O filósofo e professor Manuel Sérgio, falecido recentemente, deixou um legado inestimável no pensamento português, particularmente no campo da motricidade humana e da filosofia do desporto. Figura incontornável da academia e da reflexão sobre o corpo e o movimento, Manuel Sérgio influenciou profundamente nomes como Jorge Jesus e José Mourinho, treinadores que encontraram na sua […]
O filósofo e professor Manuel Sérgio, falecido recentemente, deixou um legado inestimável no pensamento português, particularmente no campo da motricidade humana e da filosofia do desporto. Figura incontornável da academia e da reflexão sobre o corpo e o movimento, Manuel Sérgio influenciou profundamente nomes como Jorge Jesus e José Mourinho, treinadores que encontraram na sua obra uma nova forma de compreender o futebol e a atividade desportiva.
No Colóquio Internacional Professor Manuel Sérgio, realizado em 2017, a diretora de conteúdos da revista Líder, Catarina Barosa, destacou a originalidade e profundidade da obra do professor. «Manuel Sérgio desafiou o pensamento convencional, obrigando-nos a olhar para o desporto como uma ciência humana e não apenas técnica. Explorou a dimensão prática, a dimensão teórica e a dimensão inventiva. Um homem integral. Pelos caminhos da reinvenção, da articulação do homem e da espiritualidade, soube pensar o corpo como expressão do ser e da liberdade». Acrescentou ainda que «o seu contributo intelectual continuará a inspirar gerações, pois soube ligar a filosofia à prática com uma mestria rara».
A influência de Manuel Sérgio no futebol e na formação de treinadores
A influência de Manuel Sérgio estende-se muito além das universidades e dos centros de investigação. O seu pensamento impactou o mundo do futebol, sendo frequentemente citado por Jorge Jesus como um dos seus principais mentores inteletuais. Mas não foi apenas Jesus a beber da sua filosofia. José Mourinho, um dos treinadores mais conceituados do mundo, reconheceu que a sua abordagem ao futebol foi moldada pela visão inovadora de Sérgio. A ideia de que o jogo não se resumia a esquemas táticos, mas sim a uma compreensão holística do atleta e da dinâmica coletiva, deve muito ao pensamento do professor. Mourinho incorporou essa visão na forma como gere as suas equipas, atribuindo grande importância ao fator humano no rendimento desportivo.
Manuel Sérgio defendia que o futebol era mais do que um jogo: era uma expressão cultural e filosófica, onde a inteligência e a emoção se cruzavam de forma única. A sua teoria da motricidade humana transformou a forma como o desporto é entendido, ultrapassando o mero aspeto físico e integrando a dimensão emocional, intelectual e social do atleta. Para o professor, o desporto não era apenas uma prática competitiva, mas um meio de elevação humana, um campo onde os limites do corpo e da mente se encontram e se redefinem a cada desafio.
A perda de um pensador e o impacto duradouro
O seu falecimento representa uma perda significativa para o pensamento português, mas a sua obra perdurará como um testemunho da sua genialidade. A sua visão inovadora do desporto e da motricidade humana continuará a ser estudada e aplicada, assegurando que o seu legado se torne indelével. No futebol, na academia e na vida, Manuel Sérgio será sempre lembrado como um pensador que ousou questionar o óbvio e abrir novos caminhos para o conhecimento.
Nasceu em Lisboa em 1936 e teve uma trajetória académica marcada pela sua dedicação à filosofia e ao estudo do movimento humano. Professor na Faculdade de Ciências do Desporto da Universidade de Lisboa, dedicou-se a explorar a relação entre o corpo e a mente. Casado com a psicóloga e professora Maria de Lurdes, com quem teve dois filhos, Manuel Sérgio manteve sempre uma forte ligação à sua família, que foi o seu suporte ao longo da vida. A sua abordagem ao desporto refletia também o seu compromisso com o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, defendendo que o desenvolvimento do ser humano como atleta deve estar em harmonia com o seu crescimento pessoal e emocional.
A obra de Manuel Sérgio é uma reflexão profunda sobre o ser humano e o seu corpo, que vai muito além das fronteiras do desporto. Como ele mesmo afirmou numa entrevista publicada na revista ‘Desporto e Sociedade’. «O desporto é, antes de mais, um fenómeno cultural e humano. Ele é a expressão máxima da liberdade do corpo e da alma, que se encontram na busca incessante de superação e harmonia.» Essa ideia refletia a sua convicção de que o corpo humano não é apenas uma máquina a trabalhar, mas sim um veículo de expressão da liberdade, da cultura e da emoção. Não via o desporto apenas como uma mera atividade física, mas como um campo onde o humano se revela, onde os limites do corpo são testados e, muitas vezes, transcendidos.
Mesmo após a sua morte, Manuel Sérgio continuará a ser lembrado e a inspirar gerações futuras, não apenas no campo do desporto, mas também em todas as áreas que envolvem o estudo do ser humano. O seu legado permanece vivo nas suas ideias, nos seus alunos, nos treinadores que seguiram os seus ensinamentos, e na transformação da forma como encaramos a motricidade humana. Será sempre lembrado como um pensador arrojado, que não teve medo de desafiar as normas e procurar respostas para as grandes questões da vida e do movimento.
Fotografia: Faculdade de Motricidade Humana


