Era muito frequente ouvir-se a expressão lá na Europa, como se Portugal fosse uma entidade marginal, não pertencesse a este continente, a jangada de pedra de Saramago à deriva no Atlântico. Se isso é reflexo de séculos de costas voltas para o continente e aberto ao mar, ou os Pirenéus continuam a manter uma barreira […]
Era muito frequente ouvir-se a expressão lá na Europa, como se Portugal fosse uma entidade marginal, não pertencesse a este continente, a jangada de pedra de Saramago à deriva no Atlântico. Se isso é reflexo de séculos de costas voltas para o continente e aberto ao mar, ou os Pirenéus continuam a manter uma barreira psicológica, para além de física, o certo é que os portugueses nunca tiveram uma política de cidadania ativa a pensar na Europa.
Esta só serve para emprestar dinheiro ou, para os mais queixosos, “mandar em Portugal” quando se trata de impor limites, seja em quotas de pesca, seja questões de défice. Por isso as campanhas para as eleições ao Parlamento Europeu acabem por trazer os tópicos da política interna, as quezílias partidárias e os novos dramas do parlamento nacional para a estrada, mais do que o debate sobre os problemas que se tratam lá em Bruxelas.
Dito isto, talvez fosse verdadeiramente importante educar o povo português sobre a relevância destas eleições, o que implicam e o que se decide antes das duas semanas de campanha e dos debates, que quase ninguém acompanha. Um trabalho de cidadania prévia, de forma a verem na plenitude o que está, de facto, em causa quando se fala de migração, financiamentos, objetivos climáticos, exército europeu, guerra iminente, regras orçamentais. Ter consciência europeia não nos torna menos portugueses.
Quiçá torna-nos, sim, portugueses conscientes do nosso potencial, capacidades e necessidades. Se os candidatos se preocupassem mais com isto do que em atacarem-se, ganharíamos todos mais.

