Costuma-se dizer que a refeição é um momento de vulnerabilidade, em que atendemos tanto a uma necessidade básica, como a uma necessidade social humana, a de partilha e conversa. Winston Churchill não era exceção: o primeiro-ministro britânico conseguia ser tanto o predador como a presa nos grandes almoços e jantares que organizava. Lee Pollock, historiador […]
Costuma-se dizer que a refeição é um momento de vulnerabilidade, em que atendemos tanto a uma necessidade básica, como a uma necessidade social humana, a de partilha e conversa. Winston Churchill não era exceção: o primeiro-ministro britânico conseguia ser tanto o predador como a presa nos grandes almoços e jantares que organizava.
Lee Pollock, historiador especializado na vida de Winston Churchill, foi orador na talk “At Churchill’s Table: Dining and Diplomacy with History’s Greatest Leaders”, moderado por Bethany Gaunt, diretora associada do Sir Martin Gilbert Learning Centre, entidade que organizou a intervenção.
A sala de jantar era a divisão da casa mais prezada para Churchill, já que era lá que, por suas palavras “recompensava os meus amigos, vencia os meus adversários, e recolhia todo o tipo de informações, desde segredos diplomáticos, a escândalos sociais”.
Assim, a atenção ao detalhe era crucial, e tudo na sua sala de jantar estava posicionado meticulosamente, tudo era premeditado, chegando a escrever uma dissertação sobre cadeiras para a sua esposa, Clementine: “Primeiro, as cadeiras devem ser confortáveis e dar apoio ao corpo quando nos sentamos direitos. Segundo, não deviam ser compactas. Não queremos que as cadeiras da sala de jantar sejam muito largas, com os pés e braços como se fossem plantas.”
Os convidados eram sempre bem recebidos, e saíam satisfeitos e impressionados com a faceta genuína do anfitrião. Na verdade, apesar de ser um mestre de estratégia e diplomacia, Churchill aproveitava os serões para mostrar a sua vertente mais humana, mas não menos notável.
Em 1940, o economista John Keynes teve a oportunidade de comparecer num destes jantares. Keynes não era um homem facilmente impressionável, mas mencionou que “ele estava sereno, cheio de emoções normais humanas, e completamente com os pés na terra. Ele está no auge do seu poder e glória.”
Os menus eram pensados ao pormenor, sempre com muita variedade, mesmo quando a Inglaterra passava fome com a guerra. Ele entendia a importância da comida e do impacto social que tinha, e quando não exercia as funções de primeiro-ministro, dizia que os jantares eram ainda mais essenciais: “agora que estamos na oposição, temos de juntar os nossos colegas e ter almoços e jantares de 8 a 10 pessoas com frequência, pelo menos duas vezes por semana”, escreveu numa carta à sua esposa.
Recebeu ilustres convidados, entre eles Franklin Roosevelt ou Joseph Stalin. Já treinara em muitas ocasiões, e ganhou uma certa resistência ao álcool, permanecendo sempre sóbrio nos seus encontros. Já de Estaline o mesmo não pode ser dito: “Estaline bebia metade da garrafa de vodka e, quando pensava que ninguém estava a olhar, enchia o copo com água.”, relatou Edward Stettinius, secretário de Estado dos Estados Unidos, sobre o jantar com Churchill.
Churchill foi sempre associado ao seu consumo de álcool e cigarros, tornando-se uma figura icónica. Porém, o papel que a comida teve na sua vida diplomática e pessoal foi crucial: “imaginem os grandes almoços e jantares da série Downton Abbey. Eram assim as suas refeições: com muita pompa e abundância”, conclui Lee Pollock, acrescentando que, apesar de tudo, o antigo primeiro-ministro era apreciador dos pratos mais tradicionais da cozinha britânica.
Por Denise Calado

