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Denise Calado

Pátrias, de Timothy Garton Ash

24 Maio, 2023 by Denise Calado

«A Europa dos dias de hoje não pode ser entendida sem recuarmos até àquele período que Tony Judt condensou no título da sua história da Europa desde 1945: Pós-guerra.»
Esta é uma história pessoal da Europa.
De pessoas, locais, acontecimentos. De vitórias e catástrofes, realizações e erros. «De grandes homens que se revelaram tão pequenos e homens e mulheres ‘comuns’ que se mostraram grandes.»
Esta é uma história ilustrada pela memória desde 1945 até aos dias de hoje de um dos maiores nomes da análise de temas europeus – ele que assistiu da primeira fila a muitos dos acontecimentos que relata.

Arquivado em:Livros e Revistas

Recorrer a tribunais é “um grito de desespero” perante a inação dos Estados nas políticas climáticas

24 Maio, 2023 by Denise Calado

Armando Rocha, Professor da Faculdade de Direito, e especialista em direito internacional e alterações climáticas, é o coordenador da conferência “Climate Change Law & Litigation States’ Obligations”, que acontece hoje na Universidade Católica, em Lisboa.

O evento dedicado às alterações climáticas e ao debate das obrigações dos Estados para a preservação de uma atmosfera e clima mais estáveis, levanta inúmeras questões de litigância climática e junta os principais key players nesta matéria.

A Líder conversou com Armando Rocha que enfatiza o papel crucial dos tribunais nacionais e internacionais diante da inação dos Estados nas políticas climáticas, bem como a importância de cimeiras internacionais entre Estados.

 

Num recente artigo, argumentou que os tribunais internos podem estar em melhor posição para pressionar os Estados a adotar medidas rigorosas de mitigação. Pode dar alguns exemplos práticos?

Julgo que os tribunais internos estão mais bem posicionados para exercer pressão sobre o Estado, porque, em comparação com os tribunais internacionais, estão mais próximos do poder político e dos cidadãos.

Por essa razão, os cidadãos podem muito mais facilmente dirigir-se a um tribunal interno do que a um tribunal internacional; e os poderes dos tribunais internos são muito mais robustos do que os de tribunais internacionais.

Por exemplo, dependendo do Estado, um cidadão ou uma organização não-governamental pode iniciar uma ação contra uma empresa, o que nunca pode suceder perante um tribunal internacional.

 

As suas conclusões sugerem um papel mais proativo dos tribunais na regulação das alterações climáticas. Quais as implicações desta abordagem para a forma como as ações legais relativas ao clima são tratadas?

As implicações podem variar consoante o Estado e as especificidades do seu sistema jurídico. Agora, há um ponto que pode ser decisivo: as políticas climáticas (isto é, de mitigação, adaptação e reforço de resiliência) têm um custo social e económico muito pesado — o que significa que os políticos podem ter receio de ser mais audazes no desenho das políticas climáticas por terem receio de alguma instabilidade social.

Porém, se um tribunal corroborar e impuser a necessidade de adoção de políticas climáticas, a sua decisão pode servir de escudo e, por isso, encorajar os políticos a maior ousadia no desenho de políticas climáticas.

 

Como podem os tribunais nacionais e internacionais, sejam especializados ou não, mapear as obrigações dos Estados decorrentes do direito internacional, especialmente da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas?

A margem ao seu dispor não é muito grande, mas a verdade é que podem ajudar a perceber, por exemplo, se um Estado deve indemnizar outro Estado ou um grupo de cidadãos pela falta de medidas de mitigação ou de adaptação.

Para além disso, podem ajudar a definir conceitos e princípios jurídicos que serão usados noutros casos judiciais — por exemplo, para impugnar uma autorização de desflorestação, ou para exigir ação do Estado em caso de desflorestação ilegal.

 

Qual a sua opinião sobre o papel das empresas emissoras de Gases com Efeito de Estufa (GEE). Também devem ser responsabilizadas em tribunal?

Um dos argumentos comummente usados pelos Estados para afastarem a sua responsabilidade por emissões de gases com efeito de estufa é precisamente o facto de, na sua origem, as emissões não serem imputáveis ao Estado, mas às empresas.

