Mila Suharev é Co-fundadora da Casafari, uma proptech que detém a mais completa e atualizada base de dados do mercado imobiliário português. Com um percurso profissional em que passou por várias empresas tecnológicas, Mila Suharev estudou matemática aplicada e gestão financeira, aprendeu programação aos 13 anos e aos 14 montou o seu primeiro negócio. Depois […]
Mila Suharev é Co-fundadora da Casafari, uma proptech que detém a mais completa e atualizada base de dados do mercado imobiliário português. Com um percurso profissional em que passou por várias empresas tecnológicas, Mila Suharev estudou matemática aplicada e gestão financeira, aprendeu programação aos 13 anos e aos 14 montou o seu primeiro negócio. Depois de ter trabalhado em Moscovo, criou parcerias de negócios e de marketing que contribuíram para um aumento de 30% das receitas da maior empresa europeia de videojogos de browser. Em conversa com a Líder ficamos a conhecer um pouco melhor esta empreendedora para além do estado atual do mercado imobiliário em Portugal e as perspetivas para o futuro.
- O mercado imobiliário tem sido “refúgio” para muitos investidores ao longo das décadas. O que se pode esperar da evolução do mercado nestes tempos conturbados e incertos?
O capital não alocado ou sem retorno em fundos de investimento tem vindo a crescer ao longo da última década, atingindo os 2,28 biliões de dólares, o que representa 22,3% do capital total. Os imóveis, especialmente os residenciais, tornaram-se num ativo muito procurado e passaram a ser um dos principais investimentos dos grandes fundos. Rendimentos elevados e melhor previsibilidade geram bastante interesse, no entanto, há atualmente uma escassez de oferta. Contudo, através da conversão de alugueres de curto prazo para longo prazo e com o aumento da tendência de construção para arrendamento, esperamos um aumento do stock de imóveis para arrendamento e uma normalização dos preços.
- Sabe-se que terminam em Janeiro do próximo ano para Lisboa, Porto e zonas litorais, as medidas de incentivo ao investimento, como os vistos Gold. É expectável uma expansão na procura de negócio e de imóveis?
No que diz respeito à procura internacional, há um interesse crescente dos clientes e investidores do Norte da Europa que são atraídos pelo clima, pelas condições fiscais favoráveis, e por um rácio sem precedentes entre qualidade de vida e custo de vida. As comunidades locais devem beneficiar de um interesse crescente das empresas internacionais em contratar mais talento em Portugal. Os investidores internacionais estão cada vez mais focados em oferecer habitação a preços acessíveis para cumprir a agenda da ONU 2030, o que deverá impulsionar a oferta e a procura entre os residentes locais.
- O mercado imobiliário português é suficientemente transparente e eficaz, nomeadamente o mercado do arrendamento, ou haverá melhorias a fazer?
Não é ainda suficientemente transparente devido à grande fragmentação e ao rácio elevado de propriedade privada, tornando o stock e os preços altamente voláteis. No entanto, devido ao crescente interesse na tendência de construção para arrendamento e à conversão dos alugueres turísticos para o stock de habitação, espera-se uma estabilização do mercado, mais profissionalizado e mais transparente.
- Muito se tem falado de uma “bolha” imobiliária. Pela sua experiência, os imóveis tem um valor real ou estão inflacionados?
Durante a Pandemia, os preços de venda conseguiram ser resilientes a qualquer situação de mercado, demonstrando o equilíbrio entre a procura e a oferta, e resultando em preços de mercado robustos. Por outro lado, os preços de aluguer têm sido voláteis em curtos períodos de tempo, registando um certo desequilíbrio.
- Com o confinamento e as medidas como o teletrabalho assiste-se a muitas empresas a promover um downsizing, em concreto a reduzirem espaços comerciais. É um problema para o mercado português?
Em toda a Europa, há um desejo ou medidas no sentido de redirecionar os espaços de escritórios e de retalho para espaços residenciais e logísticos. Cerca de metade dos investidores e dos proprietários profissionais gostariam de passar da classe de ativos comerciais, outrora popular, para residenciais. A Pandemia acelerou esta tendência. Quando Portugal acompanhar esta tendência, ajudará a resolver o problema da habitação acessível ao desbloquear mais stock.
