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Home Internacional Notícias Irão em sete minutos: sangue nos bairros, poesia nos ossos

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Irão em sete minutos: sangue nos bairros, poesia nos ossos

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5 Março, 2026 | 7 minutos de leitura

O Irão acordou esta semana com o peso da História nos ombros. A morte do seu Líder Supremo, o aiatolá Ali Khamenei, encerra uma era iniciada em 1989 e abre um tempo de incerteza política e espiritual. Durante mais de três décadas, Khamenei foi o vértice do sistema da República Islâmica — árbitro final entre facções, comandante supremo das Forças Armadas, guardião de uma revolução que moldou o país desde 1979.

A sucessão é, assim, uma questão de rumo. A Assembleia dos Peritos terá de escolher o próximo Líder Supremo, num contexto de tensões internas — sociais, económicas, geracionais — e de pressão externa constante. Depois do ataque americano-israelita, nas ruas de Teerão, Mashhad, Isfahan ou Shiraz, há luto em alguns rostos, expectativa noutros. O Irão é isso mesmo: um país onde o consenso raramente é uniforme, mas onde a identidade coletiva resiste.

Mas o Irão não começou em 1979. Nem em 1906. Nem sequer com o Islão.

Segundo o Democracy Index 2024 da Economist Intelligence Unit, publicado em fevereiro de 2025, o Irão é classificado como uma ‘teocracia autoritária’, ocupando a 157.ª posição global (num total de 167 países) com uma pontuação de 3,04. O índice reflete limitações profundas nas liberdades civis, eleições restritas a candidatos filtrados pelo Conselho dos Guardiães, repressão política e um sistema judicial que depende fortemente da autoridade clerical.

No Global Soft Power Index 2025, elaborado pela Brand Finance, o Irão aparece em 87.ª posição mundial, refletindo uma presença cultural e diplomática limitada no plano internacional, apesar da riqueza histórica e civilizacional do país. Este resultado evidencia que, embora o país seja reconhecido pela sua herança persa e contribuições culturais, a imagem internacional sofre devido a conflitos regionais, sanções económicas e restrições internas.

 

O que é o Irão?

O Irão é herdeiro direto da antiga Pérsia,  uma das civilizações mais antigas e sofisticadas do mundo. É a terra de Ciro, o Grande, fundador do Império Aqueménida no século VI a.C., que governou do Mediterrâneo ao Indo com uma política de tolerância religiosa e administrativa rara para a época. É a terra de Dario I, que organizou um império com estradas, correios e uma burocracia eficiente quando grande parte do mundo ainda se organizava em tribos.

Antes de ser República Islâmica, foi império. Antes de ser teocracia, foi monarquia constitucional. Antes de ser alvo de sanções, foi ponte entre Oriente e Ocidente.

Em 1935, sob o xá Reza Shah Pahlavi, o país pediu formalmente que a comunidade internacional passasse a chamá-lo ‘Irão’ — nome que significa ‘terra dos arianos’ e que sempre foi usado internamente. O seu filho, Mohammad Reza Pahlavi, tentou modernizar o país com reformas económicas e sociais, mas governou de forma autoritária, apoiado por potências ocidentais. A repressão política, a desigualdade e a perceção de submissão externa alimentaram a revolta.

Em 1979, a Revolução Islâmica liderada por Ruhollah Khomeini derrubou a monarquia e instaurou a República Islâmica. Desde então, o Irão vive sob um sistema singular: uma mistura de instituições republicanas — presidente, parlamento, eleições — com uma estrutura clerical que detém a palavra final.

É um modelo que muitos criticam, dentro e fora do país. Há perseguição e um regime teocrático que põe em causa direitos humanos. Mas é também o resultado de uma história marcada por ingerências estrangeiras, desde o golpe de 1953, apoiado pela CIA e pelo MI6, que derrubou o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, até décadas de sanções internacionais.

Sem preconceito, é preciso dizer que o Irão não é um monólito. É um país com 85 milhões de pessoas, maioritariamente persas, mas também azeris, curdos, árabes, balúchis. É profundamente xiita, mas com minorias sunitas, cristãs, judaicas e zoroastrianas. É conservador em muitos aspetos, mas urbano, instruído e culturalmente vibrante.

