha, concluiu-se que os impactos da Pandemia foram profundamente desiguais e exacerbaram as desigualdades existentes dentro dos países. Assim, quanto mais profunda for a recessão, maior será o seu impacto na ampliação das desigualdades de rendimento.

Os governos costumam responder às recessões com medidas fiscais e tal aconteceu em 2020, quando em vários países a recessão extraordinariamente profunda foi seguida por respostas fiscais extraordinariamente amplas. Relativamente ao mercado de trabalho, houve uma atenuação do impacto agregado da crise pandémica devido à adoção em larga escala de programas de proteção de emprego, na maioria dos países desenvolvidos.

No entanto, mesmo na Europa, o impacto do PIB está associado a um diferencial entre os trabalhadores com diferentes níveis de escolaridade. Quanto mais negativo for a queda do PIB, maior a diferença na mudança de emprego entre trabalhadores com diferenciados graus de escolaridade. Segundo o Investigador, a correlação negativa entre uma maior queda do PIB e maior impacto sobre os que têm um nível mais baixo de escolaridade, sugere que na Europa as alterações do PIB e as desigualdades do rendimento estão ligadas, apesar dos programas de proteção do emprego.

Quem mais sofre são os mais pobres

As conclusões do estudo que usou dados relativos a 49 países emergentes e desenvolvidos, mostram que em 2020 a diferença entre a perda de empregos sentida pelos trabalhadores mais ricos e com elevado grau de escolaridade e os trabalhadores mais pobres com baixa escolaridade está correlacionada com o choque económico, sugerindo uma ligação entre a profundidade da recessão económica e o aumento das desigualdades de rendimento dentro do país.

A recessão provocada pelo COVID-19 teve algumas características específicas, como políticas de saúde discutíveis, a importância do teletrabalho e as diferenças nas capacidades à sua adesão e o impacto diferenciado nos setores da economia. Tal constatação faz concluir que os impactos negativos e desiguais em 2020 foram maiores do que nas anteriores recessões.

O facto de já se terem vivido outras crises, cria um padrão histórico de recessões que aponta para o aumento das desigualdades de rendimento. Houve fatores atenuantes desse aumento como as quedas do PIB em países mais ricos e avançados terem sido maiores do que em países pobres e em vias de desenvolvimento. O crescimento positivo do PIB da China sugere que a desigualdade do nível de rendimento dentro do país mais populoso do mundo não sofreu grandes alterações em 2020.

Em contrapartida, é bastante provável que tenha havido um aumento significativo dessas desigualdades de rendimento dentro da União Europeia, revertendo o movimento que se tinha vindo a observar desde os últimos anos.

Arquivado em:COVID-19, Notícias, Sociedade

45 ºC no Círculo Polar Ártico?

27 Abril, 2021 by Titiana Barroso

Sim, aconteceu a 19 de junho de 2020…! A população de animais selvagens diminuiu 68% entre 1970 e 2016 a nível mundial (94% na América do Sul). A desflorestação da Amazónia acontece ao ritmo de três campos de futebol por minuto. Segundo o Banco Mundial, a produção de lixo poderá aumentar 70% até 2050. Segundo as Nações Unidas, a população mundial aumenta 1,5 milhões de pessoas por semana.

Chega para percebermos a urgência ambiental do Planeta? Chega, claro! No dia e no local onde provavelmente a maior parte de nós está a ler este artigo, já estamos todos despertos para esta urgência. Já reciclamos lixo em casa, procuramos a mobilidade elétrica e ensinamos hábitos de “bom comportamento ambiental” aos nossos filhos. A má notícia é que isso não chega… É preciso uma mobilização global da sociedade e uma transformação profunda dos fundamentos do modelo económico e social que nos trouxe até aqui: o capitalismo ocidental vigente no pós 2.ª Guerra Mundial.

Mas há também boas notícias! Uma boa notícia é que a mudança de comportamento dos consumidores está a colocar uma enorme pressão nos políticos e nas empresas. A incapacidade global dos estados de resolver estes desafios tem gerado uma pressão maior para que as empresas desempenhem um papel cada vez mais relevante na sociedade à sua volta. Inclusão social, ética e moral, responsabilidade ambiental, mobilidade, melhor distribuição de riqueza, educação, assistência à saúde, diversidade cultural. Estas são a exigências do “caderno de encargos” que a sociedade está a entregar às empresas.

