Está em exibição uma interessante série televisiva, O problema dos três corpos, baseado na obra de Liu Cixin, editada em Portugal pela Relógio d’Água. Ora, por cá a legislatura começa sob o problema dos três blocos. Esta é uma proposta do presidente do Livre, Rui Tavares, segundo o qual temos agora três blocos: a esquerda, […]
Está em exibição uma interessante série televisiva, O problema dos três corpos, baseado na obra de Liu Cixin, editada em Portugal pela Relógio d’Água. Ora, por cá a legislatura começa sob o problema dos três blocos. Esta é uma proposta do presidente do Livre, Rui Tavares, segundo o qual temos agora três blocos: a esquerda, a direita democrática e a extrema-direita.
O curioso nesta formulação é, mais uma vez, a assunção da bondade intrínseca da esquerda. Para a esquerda não há extrema-esquerda: só há esquerda, por definição bem-intencionada, intrinsecamente pura, civilizada e progressista. Esta é a mesma esquerda que compreende Putin, alegadamente atacado pela NATO; que louva Estaline, o vencedor do nazismo; que ignora Pol Pot e os seus tenebrosos killing fields; que acha a China/PCC um aliado. O problema dos três blocos é que eles são quatro, como os três mosqueteiros. É que a extrema-esquerda existe: compreende Putin, é contra a UE, contra a NATO, contra o euro, contra o capitalismo, contra Israel mas a favor do Hamas. Vemo-la, ouvimo-la e lemo-la todos os dias. Como podemos ignorá-la?
A extrema-direita, concordo, é um problema. A extrema-esquerda também. E voltamos a começar a legislatura a falar do Chega. Já aqui o escrevi: chega de Chega. Se os políticos (dos partidos, dos sindicatos) não pararem de falar de ideologia em vez de se focarem nos problemas das pessoas, continuarão a adubar o Chega. Mitiguemos os problemas das pessoas e o problema dos extremos resolve-se.
PS Depois dos jogos florais a propósito da eleição do presidente da Assembleia da República, foi encontrada uma solução. Creio que boa. Se o novo presidente da AE fizer o seu papel em vez de fazer política, já teremos ficado a ganhar.
PS2 Mas os jogos florais continuaram com a tomada de posse e a ausência do bloco da esquerda. É o que se tornou a nossa política: uma permanente guerra polarizadora sem qualquer sentido institucional. São os extremos a tocar-se: falta de sentido institucional à direita e falta de sentido institucional à esquerda. É assim que se normaliza o Chega enquanto se grita contra ele.