Cultura – a língua persa e as vozes que não se calam

Se há algo que atravessa regimes é a cultura persa. O Irão lê-se em versos. Hafez continua a ser citado em jantares de família; Rumi é lido em todo o mundo; Ferdowsi preservou a língua persa no épico ‘Shahnameh’ quando o árabe dominava a região.

O cinema iraniano é uma das formas mais sofisticadas de resistência artística contemporânea. Realizadores como Abbas Kiarostami ou Asghar Farhadi mostraram ao mundo um país íntimo, moralmente complexo, feito de silêncios e dilemas. ‘A Separation’, de Farhadi, venceu o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, elogiado pela sua componente crua, sensível, tal e qual um retrato humano.

Nas cidades, os bazares ainda respiram séculos de comércio. As mesquitas de Isfahan brilham em azul-turquesa. Os jardins persas são metáforas vivas de equilíbrio. O Nowruz, o Ano Novo persa, celebrado no equinócio da primavera, é mais antigo que o Islão e continua a unir famílias em torno de uma mesa simbólica — o Haft-Seen — onde cada objeto representa renovação.

A cultura iraniana escapa aos mapas e às regras, e enquanto se pensa que a pode ver, já se desdobra em mil vozes que ninguém consegue calar.

Política: tensão permanente

A República Islâmica vive num equilíbrio frágil entre legitimidade interna e confronto externo. Eleições presidenciais existem, mas os candidatos são filtrados pelo Conselho dos Guardiães. O debate político é real, mas condicionado.

Nos últimos anos, protestos — especialmente após a morte de Mahsa Amini em 2022 — revelaram uma sociedade jovem que exige mais liberdade, sobretudo para as mulheres. O Estado respondeu com repressão, mas a energia social não desapareceu.

Externamente, o Irão é peça central no Médio Oriente. Rival da Arábia Saudita, adversário declarado de Israel, ator decisivo no Iraque, Síria, Líbano e Iémen. O acordo nuclear de 2015, negociado com os Estados Unidos, União Europeia, Rússia e China, prometia distensão, mas a saída unilateral de Washington em 2018 reacendeu tensões.

O país vive sob sanções severas que afetam a economia, mas também desenvolveu uma notável capacidade de adaptação — da indústria militar à ciência e tecnologia.

Economia e sociedade

O Irão possui algumas das maiores reservas de gás natural e petróleo do mundo. Ainda assim, a sua economia sofre com inflação elevada, moeda desvalorizada e dificuldades de investimento externo. A classe média urbana foi particularmente afetada.

Mas há dados menos visíveis: uma taxa elevada de ensino superior, forte presença feminina nas universidades, uma diáspora altamente qualificada espalhada pela Europa e América do Norte.

A sociedade iraniana é jovem, com mais de metade da população a ter menos de 35 anos. É conectada, informada, e profundamente consciente do mundo. Ao mesmo tempo, é orgulhosa da sua soberania e da sua história.

 

Conclusão

O Irão não é apenas o seu regime. Não é apenas manchetes sobre centrifugadoras ou véus obrigatórios. É uma civilização milenar que sobreviveu a Alexandre, aos mongóis, aos impérios coloniais e às guerras modernas.

Com a morte de Ali Khamenei, fecha-se um capítulo. O que vem a seguir ninguém sabe ao certo. Mas seja qual for o desfecho político, uma coisa permanece: a cultura persa continua viva. Nos poemas sussurrados, nas ruas de Teerão, nos jardins onde a água corre em silêncio.

No fim, o Irão é lugar onde as vozes dos que tombam se enredam com o vento das cidades em chamas, e mesmo sob o peso da morte e do medo, pulsa um coração de um país inteiro que não se deixa dobrar nem pelo fulgor das armas nem pela indiferença do mundo.

 

Pintura de Hossein Qollar-Aqasi

Marcelo M. Teixeira,
Jornalista

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