- Faria sentido flexibilizar a legislação nacional de forma a permitir que espaços comerciais possam com maior facilidade obter licença de habitação?
É uma realidade em crescimento noutros países de forma a diminuir os edifícios devolutos.
É essencial permitir que seja feito um redirecionamento de ativos comerciais para residenciais para desbloquear habitação acessível, com o objetivo de trazer as comunidades locais de volta aos centros das cidades.
- Cada vez mais as vendas e a procura de imóveis assentam em plataformas virtuais. É de esperar que os empresários e as centenas de marcas de imobiliárias em Portugal atravessem uma crise nas suas lojas físicas ou já estão suficientemente adaptados?
Mesmo em países com plataformas online avançadas e de elevada transparência para a compra e venda de imóveis, o setor imobiliário continua a ser um negócio de pessoas. Ainda que continue a existir um segmento de pessoas que dá preferência a plataformas virtuais e vendas rápidas, acreditamos na crescente importância da relação humana para tomar decisões de investimento tão importantes como o imobiliário. Nesse sentido, a nossa missão é organizar todo o mercado num ecossistema eficiente para ajudar todos, seja uma plataforma virtual online ou um cliente tradicional.
- Ser mulher-empreendedora é um processo que nasce com a pessoa ou começa em casa, na família? De que forma o processo educativo, quer na família, quer na escola pode ser direcionado para o empreendedorismo?
Acredito que uma vida empreendedora começa em casa, mas pode nascer e desenvolver-se numa fase posterior, caso existam exemplos suficientes. É essencial ter exemplos reais de alguém que se aventure, que experimente, que tente e que não desista. É importante não ter medo de falhar porque só existe um verdadeiro fracasso – não tentar. A experimentação e a aceitação do fracasso em nome do progresso podem ser adotadas e ensinadas a nível pessoal, na escola, em casa ou na empresa. É realmente apenas a mentalidade de um indivíduo. Quando era criança, tive a sorte de ter grandes exemplos na minha família e professores na escola, mas acredito que nunca é tarde demais para começar, como é o caso da minha mãe que fundou a sua primeira empresa quando tinha 50 anos.
- A Mila pratica mindfulness, meditação, yoga e corre. Hoje em dia, assume-se como prioritário e relevante estimular o equilíbrio entre as habilidades ligadas à gestão com áreas mais ligadas à paz interior. São de facto formas de estar na vida que ajudam ao sucesso?
Como demonstram vários estudos e exemplos reais entre as pessoas mais bem-sucedidas, é fundamental estar sereno e meditar regularmente. Ajuda a esvaziar o copo quando ele parece estar cheio e a mudar a perspetiva sobre qualquer situação através de uma recriação do cérebro. Está provado que, devido à alta plasticidade cerebral, podemos melhorar a capacidade cognitiva, a memória e a resposta ao stress. Tomei conhecimento da importância do mindfulness e da mediação como parte do curso de liderança na Columbia Business School. Já a corrida de longa distância é uma estratégia de ensino e trabalho de equipa, ao mesmo tempo que ajuda a aumentar a resistência física e mental. A corrida de pista, especialmente à noite, é também uma prática mindfulness e muito agradável. Cada uma destas atividades tem sido ótima para a união da nossa equipa, seja yoga ou meditação no escritório ou correr uma meia maratona na ponte 25 de Abril.
- Como tem sido a sua experiência de liderança enquanto mulher? Num mundo onde ainda são poucas as mulheres que conquistam lideranças, que medidas, no seu entender, poderiam ajudar a promover uma maior igualdade e a combater a discriminação?
Os valores da inclusão e da diversidade da nossa empresa refletem a minha forte convicção de que somos todos muito diferentes e que devemos aceitar essa diferença. A natureza é abundante porque é muito diversa e por isso também devemos estar e ser assim nas organizações. A diversidade não significa apenas o género, mas também a origem cultural e profissional, gostos, modos de pensar, etc. Ter mulheres e homens em posições de liderança ajuda a tornar mais completa a cultura da empresa e a tomada de decisões. A melhor forma de promover a diversidade é mostrando o nosso próprio exemplo, criando um espaço baseado na igualdade e na inclusão, como acontece na Casafari.