Claro que este argumento é profundamente cínico, porque as empresas e os cidadãos, quando desenvolvem uma atividade emissora de GEE, fazem-no dentro do quadro regulatório que é adotado pelo próprio Estado: fosse outro o quadro regulatório (isto é, mais restritivo), e menores seriam as emissões de gases com efeito de estufa a nível global.

Em todo o caso, se do Estado devemos esperar melhor regulação, dos operadores económicos também devemos esperar e exigir uma redução acentuada da sua pegada de carbono. O problema é saber se o podemos exigir juridicamente — isto é, se existe uma obrigação jurídica de redução de emissões que vincule os operadores económicos e, para além disso, se esta obrigação é exigível em tribunal.

O caminho é muito estreito, mas não é impossível. No estrangeiro, há pequenos passos que já foram dados neste sentido de responsabilização dos operadores económicos e que mostram que é possível haver uma conceção mais criativa do Direito e do papel dos tribunais.

Afinal de contas, o Direito não é um fóssil: as regras e princípios podem mudar e ajustar-se às necessidades de cada tempo. 

Ora, responsabilizar os operadores económicos é especialmente relevante na luta contra as alterações climáticas, porque não acredito que seja possível haver grandes avanços se os operadores económicos não estiverem também envolvidos.

 

A conferência “Climate Change Law & Litigation: States’ Obligations” tem como objetivo avaliar as obrigações internacionais dos Estados. Poderia dar uma visão geral sobre essas obrigações?

Esta é, precisamente, a questão.

Para já, a obrigação central que os Estados têm é a de reduzirem as suas emissões de gases com efeito de estufa de acordo com a NDC que submeteram ao Secretariado da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas — o que é, verdadeiramente, muito pouco.

Ao seu lado, há obrigações de cooperação ou de due diligence, mas são tão genéricas e incipientes que dificilmente se pode dizer qual seja o conteúdo dessas obrigações. Por isso, o trabalho que hoje está a ser feito pela academia (e esta conferência é um bom exemplo disso) é tentar definir métricas e ações concretas a que os Estados estejam obrigados, designadamente de redução de emissões de GEE, mas também de adaptação às alterações climáticas e de reforço de resiliência.

Para este efeito, procuramos ver que obrigações e ações em concreto decorrem da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, mas também de outros tratados, como a Convenção Europeia ou a Convenção Interamericana dos Direitos Humanos, ou a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.

 

A conferência menciona que todos os principais tribunais internacionais irão pronunciar-se sobre as obrigações internacionais dos Estados na redução de emissões de GEE nos próximos dois anos. Quais são as suas expectativas?

Para ser honesto, sou cauteloso e, por isso, não deposito uma grande esperança no resultado destes casos climáticos.

Por um lado, porque alguns deles são apenas pedidos de parecer, que não são juridicamente vinculativos. Por outro lado, porque, sendo órgãos supranacionais, têm um receio acrescido de interferir em matérias que se encontram no coração da soberania de cada Estado.

Por fim, porque, sendo órgãos judiciais, não se vão querer envolver nas minudências das políticas climáticas nacionais, apesar de ser precisamente nestas minudências que se define que obrigações e ações em concreto são exigíveis a um Estado.

Ainda assim, temos de começar por algum local: se, no final, conseguirmos criar uma dinâmica regulatória no sentido de reduzir as emissões de GEE, de adaptar para as alterações climáticas, de reforçar a resiliência e de investir financeiramente na engenharia geológica, então já valeu muito a pena este percurso junto dos tribunais internacionais.

 

Dada a ação limitada dos Estados na redução de emissões, a sociedade civil tem recorrido aos tribunais nacionais e internacionais. Como analisa esta tendência e o papel dos tribunais nesta questão?

Honestamente, como um grito de desespero.

Os tribunais não são o local mais adequado para discutir a redução de emissões de gases com efeito de estufa, a adaptação para as alterações climáticas ou o reforço de resiliência.

O local para estas discussões são as cimeiras internacionais entre Estados e, no plano interno, os parlamentos e governos de cada Estado.

