Por alturas do início do ano escolar, o Público inquiriu um conjunto de professores que haviam interrompido a docência, e que foram agora recolocados, sobre as diferenças que encontraram passado um intervalo na atividade. Sem surpresa, foram mencionados dois aspetos: menos respeito e mais burocracia. Na mesma altura, Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa, […]
Por alturas do início do ano escolar, o Público inquiriu um conjunto de professores que haviam interrompido a docência, e que foram agora recolocados, sobre as diferenças que encontraram passado um intervalo na atividade. Sem surpresa, foram mencionados dois aspetos: menos respeito e mais burocracia. Na mesma altura, Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa, explicava no Leadership Summit cá da casa, que se na Terra temos regulação a mais, no Espaço há regulação a menos.
Nas nossas sociedades contemporâneas temos uma tendência para o controlo e por isso para a construção de regras. Mas as regras e o controlo não resolvem os problemas. A este propósito, recordo sempre uma magnífica passagem de um livro de Garcia Márquez, Em viagem pela Europa de Leste, em que descreve uma festa na antiga RDA. Tudo era tão regulado que, escreveu, o evento era a coisa mais parecida com o caos que era possível imaginar. Por cá, para aí caminhamos: empanturramos professores, polícias, médicos e outros com papelada. Por vezes, parece que até se pode fazer mal o trabalho desde que os papéis estejam corretamente preenchidos.
Ou seja, simplificar é preciso. Aprendamos com Will Schutz que em 1979 publicou Profound Simplicity. Aí, defendia que a nossa compreensão passa por três fases: simplismo, complexidade e simplicidade profunda. Esta última é a fase mais rica, em que não nos enredamos na tentativa de querer controlar tudo nem queremos compreender os detalhes. A simplicidade profunda consiste numa aproximação à essência das coisas. Como prosaicamente avisava um slogan de uma saudosa estação de rádio, simplificar consiste em discernir a obra-prima do mestre da prima do mestre de obras. Em Portugal, aquilo que Geert Hofstede identificou como elevada necessidade de evitamento da incerteza, leva-nos à propensão para regulamentar, controlar, burocratizar, formalizar. Quanto mais melhor, eis o pressuposto. Ao contrário: descompliquemos!
Enquanto isso não acontece procuremos a beleza nas coisas simples: num haiku, numa natureza morta, nas Variações Goldberg. Ou, na liderança, num livro como Simple Rules, de Sull e Eisenhardt, ou nos textos deste número da Líder. Pratiquemos. E haja esperança.
Este artigo foi publicado na edição nº 32 da revista Líder, cujo tema é ‘Simplificar’. Subscreva a Revista Líder aqui.

