Tornar a saúde mental, ou a falta dela, um tema central da sociedade, fazer cada um de nós um “agente” atento aos sinais, ligado ao que estamos a sentir e a saber como reagir e prevenir. Falar das novas abordagens à saúde mental e ao seu tratamento como um tema aberto, acessível e, idealmente, personalizado. […]
Tornar a saúde mental, ou a falta dela, um tema central da sociedade, fazer cada um de nós um “agente” atento aos sinais, ligado ao que estamos a sentir e a saber como reagir e prevenir. Falar das novas abordagens à saúde mental e ao seu tratamento como um tema aberto, acessível e, idealmente, personalizado.
Esta foi a base para uma conversa entre Sandro Resende, fundador do projeto e galeria de arte “Manicómio”, e Pedro Morgado, Psiquiatra, Professor e Investigador na Escola de Medicina da Universidade do Minho, na sessão “Tune your mind”, durante o evento “Building the Future”.

Em 2019, Sandro Resende criou o projeto “Manicómio”, no Beato, em Lisboa, no seguimento de um percurso de vários anos a dar aulas de artes plásticas a doentes do Hospital Júlio de Matos, e a dirigir artistas com perturbações mentais. Objetivo: desmistificar o estigma associado à doença mental, incentivar a empregabilidade dos doentes e promover a sua inclusão social.
Apesar da maior consciencialização, existem certas palavras com as quais ainda mantemos relações difíceis, como é o caso de “manicómio”. “Aprendi que o manicómio não é uma coisa necessariamente negativa, mas é uma palavra que me assusta por causa desse imaginário negativo”, admitiu Pedro Morgado, apontando o projeto artístico como o sinal da necessária evolução para cuidados de saúde mental na comunidade, em que as pessoas se trabalham e são trabalhadas, especificamente dentro das suas casas. Na sua perspetiva, tal adesão a este tipo de iniciativas irá resultar numa diminuição de manicómios ou centros onde pessoas com doenças mentais habitam.
Sandro Resende partilhou que as experiências no Hospital Psiquiátrico Júlio de Matos eram de uma “liberdade total”, e foram a inspiração do seu projeto “É um sítio onde não há filtros, onde podes ser quem és, sem problemas sociais, e o Manicómio vem um bocadinho daqui, da vontade de poder ser”.
Nesse sentido, e por acreditar que a medicina deve, também ela, ser um espaço de liberdade, Pedro Morgado defende que a formação médica deve incluir o desenvolvimento de competências de relação interpessoal “onde os médicos conseguem, no espaço de consulta, que os outros sejam autênticos, que se sintam bem, que possam ser verdadeiros, que possam partilhar as suas angústias”.
Tornar a saúde mental mais acessível e personalizada é também uma forma de promover bons hábitos. Sandro Resende apresentou as “consultas sem parede”, onde a própria pessoa pode escolher o local da consulta, e cujos resultados se têm demonstrado positivos “Começámos apenas com dois médicos, e neste momento são onze”, apontando que os preços acessíveis e o estar longe de um ambiente com um peso hospitalar, fazem com que o doente se sinta mais à vontade e mais disposto a falar na consulta.
Como se manifesta a deterioração da saúde mental? O psiquiatra alertou que os quadros vão da sensação de maior preocupação do que o habitual com assuntos triviais, ao dormir pior, à falta de apetite ou descontrolo, aos pensamentos negativos, choro, ao quando se acha não conseguir dar vazão a todo o trabalho que se tem para fazer e antes se conseguia. Adicionando à deterioração das relações pessoais e somando ao restante, pode significar a entrada de um processo que pode ser patológico, indicando ser necessário procurar ajuda.
Promover a saúde mental passa, também, pelo trabalho. Sandro Resende afirmou que muitas empresas com quem trabalha não possuem técnicos de saúde nos Recursos Humanos, e defendeu ser fundamental a inserção de técnicos que “saibam ouvir e que tenham ferramentas para trabalhar isso”.
Numa nota final, o psiquiatra afirma que o ganho económico das empresas não é tudo o que importa: “Há uma responsabilidade social, uma questão de direitos humanos, que todos temos de considerar”, e para isso, falta desconstruir narrativas sociais tóxicas relacionadas com a pobreza, os papéis de género, as questões da discriminação e sexualidade, que tornam as pessoas mais vulneráveis às doenças psiquiátricas. Promover e normalizar a saúde mental tem de passar por todos, e em todos os campos da sociedade.


