Que lugar pode ter o humor nas lideranças? Poderá o riso atenuar os conflitos? Para Ricardo Araújo Pereira não existe uma resposta clara, mas uma coisa é certa: «Os trabalhadores precisam de momentos de distensão». Estas e outras conclusões foram trazidas a debate na conversa “Renascer do Caos Através do Humor, da Capacidade de nos […]
Que lugar pode ter o humor nas lideranças? Poderá o riso atenuar os conflitos? Para Ricardo Araújo Pereira não existe uma resposta clara, mas uma coisa é certa: «Os trabalhadores precisam de momentos de distensão».
Estas e outras conclusões foram trazidas a debate na conversa “Renascer do Caos Através do Humor, da Capacidade de nos Rirmos ou de Simplesmente Fazermos os Outros Rir”, entre os humoristas Ricardo Araújo Pereira, Joana Marques e Carlos Pereira, moderada por Pedro Afonso, líder empresarial e autor. A conversa teve lugar na Leadership Summit Portugal, no dia 26 de outubro, no Casino Estoril.

Outra certeza de Ricardo Araújo Pereira é a necessidade de distender também a cultura corporativa. «Sempre que tenho algum problema gosto de ir à Filosofia. Em 2016, houve uma frase, para mim, importantíssima de um filósofo português, chamado Cristiano Ronaldo. No final do jogo Portugal – Polónia, que acabou empatado, era preciso marcar penáltis e ele virou-se para o colega, João Moutinho, e disse “Anda bater, que tu bates bem. Se perdermos, que se lixe”», relatou o humorista, sendo recebido por risos da audiência.
«O primeiro impacto é chocante, ao ver o capitão de equipa a dizer isto, mas a questão é que ganhamos mais vezes e mais facilmente com a atitude de “se perdermos, que se lixe”, dentro de certos limites», acrescentou.
Afinal, pode o humor caber nas lideranças?
Para Carlos Pereira, existe uma ideia de que os líderes «têm o sonho de ter graça». Por que escolhem não ter graça? «Os líderes estão muito condicionados pelas coisas que dizem. Cresci com o meu Avô e ele tinha uma grande aversão ao riso. Para ele um Homem que se ri enquanto trabalha é um Homem pouco sério», referiu.

Joana Marques atribuiu a dificuldade de incorporar o humor nas lideranças com o papel que a seriedade tem na construção de carreira. «A pessoa que faz muitas graças, mais facilmente é associada a uma pessoa irresponsável», afirmou a humorista, reforçando o preconceito associado ao humor em ambiente corporativo.
Por outro lado, esta ferramenta pode ser útil no meio corporativo, já que o humor pode ter o poder de «desarmar um conflito» ou de o agravar, segundo Ricardo Araújo Pereira.
«O que vocês pretendem, no mundo empresarial, a gestão de conflitos, a inovação, a criatividade, tudo isso medra em ambientes contrários do vosso. Que é tenso! Em tensão não acontece criatividade, que acontece num ambiente distendido. O contrário de rir não é chorar. O contrário de rir é estar sério, que é o que se exige às pessoas nas empresas e esse é o problema», defendeu o humorista. «O humor resolve o conflito porque contribui para distender o ambiente, para acabar com a tensão», acrescentou.
O moderador sugeriu a utilização de humor para dar más notícias no seio empresarial, mas Joana Marques afirmou prontamente: «Não creio que o humor possa ajudar num momento desses». «O humor não resolve tudo», corroborou Carlos Pereira.
Por outro lado, Ricardo Araújo Pereira defendeu que «as pessoas do mundo empresarial conhecem a solução». «É falar em inglês, que suaviza imenso a realidade. “Foste despedido? Não, fui vítima de um downsizing”», acrescentou.
Quais são os limites do humor e da liberdade de expressão?
Os limites do humor geram uma discussão eterna para qualquer humorista e Joana Marques afirmou que «cada pessoa tem o seu limite e esse é o limite possível» que delimita as fronteiras, quer para os espectadores e ouvintes, quer para os humoristas.
«Mas não alinho na frase: “já não se pode dizer nada”, sabemos bem quando vamos ter impacto, mas sofremos da literalidade. A única solução possível era não ofender ninguém, porque a lista dos limites aumenta a cada dia», acrescentou.

Citando a Embaixadora da Ucrânia em Portugal, Maryna Mykhailenko, num debate anterior da Leadership Summit Portugal, Pedro Afonso disse «Estamos em caos, os valores devem sempre prevalecer». O que pensar sobre isto?
Ricardo Araújo Pereira não se prende à omnipotência dos valores corporativos, condenando o afastamento de Paddy Cosgrave, ex-CEO da Web Summit, por se ter manifestado contra os crimes de guerra cometidos no conflito entre Israel e Palestina. «Um dia é o Paddy e outro dia seremos nós», acrescentou.
«A liberdade de expressão de um CEO está restringida ao ponto de se considerar que este está sempre em representação da empresa, mesmo se estiver a dizer uma baboseira no seu Twitter», referiu o humorista. «Se estamos sempre em representação da empresa, incluindo nas redes sociais privadas, então acho que as empresas têm de começar a pagar mais», concluiu Ricardo Araújo Pereira.

