Para perceber a acessibilidade é importante experimentar a inacessibilidade por um momento. Desligue o monitor do computador e comece a digitar, utilize o telemóvel sem conseguir vê-lo, desconecte o rato e tente navegar na internet ou desconecte até mesmo os altifalantes e assista a um webinar sem som. Acessibilidade significa que todos podem utilizar exatamente […]
Para perceber a acessibilidade é importante experimentar a inacessibilidade por um momento. Desligue o monitor do computador e comece a digitar, utilize o telemóvel sem conseguir vê-lo, desconecte o rato e tente navegar na internet ou desconecte até mesmo os altifalantes e assista a um webinar sem som. Acessibilidade significa que todos podem utilizar exatamente a mesma tecnologia – independentemente da capacidade para manipular um rato, da visão que cada um tem, de quantas cores consegue ver, do quanto consegue ouvir ou de como processa as informações.
A acessibilidade à tecnologia é cada vez mais fundamental para garantir uma experiência positiva do utilizador, e ajuda a promover uma sociedade mais inclusiva e benéfica para todos. A tecnologia foi a responsável por grandes avanços na acessibilidade para deficientes, através de funções aprimoradas de voz para texto ou aplicativos que conectam alguém a um assistente virtual, mas ainda há muito trabalho a ser feito, especialmente quando se trata de um simples ato como o de aceder à Internet.
Se por um lado nos parece que isto da tecnologia já é um dado adquirido, e se também é um facto que há já 20 anos que as regras de acessibilidade do World Wide Web Consortium (W3C) foram introduzidas na Comunidade Europeia, com Portugal a ser o primeiro Estado-membro a aderir às respetivas diretrizes, não é menos verdade que a tecnologia acessível para todos ainda está longe de ser uma realidade transversal. Segundo o mais recente relatório da Web Accessibility In Mind (WebAIM), numa análise a um milhão de páginas web, verificou-se que 98,1% das home pages apresenta pelo menos uma falha no que toca ao cumprimento das diretrizes do W3C. Em média, foram registados quase 70 erros por página.
Entre as tendências mais importantes no desenvolvimento de tecnologia está precisamente o conceito de experiência do utilizador, que se concentra em melhorar a eficácia e a facilidade do uso da tecnologia. Não vendermos conceitos como casas e cidades inteligentes se estas excluem as pessoas com deficiências pela sua condição física, mental ou por outras condições ambientais em que o sistema será utilizado. É preciso que a tecnologia seja cada vez mais inclusiva, que considere as diferenças e que esteja preparada para dar resposta às necessidades e reagir às limitações de todos. A tecnologia assistida como a Siri, com raízes em projetos financiados pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA) dos EUA que se focam em melhorar a acessibilidade à tecnologia para pessoas com deficiência, tem sido uma grande ajuda àqueles que não podem ver e mesmo a pessoas que não conseguem, por alguma razão, manipular um determinado equipamento eletrónico. O controlo através da voz possibilita que se faça uma simples chamada telefónica, mas também que o utilizador seja capaz de acender as luzes ou controlar o sistema de aquecimento da sua casa. Por sua vez, uma aplicação que permite ser lida pelo leitor de ecrã, adaptar o contraste de cores e design de acordo com as sessões intensivas de UX são alguns exemplos das atividades feitas pelos developers na direção de atingirmos acessibilidade para todos
No mundo digital é cada vez mais importante que as tecnologias sejam para todos. A falta de acessibilidade nega experiências digitais completas para as pessoas com deficiência, reforçando a desigualdade social. Atualmente, a necessidade de eliminar barreiras para as pessoas com deficiência vai muito além das barreiras físicas, o dia a dia de todos é cada vez mais digital, seja para trabalhar, para realizar compras, efetuar pagamentos ou tratar de burocracias, e se já tinha um grande peso na vida das pessoas e das empresas, com a pandemia o digital ganhou ainda uma maior importância.
Incorporar a acessibilidade à tecnologia e defender programas de tecnologia acessível nas organizações é contribuir para que todos possam ter um nível de autonomia que lhes permite ter as mesmas oportunidades. Neste capítulo, é fundamental um trabalho conjunto entre empresas, universidades e organismos públicos. Vejamos o exemplo de França, onde foi criada a Handitech, uma associação que tem como missão melhorar o dia-a-dia das pessoas com incapacidade e que desenvolveu um ecossistema composto por startups, empresas, instituições de ensino, associações e investidores que tem como objetivo criar soluções úteis para este segmento da população. Desta iniciativa já surgiram soluções como o SignBand, um software que aproveita o poder da IA para traduzir instantaneamente língua gestual; o Translator AI, um plug-in para PowerPoint que permite legendar apresentações; ou a Wyes, uma tecnologia que permite que pessoas paralisadas interajam através do piscar dos olhos utilizando uns óculos e sensores infravermelhos.
A IA pode mudar o jogo para pessoas com deficiência e o caminho terá de ser por aqui, será tornando estas soluções amplamente disponíveis que conseguiremos fazer com a tecnologia tenha ainda um maior impacto na vida das empresas e das pessoas.
Se “não deixar ninguém para trás” é um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), isso implica acontecer não só nas pequenas e simples tarefas do dia-a-dia, como também nas oportunidades dentro das empresas e no mercado de trabalho, e tanto num caso como no outro, a tecnologia é fundamental para capacitar estas pessoas e dar-lhes oportunidades. Nas cidades e nas empresas que se pretendem cada vez mais inteligentes, a democratização das ferramentas de IA é um passo essencial para tornar a tecnologia, verdadeiramente, acessível para todos.

Por Pedro Ribeiro, Vice-Presidente Engineering na Bosch em Aveiro
[A opinião foi publicada na edição n.º 12 da revista Líder.]

