A propósito da guerra em Israel, a palavra ‘genocídio’ tem aparecido nas discussões com alguma frequência. A ideia é que Israel estará a conduzir um genocídio do povo palestiniano. Convém ter alguma cautela, mas é sabido que na política certas palavras são usadas de forma puramente instrumental, para diminuir o adversário. Todavia, repito, convém usar […]
A propósito da guerra em Israel, a palavra ‘genocídio’ tem aparecido nas discussões com alguma frequência. A ideia é que Israel estará a conduzir um genocídio do povo palestiniano. Convém ter alguma cautela, mas é sabido que na política certas palavras são usadas de forma puramente instrumental, para diminuir o adversário. Todavia, repito, convém usar as palavras de forma rigorosa. A situação em Israel é de guerra, não um genocídio. E isto não é diminuir de forma alguma os horrores da guerra. Eles existem e são visíveis todos os dias, infelizmente em muitas partes do mundo.

O genocídio é outra coisa. Trata-se da tentativa sistemática de exterminar um grupo específico. Os judeus foram vítimas de um genocídio, o Holocausto. No Camboja dos Khmer Vermelhos, as classes “burguesas” também. No Ruanda os Tutsis foram chacinados pelos Hutus (na foto, o memorial do genocídio, em Kigali). Daniel Goldhagen escreveu sobre este tema um livro fundamental, A Pior das Guerras, na tradução portuguesa. O título original é mais esclarecedor: Worse Than War, pior que a guerra.
De novo, não se trata de relativizar os horrores da guerra. As guerras mostram os humanos no seu pior. Mas, em princípio, devem ser apesar de tudo respeitadoras das leis da guerra. Por isso ficamos chocados quando essas leis são violadas e alvos civis são atacados. Pior que a guerra, na formulação de Goldhagen, apenas o genocídio, em que vizinhos matam vizinhos, alunos matam professores, amigos matam amigos em nome de uma categoria que subitamente adquiriu importância total. O abuso desta palavra arrisca-se a relativizar o mais horrível dos crimes.

