Elon Musk, o magnata que lidera empresas como a Tesla, a SpaceX e, agora, a rede social Twitter, fascina milhões de fãs. O deslumbramento é fruto do vigor empreendedor e disruptivo do homem mais rico do mundo. Embora não seja apropriado subestimar essas qualidades, também não devemos fechar os olhos ao lado negro do personagem. […]
Elon Musk, o magnata que lidera empresas como a Tesla, a SpaceX e, agora, a rede social Twitter, fascina milhões de fãs. O deslumbramento é fruto do vigor empreendedor e disruptivo do homem mais rico do mundo. Embora não seja apropriado subestimar essas qualidades, também não devemos fechar os olhos ao lado negro do personagem.
Paul Krugman, vencedor do Nobel de Economia em 2008, apelidou Musk e outros titãs como Jeff Bezos e Larry Ellison de “plutocratas perigosos”, devido à forma como procuram manobrar a decisão política em seu favor. Escreveu Krugman que esses titãs “são diferentes de si e de mim: estão normalmente rodeados de pessoas que lhes dizem o que eles querem ouvir”. O perigo de passarem a viver numa bolha, significativamente desligados de parte da realidade é, pois, notório. O caso de Musk é paradigmático.
Musk atua como se as regras a que deve obedecer o cidadão comum não se lhe aplicassem. Apregoa proteger a liberdade de expressão e, com esse argumento, readmitiu Trump na rede social Twitter. Mas lida menos bem com a liberdade exercida pelos seus empregados, quando esta lhe causa estorvo. Tem-lhe sido apontada a propensão para gerir pelo medo. O despedimento brutal de milhares de empregados da rede social Twitter através de email – alguns dos quais tentou recontratar, alegando que houvera engano – é emblemática. Também ilustrativa foi a forma como reagiu a uma carta aberta que os empregados da SpaceX lhe dirigiram, a propósito da sua torrente de mensagens no Twitter. Na carta era-lhe pedido que deixasse de revelar o comportamento embaraçoso e distrativo que, alegadamente, estaria a causar perturbação na empresa. Musk despediu, de imediato, alguns empregados.
Alguns fãs de Musk argumentam que este tipo de liderança, com pendor quase divino, mas com alguns traços pouco recomendáveis, é o custo a pagar para fruir da capacidade disruptiva deste tipo de personalidades. Tenho sérias dúvidas. Compro mais facilmente a tese de que Musk tem sido bem-sucedido apesar do seu lado mais sombrio. Ademais, os fins não justificam todos os meios. A decência tem valor intrínseco. Por último, há alguns indícios de que o “método” de Musk pode não funcionar na sua nova aquisição. Admitamos, até, que o pendor visionário, desafiador, persuasivo, obsessivo, carismático, rude e autocrático de Musk tem energizado a audácia vanguardista dos seus empreendimentos, assim como o entusiasmo das pessoas que o têm seguido nessa direção. Mas as competências necessárias para liderar uma empresa já estabelecida, como a rede social Twitter, são de outra natureza. Quando uma figura como Musk irrompe na empresa armado de uma filosofia de gestão que colide com a cultura da mesma, a resposta aversiva é provável. A energia motivacional de pessoas chave decresce. Algumas das mais talentosas abandonam a organização. Consigo levam competências técnicas, mas também o conhecimento tácito – o que emerge dos relacionamentos desenvolvidos no seio das equipas ao longo de anos. Embora as competências técnicas possam ser readquiridas através de novas contratações, o desenvolvimento do conhecimento tácito e do espírito agregador requer esforço e tempo.
Estas particularidades podem ajudar a explicar as dificuldades que o disruptivo Musk tem enfrentado na “sua” Twitter. Vivek Wadhwa – académico, empreendedor e autor – afirmou que liderar uma empresa estabelecida requer “um conjunto de competências completamente diferente. Maturidade, calma, capacidade de escruta, criação de consenso”. Na sua perspetiva, Musk, além de não ser dotado deste perfil, terá desenvolvido a húbris – o poder ter-lhe-á subido à cabeça: “Esse é o problema de Elon agora. Ele assume que as competências da Tesla podem ser transportadas para o Twitter. Não podem. Ele está completamente fora desse domínio. Esta vai a ser a sua batalha de Waterloo. (…) ´É-se bem-sucedido. Se se estiver em Silicon Valley, começa-se a ficar envolto em grande e intensiva publicidade. Os outros começam a ver-nos como Deus, e começamos a acreditar na nossa própria imprensa. Contraímos o complexo de Deus”.
A batalha de Waterloo foi, para Napoleão, o selo da sua queda. Deslumbrou-se com tantas vitórias que, quando começou a ser derrotado, manteve a toada grandiosa. Naturalmente, ninguém sabe o que ocorrerá a Musk e ao Twitter. Depois desta tempestade, pode mesmo chegar a bonança para a empresa – e muitos se vergarão perante o ídolo. Mas, mesmo que isso venha a acontecer, convém que sejamos mais críticos perante os mitos ainda vivos, sob pena de validarmos o que é moralmente questionável.