Porém, o que mais se tem visto a nível mundial é a inação por parte dos Estados: os resultados de cada cimeira entre Estados são inevitavelmente frustrantes; e ainda mais frustrante são as políticas adotadas pelos parlamentos e governos nacionais. 

É perante esta inação dos Estados que a sociedade civil se tem mobilizado e dirigido aos vários meios judiciais ao seu dispor — muitas vezes sabendo das limitações próprias dos tribunais e da escassez dos seus meios, mas fazem-no porque sabem que os tribunais são o pior fórum de discussão das políticas climáticas exceto todos os outros.

 

Quais os resultados esperados desta conferência? Que tipo de impacto acredita que a discussão sobre a litigação climática pode ter sobre a ação dos Estados e da sociedade civil?

O impacto direto na sociedade civil é sempre muito reduzido. Porém, há algo importante que queremos garantir.

Atualmente, todos os principais tribunais internacionais têm em suas mãos casos relativos a alterações climáticas. Como estes tribunais não estão hierarquicamente integrados, há um risco sério de as suas decisões serem incoerentes e, por essa razão, perderem alguma respeitabilidade.

A melhor forma de evitar isso é garantir que existe diálogo, por exemplo, entre aqueles que participam de alguma forma no processo junto de todos estes tribunais, nem que seja em representação da sociedade civil. Diálogo, claro está, aberto e transparente. Ora, é aí que entra a nossa conferência, ao juntar numa mesma sala alguns dos key players da atualidade no domínio da litigância climática internacional.

 

 

Arquivado em:Entrevistas, Notícias

Bruno Castro (VisionWare): “O malware gerado por IA é significativamente mais perigoso”

24 Maio, 2023 by Denise Calado

O Future of Life Institute (FLI) tornou-se o centro das atenções, quando em março último lançou um alerta global: “Pause Giant AI Experiments. We call on all AI labs to immediately pause for at least six months the training of AI systems more powerful than GPT-4”.

A Carta Aberta, em jeito de Manifesto, pede uma pausa de seis meses no desenvolvimento dos Grandes Modelos de Linguagem (LLMs), nomeadamente o Chat GPT.

Está-se a ir rápido de mais. Será?

Bruno Castro é CEO da VisionWare, empresa 100% portuguesa, especializada em segurança de informação. O responsável ressalta a necessidade de a defesa digital das empresas obrigar a uma maturidade de cibersegurança. Na sua perspetiva, com a pandemia, instalou-se uma nova crise cibernética: a transformação digital ocorreu rapidamente, e a segurança ficou para trás.

Para a revista Líder, colocamos o desafio:

Como podem estes seis meses de interrupção prevenir um ataque da máquina sobre o Homem? Faz sentido parar? O que pode significar o futuro do ChatGPT e dos Grandes Modelos de Linguagem (LLMs)? O que é realmente urgente?

“Considero a Inteligência Artificial um dos campos de desenvolvimento tecnológico mais importantes da atualidade. Embora tornando as nossas vidas muito mais fáceis e ágeis, a tecnologia que possuímos hoje, e continuamos a melhorar, pode ter consequências terríveis para o futuro da cibersegurança – daí a existência do malware ChatGPT. Falo sobre os riscos da utilização do ChatGPT e que um programa melhorado como este pode ser perigoso nas mãos erradas.

Muitas redes na darkweb já levaram à utilização do chatbot para eliminar malware e facilitar ataques de ransomware. Estas preocupações são ainda mais prementes, quando os gigantes da indústria estão dispostos a investir fortemente em tecnologia de IA.

O malware gerado por IA é significativamente mais perigoso do que o malware tradicional já que: é mais fácil de criar; é acessível a todos; é capaz de produzir resultados automaticamente; e pode ser manuseado com maior facilidade. Parece que vivemos tempos muito desafiantes no campo da (inovação da) segurança cibernética, quando a nossa aliada Inteligência Artificial acaba por se revelar a principal inimiga de quem nos protege”

 

Este artigo foi publicado na edição de primavera da revista Líder. 

Subscreva a Líder AQUI.

