Se vamos todos morrer, porque é tão difícil enfrentar essa inevitabilidade? Procuro aqui trazer algumas reflexões que espero que abram espaço para mais considerações. Como narramos a vulnerabilidade e a morte, individualmente e coletivamente? Como é que a sociedade aborda estas questões (sistema educativo, social, político, de saúde)? Ao refletirmos sobre o imaginário coletivo, sobre […]
Se vamos todos morrer, porque é tão difícil enfrentar essa inevitabilidade? Procuro aqui trazer algumas reflexões que espero que abram espaço para mais considerações. Como narramos a vulnerabilidade e a morte, individualmente e coletivamente? Como é que a sociedade aborda estas questões (sistema educativo, social, político, de saúde)? Ao refletirmos sobre o imaginário coletivo, sobre a forma como abordamos estes assuntos, podemos observar que não são temas confortáveis e têm uma representação associada a muito sofrimento e medo. Podemos começar, a partir da observação do desconforto, a entender o que está presente “debaixo do icebergue” no nosso inconsciente e que nos pode ajudar a trazer à luz da consciência algumas ideias sobre como podemos ressignificar e aproximar-nos da nossa vida de forma mais serena.
A Morte faz parte da Vida. A Morte gera Vida
O psiquiatra e psicoterapeuta Carl Jung definiu ‘arquétipo’ como um conjunto de imagens primordiais oriundas da repetição sucessiva de uma mesma experiência, armazenadas no inconsciente coletivo. São conteúdos esquecidos ou reprimidos da consciência. De acordo com Jung, podemos observar que para os povos nativos originários todos os acontecimentos mitológicos da natureza, como as estações do ano, não são apenas experiências subjetivas, mas expressões simbólicas das suas questões internas e inconscientes da alma, que a consciência humana vê espelhada nos fenómenos da Natureza. Todos nós fazemos parte das estações do ano. Elas vivem em nós. Invernos e outonos incluídos.
Contudo, temo-nos vindo a afastar progressivamente da nossa natureza intrínseca, do Corpo onde tudo vive, e isso tem repercussões. Estamos incluídos no Corpo da Vida mas achamos que somos superiores. Somos com o movimento da Vida.
Porque é tão importante abordar a morte simbólica, para além da fisiológica (existem sinais e sintomas naturais que também esquecemos) e da espiritual e cosmológica (também ela fundamental)? Porque ela eclode do inconsciente, invadindo a consciência e a vida pessoal, quer por meio de sonhos, emoções e ações. Interfere com quem somos, a nossa essência profunda. Interfere com a forma como contribuímos para o mundo. O coletivo não se separa do individual. O inconsciente coletivo influencia o indivíduo.
Como imaginamos a morte?
Como a nossa psique a aborda?
Que histórias, imagens, símbolos, palavras, expressões usamos para narrar a vulnerabilidade, as fases de mudanças da nossa vida – a morte? Como é que o nosso corpo sente quando abordamos estes temas? Caveiras, escuridão, sofrimento, dor, foice, violência, são normoticamente símbolos que maioritariamente associamos a esta fase da nossa vida. A forma como interpretamos e imaginamos pode inibir os neuro transmissores de felicidade.
Não podemos mudar um arquétipo. O arquétipo até evolui, mas não é possível mudar a sua essência. Também não podemos falar do arquétipo de morte sem o associar à vida. Eles são um mesmo arquétipo.
A morte significa o fim de um ciclo, mudança, transformação, renovação, o início de um novo ciclo. Significa um mergulho no desconhecido e é claro que isso pode gerar em nós medo e angústia. Estar no não saber. O nosso cérebro não quer a morte, o nosso ego não quer deixar de existir. Resiste às mudanças. Mas podemos ressignificar o arquétipo, a forma como olhamos para ele.
Porque associamos a foice à morte? Porque não uma espada ou faca? A foice simboliza a transformação e o renascimento. Tem a forma de uma lua nova ou, diria, lua crescente. Remete para a simbologia da lavoura, o plantar e o colher.
A morte não vem para ceifar a vida. Vem para que haja renovação.
Ressurreição.
Mas qualquer chamada da vida para a transformação, para poder fazer as descidas ao interior da nossa psique. Para caminharmos as nossas transformações, largar a nossa pele, já muitas vezes desabitada pela alma e à qual ainda nos agarramos por ser o que conhecemos, precisamos de nos sentir seguros. Precisamos de abrandar, encontramo-nos vulneráveis, e não há forma de o fazer sem sentirmos que temos colo, chão seguro. Qualquer animal selvagem sabe intuitivamente como o fazer. E em nós também habita este espaço, muitas vezes ignorado e com uma carga de iliteracia imensa.
Um sistema nervoso ativado no seu simpático e parassimpático dorsal quer fugir, lutar, dissociar, congelar. Ser «placenta continente para a criação de ambientes seguros, de presença e escuta ativa, para fazer travessias por entre territórios de desesperança, medo, lutos, ansiedade, e todos os convites que a vida nos traz, sustentando estas travessias com a nossa presença» (citando Cecília Lauriano), é fundamental.
É natural sentir. Medo, angústia, frustração, ansiedade, tristeza, alegria, e todo o arco-íris emocional. Aprender a ser “panela”, para nós mesmos e para os outros, que consegue conter todos os grãos de um pacote de arroz de emoções, sem transbordar, é caminho de vida.
Assim, é importantíssimo que as pessoas que estão ao nosso lado em momentos difíceis, sejam familiares, amigos, profissionais de saúde, criem um espaço de escuta, compreensão, presença, acolhimento do que somos e sentimos, sem julgamento, em segurança.
Homeopaticamente, conhecendo as vozes e memórias do nosso corpo, as nossas dores, os nossos medos, podemos abrir espaço para a ressignificação e ressurreição de uma maior ligação à Vida como um Todo e onde a Morte é semente.
Este artigo foi publicado na edição nº 30 da revista Líder, cujo tema é ‘Enfrentar’. Subscreva a Revista Líder aqui.


