Kristalina Georgieva, diretora do FMI avançou esta semana que 2023 será um ano ainda mais difícil que o anterior, prevendo que um terço da economia mundial entre em recessão, já que as três grandes potências – Estados Unidos, União Europeia e China – estão a desacelerar simultaneamente. Não há nada melhor que entender o fenómeno […]
Kristalina Georgieva, diretora do FMI avançou esta semana que 2023 será um ano ainda mais difícil que o anterior, prevendo que um terço da economia mundial entre em recessão, já que as três grandes potências – Estados Unidos, União Europeia e China – estão a desacelerar simultaneamente.
Não há nada melhor que entender o fenómeno para saber como o enfrentar, e assim o The Economist sintetiza o que é a inflação, e quais as suas causas.
O que é a inflação?
A inflação define-se pelo aumento dos preços generalizado. Quando os preços sobem inesperadamente, o dinheiro não chega para comprar os bens e serviços do dia-a-dia, o que por sua vez desencadeia uma demanda por aumentos salariais, o que acaba por gerar mais inflação.
Quando a subida de preços é repentina, o funcionamento da economia pode entrar em colapso. Por exemplo, em períodos de “hiperinflação”, as pessoas tendem a gastar dinheiro quando recebem o ordenado, porque a cada dia que passa os preços sobem.
Por essa razão, os bancos centrais geralmente estabelecem uma meta de inflação e usam as taxas de juros para garantir que os preços sobem a um ritmo predeterminado. Haver um pouco de inflação é, por norma, inofensivo, se for planeado. O Federal Reserve dos EUA visa um aumento de 2% nos preços a cada ano.
Mas desde a primavera de 2021, os preços têm vindo a subir muito mais rápido. A inflação alta levou a que muitos bancos começassem a aumentar a taxa de juros, o que ameaça desacelerar o crescimento global, e pode até induzir uma recessão em alguns países em 2023.
O que causa a inflação?
Essencialmente, a inflação é impulsionada por muita procura em relação à oferta. Mais precisamente, como o ex-presidente do Fed, Ben Bernanke, menciona “A inflação ocorre quando a quantidade agregada de bens procurados em qualquer nível de preço específico está a aumentar mais rapidamente do que a qualidade agregada dos bens fornecidos a esse preço”.
Mas o que faz com que a procura se sobreponha à oferta? Há três pilares da macroeconomia a considerar, de acordo o livro de David Moss “A Concise Guide to Macroeconomics: What Managers, executives, and students need to know”
Disrupções nas cadeias de abastecimento
A inflação geralmente ocorre devido a choques nas cadeias de abastecimento – grandes interrupções numa área importante para a economia – como a energia. Por exemplo, se muitos campos de petróleo param de produzir por causa de uma guerra, o preço da energia aumenta.
Como a energia é um aspeto crucial para quase todos os outros bens, os preços de outros produtos vão aumentar também. A isto chama-se “inflação de custos”.
Oferta de moeda
Um aumento na oferta monetária tenderá a causar inflação, como Moss explica: “Com mais dinheiro no bolso e nas contas bancárias, os consumidores geralmente tendem a encontrar motivos para comprar mais coisas. Mas, a não ser que a oferta de bens e serviços tenha aumentado, entretanto, a crescente demanda por produtos simplesmente fará com que os preços aumentem, estimulando assim a inflação”.
Expectativas e espirais
Em muitos modelos de inflação, a causa não é um aumento na oferta monetária, mas sim um aumento inesperado na oferta monetária. Se todos sabem que a procura vai aumentar (porque há mais dinheiro a circular), então a oferta aumentará para corresponder. É o aumento inesperado da procura (ou diminuição da oferta) que desencadeia a inflação.
Na mesma lógica, a quantidade de inflação que as pessoas esperam afeta a quantidade de inflação que efetivamente se tem. À medida que os preços dos bens aumentam, os trabalhadores não conseguem comprar tanto com os seus salários.
Portanto, se as pessoas esperam uma inflação mais elevada, vão tentar negociar salários mais altos para manter o seu padrão de vida. Mas se as empresas esperam essa inflação salarial, aumentarão os preços ainda mais, o que pode causar o que se chama de “espiral de salário-preço”, que acarreta uma inflação ainda maior. Felizmente, estas espirais são raras.
Como as expectativas são tão importantes, os bancos centrais trabalham arduamente para manter a sua credibilidade em termos de inflação e para manter as expectativas de inflação “ancoradas”. Isso significa que querem convencer todos de que serão capazes de atingir o seu objetivo de inflação, para que as pessoas não se preocupem com os dados de inflação mês a mês e assumam simplesmente que a inflação aumentará pelo que o banco central diz que aumentará.
O que está a causar a inflação agora, e porque ocorreu em 2021 e 2022?
As altas taxas de inflação dos últimos 18 meses provavelmente têm raízes tanto em fatores da oferta como da procura.
No lado da oferta, houve atrasos nos envios e escassez de trabalhadores causados pelo Covid-19, combinados com os aumentos nos preços da energia e da comida causados pela invasão da Ucrânia. O custo da energia e dos envios aumentou inesperadamente o preço de muitos bens, e esses aumentos depois espalharam-se pela economia.
No que toca à procura, muitos países canalizaram grandes somas de dinheiro para as famílias e as empresas durante a pandemia, para garantir que pudessem gerir o confinamento e os despedimentos.
Isso aumentou a oferta monetária e pode ter contribuído para a inflação. A procura por bens físicos aumentou dramaticamente durante a pandemia, porque os consumidores tinham dinheiro e não podiam gastá-lo em restaurantes ou outros serviços.
Ninguém sabe ao certo exatamente quanto contribuíram esses diferentes fatores. O estudo “How much did supply constraints boost U.S. Inflation?” de economistas do Federal Reserve de Nova Iorque estimou que 40% do aumento dos preços em 2021 foi devido a fatores do lado da oferta e 60% do lado da procura.