 

Arquivado em:Artigos, Leading Tech, Notícias

Publicidade que toca – quando as marcas despertam emoções fortes

24 Maio, 2023 by Denise Calado

Imagine o seguinte cenário: é dezembro, está frio, e encontra-se à frente da televisão, à espera que termine o intervalo do “Sozinho em Casa”, quando passa um anúncio sobre a solidão e a saúde mental com uma alta carga emotiva. O que pensa nesse momento? O que sente? E, vendo do outro lado da moeda, o que ganham as marcas com isso?

A Líder analisou três anúncios que passaram nas televisões, em prime time, durante a época natalícia de 2022: “O Carrossel”, da NOS, o “Partilha o que estás a sentir”, da Vodafone, e o “She”, da J&B.

Com a publicidade da NOS, podemos seguir as várias fases de vida de um homem através de um carrossel. Desde criança que está acompanhado pelos pais, amigos e, por fim, pela sua esposa. Percebemos que a relação não dá certo, acabando por terminar. Com um cenário mais escurecido, a solidão e o desespero estão espelhados no carrossel. Quando pensa que está sozinho, porém, vê a luz ao fundo do túnel: recebe uma mensagem da mãe, onde se lê “Estamos aqui”. A música “Don’t you forget about me”, de James Morrison, intensifica, a família junta-se, e passa no ecrã “Uma em cada cinco pessoas sente que não tem com quem contar”, seguido do apelo “Este Natal, oferece atenção. Nós ajudamos com mais dados, chamadas e SMS”. É um anúncio forte, que toca no coração de quem o vê. Se “O Carrossel” tivesse passado em qualquer outra altura do ano, não festiva, o efeito seria o mesmo?

O que está aqui em jogo? Vejamos o próximo exemplo.

A Vodafone apostou na saúde mental e na depressão como tema do anúncio de Natal do ano passado. É dia de Natal, e observamos um homem que caminha, sem rumo, claramente perturbado, com lágrimas nos olhos. Vai recebendo chamadas dos pais, mas não atende. A canção que acompanha a publicidade aborda a ansiedade e a depressão: “Control”, de Zoe Wees. Toca um telemóvel, perdido no chão; do outro lado, está uma mulher que lhe pergunta “Onde estás? Perdi o telemóvel”, “É Natal, não devias estar em casa?”. O par continua em chamada, a falar um com o outro, até que se encontram, e o telefone é devolvido. Já de noite, o homem apercebe-se que precisava de falar com alguém, e acaba por regressar a casa dos pais, decidindo pedir ajuda. “Se estás a viver um problema de saúde mental, dá o primeiro passo. #PartilhaOQueEstásASentir. Together we can, Vodafone”, é como termina o anúncio.

O anúncio da J&B Espanha, ao som de “She”, de Elvis Costello, no entanto, muda de tom. O Natal é uma época em que a família se reúne à mesa, onde se confraterniza. Mas, para a comunidade LGBTQIA+, pode ser uma altura de desconforto e repressão do verdadeiro “eu”. A mensagem passada pela J&B é de aceitação, do amor de um avô por uma neta transsexual. Quando começa não sabemos que é disso que se trata: observamos um idoso curioso por explorar maquilhagem, que vai aperfeiçoando a técnica ao longo do tempo. No dia de Natal, observa a sua neta a chegar a casa, sem maquilhagem, com medo da rejeição. Rapidamente a puxa à parte e a maquilha, para sua surpresa. Quando chega à mesa de jantar, com a família reunida, revela a sua verdadeira identidade, sendo bem recebida por todos. O anúncio conclui com a mensagem “A magia não está só no Natal, está também nos outros”.

As emoções traduzem-se em vendas? 