E o nosso dia-a-dia atarefado ainda aguenta com mais esta missão? Utilizando uma frase que ficou famosa, “Ai aguenta, aguenta…” Por que não aguentar, se não tivermos um propósito para além dos números, as nossas organizações vão ficar obsoletas. E ninguém quer ser obsoleto, pois não? Porque isso tem um impacto enorme nas nossas vidas, nas dos nossos colaboradores, nas nossas famílias e em toda a rede que tocamos.

Estamos na era das purpose driven organizations, movidas por uma consciência mais global do seu papel no mundo e empurradas pela pressão dos novos consumidores. Organizações em que o triple bottom line (lucro, pessoas e sustentabilidade) passou a ser a sua métrica de sucesso. A outra boa notícia é que há três revoluções a acontecer no mundo: a revolução Digital, a transição Energética e a revolução da Sustentabilidade. Necessidade, engenho e… meios. Tudo junto!

Nunca a Humanidade teve tantas ferramentas à sua disposição para transformar o mundo. Aquilo a que chamamos de economia digital é a maior caixa de ferramentas que já alguma vez tivemos para transformar a nossa relação com o Planeta. Inteligência artificial, IoT, cloud, e-commerce, realidade virtual, 5G (entre outros) têm um potencial inimaginável de aumento da eficiência global, promoção da economia circular e redução da pegada de carbono.

Estamos a chegar ao ponto de viragem em que a Tecnologia nos permite, não só reduzir o impacto ambiental das atividades económicas, como até revertê-lo. E de forma economicamente lucrativa!

A Economia que “cura” o Ambiente é, na minha opinião, a chave para combater a urgência climática. Não é por acaso que o Green Deal Europeu foi apontado como um dos motores da recuperação económica da Europa. Ainda bem que cuidar do Ambiente já é um bom negócio!


Por Pedro Faustino, Managing Director na Axians Portugal

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Moçambique: o terror e a riqueza de um país debaixo do olhar internacional

27 Abril, 2021 by Titiana Barroso

Os atos de terrorismo no norte de Moçambique já contam com quase 4 anos de um role de violência, massacres e flagelo sobre civis, num movimento de insurreição que agora chama a atenção dos organismos internacionais. Já são mais de 700 mil deslocados e cerca de 2500 mortos numa crise humanitária -despoletada em 2017, aquando o primeiro ataque sobre as forças policiais na vila de Mocímboa da Praia. Segundo Nuno Rogeiro, autor do livro Cabo do Medo, o ponto de viragem dá-se em 2019, no início do nosso verão, quando os jovens moçambicanos do Al Shabaab fizeram o seu ato de lealdade ao Daesh.

A partir de então, a violência passa a ser sobretudo sobre civis, com execuções e decapitações em aldeias remotas ao norte de Pemba, espalhando o terror e o medo pelas populações e originando os primeiros movimentos de refugiados. Nessa altura, o Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, declara estar a ser invadido por “forças exteriores”.

O ano 2019 também marcou esta região de Moçambique, quando num espaço de seis semanas dois furacões – Idai e Kenneth, este de categoria 4, com rajadas de ventos e chuvas severas, atingiram entre março e abril os distritos de Palma, Mocímboa da Praia e Pemba, deixando um rasto de destruição, mortes e desalojados.

Uma terra massacrada pelas forças da natureza e do terrorismo que ao mesmo tempo é lugar do maior projeto de exploração de gás natural em África, com um investimento privado de cerca de 17,5 mil milhões euros.

Paralelamente à entrada de capital estrangeiro em território nacional, a escalada dos movimentos rebeldes filiados do ISIS vai crescendo no início de 2021, com a organização Save the Children a relatar decapitações de crianças e violações de mulheres. O pico atinge-se a 24 de março, quando a vila de Palma é tomada por rebeldes armados, de onde resulta um cidadão português gravemente ferido entre cerca de 200 pessoas que se refugiaram num hotel da cidade. Por vários dias os insurgentes ocuparam a zona, naquele que foi o ataque mais grave junto aos projetos de gás natural, enquanto as forças militares moçambicanas tentavam evacuar a vila e também a zona dos projetos na península de Afungi. Estes ataques geraram uma onda de milhares de refugiados que procuraram a cidade de Pemba como porto de abrigo, com a chegada regular de barcos que ainda hoje transportam aqueles que tentam fugir de uma zona de guerra.

