A terceira fase do projeto-piloto da semana de quatro dias arrancou em junho. O projeto conta com 39 empresas: 27 começam um teste de seis meses em junho, e que se juntam a 12 empresas associadas que já adotaram a semana de quatro dias ao longo do último ano. O que torna estas empresas especiais? […]
A terceira fase do projeto-piloto da semana de quatro dias arrancou em junho. O projeto conta com 39 empresas: 27 começam um teste de seis meses em junho, e que se juntam a 12 empresas associadas que já adotaram a semana de quatro dias ao longo do último ano. O que torna estas empresas especiais? A sua liderança!
No último ano, tenho passado muito tempo a falar com líderes que já adotaram a semana de quatro dias, nacionais ou estrangeiros. Todos, eles e elas, impressionam.
Para além de uma personalidade cativante, partilham quatro características:
1.São curiosos e assumem riscos calculados. Estão sempre à procura de novas formas de dar uma vantagem às suas empresas. Inovar pressupõe sempre a possibilidade de insucesso. Falhar faz parte do processo de aprendizagem e nunca deve desencorajar a experimentação. Estes líderes exploram e pilotam novas ideias, sem precisarem da garantia de validação das grandes empresas. Já o fazem em várias dimensões e a organização dos tempos de trabalho é apenas mais uma. O risco de fazer um piloto de seis meses, acaba por ser muito pequeno, porque, numa grande maioria das empresas pode ser feito sem grande investimento financeiro inicial, e é rapidamente reversível.
2. Sentem-se confortáveis em não conhecer todos os pormenores. São líderes que sabem delegar, e confiam na estrutura que criaram. Definem a direção a seguir, mas dão a responsabilidade e a autonomia ao resto das estruturas para definirem o caminho. No caso do teste da semana de quatro dias, confiam nas equipas e nos trabalhadores para encontrar o melhor formato para a semana de quatro dias e as soluções para os problemas que, inevitavelmente, aparecem.
3. Compreendem a vantagem de ser o primeiro a avançar. Não são seguidores – lideram enquanto a concorrência hesita. A discussão sobre a semana de quatro dias está a fazer-se entre as elites económicas, mesmo em Davos, no Fórum Económico Mundial. Muitos veem a semana de quatro dias como inevitável, mas estão a olhar uns para os outros para ver quem avança primeiro. Os líderes da semana de quatro dias percebem que existem muito mais vantagens em avançar do que esperar. Primeiro, porque vão avançar nos seus próprios termos, da forma que mais se adequa à sua empresa – não nos termos definidos por outras empresas, por sindicatos ou pelo estado. São eles que estão a definir o futuro. Segundo, a exposição mediática associada a ser pioneiro acrescenta um enorme valor à marca. Como diz Andrew Barnes, CEO da Perpetual Guardian e fundador da 4 Day Week Global, nossa parceira no projeto, “o maior risco que a vossa empresa enfrenta não é testar a semana de quatro dias por seis meses, mas que um dos vossos concorrentes o faça primeiro”.
4. Valorizam os seus colaboradores que veem como “ativos humanos”, essenciais para criação de valor da Colaboradores felizes são mais empenhados, e colaboradores mais empenhados são mais produtivos. Para além disso, dificilmente abandonam a empresa. A atual escassez de mão de obra é um sintoma de que a procura é maior que a oferta. A pressão do mercado é na melhoria das condições para os trabalhadores, que pode ser feita através de salários mais elevados, ou então oferecendo algo único cada vez mais valorizado – tempo. A resistência das empresas ao aumento de salários é semelhante à resistência dos sindicatos a uma redução de salários. Seguimos então, atualmente, com empresas com menos colaboradores do que deviam, criando uma pressão enorme nos outros colaboradores (o que torna mais prováveis demissões em cadeia) ou sacrificando a qualidade do serviço. As empresas que adotam a semana de quatro dias ganham imediatamente um fator de competitividade único no mercado de trabalho eliminando problemas de recrutamento e retenção de trabalhadores.
Quando decidimos o formato do projeto-piloto, a nossa principal decisão foi a de não oferecer qualquer tipo de compensação financeira às empresas, apenas apoio técnico e de investigação. Disseram-me, muitas vezes, que parecia pouco ambicioso, e que num ano de tantos problemas económicos, não iria gerar interesse. Foi a nossa melhor decisão!
Se oferecêssemos financiamento, teríamos necessariamente de impor condições bem definidas à implementação da semana de quatro dias, e sansões no caso de não serem cumpridas. O processo tornar-se-ia muito mais demorado, burocrático e complexo e, embora pudesse atrair outras empresas habituadas a captação de fundos públicos, certamente não iriamos atrair estas empresas, que têm uma perspetiva mais “ágil”, e valorizam o fato de não existir nenhum compromisso legal. São estas as empresas com quem queríamos trabalhar e são estes os líderes que me fazem confiar no futuro da nossa economia. É uma honra trabalhar com eles.