Três anúncios de marcas que abordam temas sensíveis, em épocas que, tipicamente, as pessoas se sentem mais solidários e, sobretudo, com uma maior predisposição para consumir. O trabalho de backstage, que não se vê, é a aposta no Emotional Marketing, o Marketing que nos traz emoções fortes, sejam elas negativas ou positivas. Mas não podemos dar o crédito apenas ao anúncio em si: o contexto em que se insere importa. Investigadores da Ipsos, no estudo “ADVERTISING DURING THE WORLD CUP – The Benefits of Emotion”, de 2018, analisaram quatro anúncios que passaram na televisão na altura do campeonato do Mundo de Futebol, no Reino Unido. Concluíram que os níveis de atenção em anúncios relacionados com futebol subiram drasticamente, e que o engagement emocional foi também superior ao normal (um aumento de 31%, em alguns casos). Lê-se ainda no estudo que quando as emoções vêm ao de cima “as marcas e a publicidade podem surfar a “onda das emoções”, e lucrar com isso”. Os tons patrióticos, nostálgicos e temáticos das publicidades passadas durante o Mundial fizeram a diferença, já que o público está mais entusiasmado, inspirado, e com um objetivo comum.

O Natal é um elemento que joga a favor das marcas, mas não basta. A Vodafone, a NOS e a J&B poderiam ter feito um anúncio tal como fazem o resto do ano, e colocar adereços festivos, mas não o fizeram. Existem vários ingredientes que se juntam aqui para criar o verdadeiro conto de Natal. Segundo a Harvard Business Review, o vínculo emocional com a marca é mais importante para os clientes do que a satisfação do consumidor com o produto ou serviço vendido. Nesse sentido, as marcas têm apostado nos temas de responsabilidade social e saúde mental, que sabem que importa para o seu público. A NOS vai até mais longe: durante o mês de dezembro faz uma oferta especial de minutos e dados móveis extra, para que todos possam estar em contacto com os entes queridos.

Está provado que a emoção se traduz não só em reputação, mas também em vendas: a Forbes reportou em 2018 que os anúncios que têm uma carga emocional superior resultam num aumento de 23% das vendas quando comparados com publicidades normais.

A ciência por detrás da emoção

Quem pensa que criar uma resposta emocional ao público é tarefa fácil, engana-se. No Emotional Marketing uma componente essencial é a narrativa e o storytelling. Nesse sentido, a Líder falou com João Miguel Lopes, Docente do Ensino Superior e Consultor na Área de Marketing, que acrescenta: “A marca deve procurar trabalhar uma narrativa autêntica, permitindo, desta forma, gerar um discurso coerente e consistente, possibilitando à sua audiência desenvolver o sonho em relação à promessa que esta lhe propõe. Como tenho o hábito de evidenciar, na verdade, todas as marcas podem contar histórias, mas nem todas podem contar uma boa história”.

Edson Athayde, CEO e Diretor Criativo da FCB, contou à Líder que “há uma diferença básica entre comunicar e informar: enquanto para a segunda basta um alinhavar de factos e dados, para a primeira é preciso que o emissor se esforce na conquista da atenção do recetor. E para isto é preciso usar uma chave poderosa, a chave da emoção. As boas marcas sabem disto. Sempre souberam.”

“Poderíamos dizer que sem emoção não há vida. Que sem emoção um anúncio não passa de um reclame. Ou como diria o meu Tio Olavo: ‘O importante não são as cores das flores que manda para a namorada. Importante é o que diz o cartão que as acompanha’, continua.

Hoje, as marcas não podem mais pensar apenas no seu serviço ou produto, importa o universo que criam, o impacto que têm no mundo, e João Miguel Lopes realça: “Os públicos procuram que as marcas os ajudem a resolver problemas, a ter momentos felizes, que permitam criar um mundo mais feliz e mais justo. E, na realidade, é isto que todos nós, indivíduos de uma sociedade em constante mutação, queremos, e isso só é possível quando na relação marca-pessoas houver sintonia no diálogo porque fundado em informação e mensagens relevantes para ambos. É neste contexto que a estratégia de storytelling faz sentido no marketing”.

Podemos nunca ter sentido solidão, sofrido com uma depressão, ou aceitar um parente pelo que ele é, e é aí que se encontra a eficácia da narrativa que, de acordo com o docente universitário, “permite-nos, muitas vezes, analisar e entender tudo à nossa volta através de uma perspetiva diferente”. Se a narrativa conseguiu que criássemos empatia mesmo nunca tendo passado pelas situações retratadas no “Carrossel”, ou no “Partilha o que estás a sentir”, o anúncio já tem parte do objetivo cumprido. “Isto acontece porque todos temos valores, crenças, graus de conhecimento e compreensão distintos de tudo aquilo com que interagimos. E isto pode fazer toda a diferença no impacto que a marca pode ter no seu público, seja na época natalícia, ou em qualquer outro momento do ano”, continua.