No seguimento destes eventos, a petrolífera francesa Total que lidera o consórcio de exploração, começa a retirada dos seus colaboradores, sendo que segundo a Agência Lusa, anunciou na semana passada estar a cancelar contratos com empreiteiros e fornecedores locais, o que pode significar uma paragem do projeto por tempo indeterminado.

Em conferência de imprensa a 20 de Abril, o Presidente da Confederação das Associações Económicas de Moçambique, Agostinho Vuma, recordou os dados que já havia avançado: 410 empresas fecharam e 56 mil empregos desapareceram nos distritos afetados, registando-se 80 milhões de euros de impacto (destruições, atrasos de pagamentos e mercadorias em trânsito sem certeza da entrega).

A questão da intervenção estrangeira

Desde o início deste movimento de massacre e violência que o governo moçambicano optou por uma posição de “resistência” a uma intervenção militar estrangeira que controlasse a situação e colocasse um ponto final ao clima de medo e terror.

Os ataques à vila de Palma vieram aumentar a pressão sobre essa urgente intervenção para que Moçambique aceitasse ajuda da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) e das forças do Ocidente. Segundo o site de informação Aljazeera, no início de março, a Amnistia Internacional acusou os combatentes e as forças de segurança de Moçambique, bem como uma empresa militar privada sul-africana contratada pelo governo, de crimes de guerra contra civis, incluindo execuções extrajudiciais e atos de tortura.

O governo de Moçambique é muito sensível em relação à sua soberania e quer manter o controlo e o comando de quaisquer intervenções, sejam militares ou humanitárias. Especialistas internacionais já têm vindo a mostrar a sua preocupação com o facto de as forças de segurança de Moçambique estarem mal equipadas para responder à terrível crise, cuja génese e perpetuação permanece obscura. O site afirma ainda que tal possa estar relacionado com o facto de uma parte da população local ainda não ter visto os benefícios da exploração dos recursos naturais da região, bem como disputas entre as elites locais e uma rede de tráfico de droga  – a região de Palma e Mocímboa da praia são o epicentro do narcotráfico regional, portas de entrada em África das rotas de heroína e ópio oriundos da Ásia.

No final de março, o Ministério dos Negócios Estrangeiros confirmava o envio de uma equipa de 60 militares para ações de formação com as Forças Armadas moçambicanas, num plano bilateral de cooperação com Moçambique. Contudo, quanto ao envio de tropas para o terreno, para ajudar Moçambique a travar a ameaça jihadista em Cabo Delgado, isso só poderia ser considerado se houvesse um pedido das autoridades moçambicanas.

Até que ponto o governo moçambicano irá resistir, sem pedir ajuda internacional? Vozes críticas às políticas de Maputo dizem que parte dessa razão é para que não exista um olhar exterior sobre a rede de narcotráfico que está ligada a interesses poderosos. O facto de o governo moçambicano ter sublinhado a dimensão externa do conflito, pode ser, segundo o site Aljazeera, uma forma de desviar qualquer culpa pelo descontentamento da região e a má gestão da resposta em termos de forças de segurança. No entanto, deixar a luta totalmente para Moçambique, sem meios efetivos de gestão deste conflito, não parece ser a opção.

Desde junho de 2020, que as autoridades moçambicanas referem-se abertamente à violência como “terrorismo”, a que antes chamavam “banditismo criminoso”. Nesse mesmo ano, mas uns meses antes, os EUA designaram o chamado Estado Islâmico do Iraque e Síria-Moçambique (ISIS-Moçambique) como uma “organização terrorista estrangeira” o que, segundo os analistas, serviu para que Moçambique fosse reforçando a sua narrativa de este ser um conflito fomentado externamente, escusando-se a procurar a génese e combater o problema no seu próprio território. Os mesmos especialistas referem que um foco contínuo numa campanha militar às custas de programas sociais e económicos para a promoção de um maior desenvolvimento e estabilidade, irá provavelmente prolongar o conflito.

Por Rita Saldanha

Arquivado em:África, Artigos, Moçambique

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