Da televisão para o mundo real

O making-of está terminado, o anúncio foi para o ar, o trabalho está concluído, certo? Não é bem assim. Se uma publicidade conjuga a época festiva, neste caso o Natal, apela a questões sociais de relevância (saúde mental, solidão, aceitação e direitos trans), e tem uma boa narrativa, mas não tem concretização no mundo real, muito dificilmente o público olhará para o anúncio como genuíno: “É fundamental as marcas continuarem a ser criativas no que respeita às ideias para as suas peças de Natal. No entanto, para que se destaquem, é essencial que haja coerência no seu discurso e que façam a ponte entre essas mensagens publicitárias com ações reais que ajudem a tornar o mundo em que vivemos, num mundo melhor”, conclui João Miguel Lopes.

A autenticidade e a credibilidade são os ingredientes finais para cozinhar uma publicidade de Natal com sucesso, que toca, e que vende.

 

 

Este artigo foi publicado na edição de primavera da revista Líder. 

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Crédito habitação: retirar seguro de vida associado pode gerar poupança até 60%

24 Maio, 2023 by Denise Calado

Mais de 90% dos créditos à habitação em Portugal têm taxa variável, e os recentes aumentos das taxas Euribor fizeram disparar os alarmes dos proprietários que procuram soluções de poupança.

Uma calculadora “Poupança Crédito Habitação” permite avaliar se fica mais barato contratar o seguro associado ao crédito através do Banco ou de uma seguradora, tendo em conta os vários componentes a ele agregado, como o spread.

A ferramenta, desenvolvida pela mediadora digital Mudey, é de acesso universal na sua plataforma. Os dados da insurtech apontam que 55% das pesquisas sobre o seguro de Vida Crédito Habitação são de pessoas que o têm associado a um Banco, o que sugere existirem poucas alternativas.

Como é feita a comparação?

Tudo se processa online, através do site da mediadora. É pedido que o utilizador indique o valor do crédito habitação em dívida, o valor do spread e o preço mensal do seguro de vida aplicado pelo Banco e quantas prestações (em meses) faltam até ao final do crédito.

Para que a comparação seja possível, é perguntado o valor do spread proposto pelo Banco, caso o seguro seja feito fora do seu controlo. A própria plataforma indica de forma automática qual o valor mensal do seguro, caso este seja feito através da Mudey. A estimativa de poupança é calculada e disponibilizada imediatamente, na plataforma, ao utilizador.

Ao obter um crédito habitação, os bancos colocam algumas condições, nomeadamente, a necessidade de contratar um seguro de vida associado, colocando o Banco como beneficiário irrevogável. No entanto, o que muitos consumidores ainda desconhecem é que é possível escolher onde fazer esse seguro. Pode ser feito junto do Banco, diretamente com uma seguradora ou através de um mediador de seguros. É importante também ter em conta que enquanto existir um crédito habitação a pagar, existe igualmente a necessidade de ter um seguro de vida associado a esse crédito. Isto é, o seguro de vida estará ativo durante as décadas que o crédito habitação prevalecer e pode representar um valor considerável nas despesas mensais totais associadas ao crédito habitação. Assim sendo, e não menos relevante como fator de decisão, é cada um ter a liberdade de renegociar, com a frequência que entender, as condições do seguro de vida, encontrando a melhor proposta que o mercado oferece para a sua situação, conseguindo mudar com facilidade e gerando poupança

Ana Teixeira, cofundadora da Mudey

 

 

Arquivado em:Economia, Notícias

Amortização de créditos: uma técnica essencial

24 Maio, 2023 by Denise Calado

O crédito é uma realidade inevitável nas nossas vidas. Afinal, em algum momento precisaremos dele para realizar os nossos projetos, como a aquisição de uma casa ou carro. No entanto, sabemos que ter uma dívida, por menor que seja, pode gerar desconforto e compromissos pesados a longo prazo. Porém, o crédito também pode ser uma ferramenta muito inteligente para alavancar os seus investimentos e fazer o seu dinheiro trabalhar para si.

Independentemente do tipo de crédito que tenhamos, é importante, na minha opinião, que estabeleça sempre um plano de pagar os seus créditos, sejam eles quais forem, na maior brevidade possível, para que se veja livre dessa dívida e da responsabilidade o mais rapidamente possível! Além da tranquilidade emocional, a poupança em juros e outros encargos é enorme.

Ao fazer uma amortização adicional em qualquer crédito, esse valor vai incidir diretamente sobre o capital em dívida. No entanto, deve ter em consideração que, habitualmente, será aplicada uma comissão sobre esta amortização. Deve sempre consultar as condições do seu empréstimo mas, genericamente, a comissão será de:

  • 0,5% do capital amortizado, para contratos com taxa de juro variável;
  • 2% do capital amortizado, para contratos com taxa de juro fixa.

Ao fazer uma amortização, a dívida é reduzida, e nessa altura, temos, habitualmente, duas hipóteses:

  • Manter o prazo e reduzir a prestação mensal
  • Manter a prestação mensal e reduzir o prazo

A hipótese varia de caso para caso, de entidade para entidade, mas caso exista escolha, a minha recai sobre a primeira hipótese já que é essa que me vai permitir libertar dinheiro mensalmente para me dar uma folga no orçamento. Atenção que esta folga deve ser usada conscientemente e não deve ser vista como “mais dinheiro para gastar”. Deve ter sempre presente o seu orçamento pessoal e usar esta folga para colmatar alguma parte do seu orçamento que esteja em mais dificuldades.

Para otimizar a gestão dos seus créditos, é essencial que compreenda as particularidades de cada um deles. Se tiver vários contratos em vigor, é fundamental definir prioridades e identificar por onde começar a amortizar. Embora existam diversos métodos para realizar esse processo, recomendo que inicie a amortização pelo crédito que terá o maior impacto na sua mensalidade. Geralmente, trata-se do crédito com a taxa de juros mais elevada, mas é importante fazer as contas e analisar a sua situação individualmente. Apesar de existirem várias estratégias, acredito que com esta é possível atingir resultados mais eficazes e duradouros. Afinal, o objetivo é sempre obter o melhor retorno possível do seu dinheiro e equilibrar as suas finanças de forma saudável e sustentável.

 

O primeiro passo deve ser então listar as várias dívidas que tem, assim como a mensalidade relativa a cada um. Algo deste género:

Com esta listagem feita, chega a altura de decidir qual é o crédito que vai amortizar com, por exemplo, 1.000€.

Então, o próximo passo é perceber quanto representam esses 1.000€ no total das suas várias dívidas e aplicar essa proporção à mensalidade, conforme este quadro:

Ao olhar para este quadro, consegue perceber que se aplicar os seus 1.000€ no Crédito Habitação terá uma redução de prestação a rondar os 2,50€, no crédito do carro de 15,83€ e no Cartão de Crédito de 50,00€.

Atenção que estes valores são aproximados mas são uma forma fácil e rápida de perceber onde é que a amortização é mais vantajosa. Caso queira saber o valor exato, deve pedir uma simulação ao seu banco ou financeira.

Com este quadro, ou as simulações mais formais à sua frente, é fácil perceber onde é que os seus 1.000€ fazem mais diferença, e neste exemplo é na amortização da dívida do cartão de crédito.

 

Amortizar regularmente os seus créditos vai fazer com que pague as suas dívidas de forma mais rápida e eficiente, o que pode representar uma poupança significativa em juros, comissões, seguros e outros custos. No entanto, é importante lembrar que, em alguns casos, como créditos com taxas de juros muito baixas, é possível que a poupança ou o investimento da quantia disponível para amortização seja uma opção mais atraente, já que o retorno potencial pode superar a poupança obtida com a amortização.

Apesar disso, recomendo que a amortização seja sempre uma prioridade. Afinal, é uma forma garantida de colocar dinheiro imediato no seu bolso, enquanto que o produto de poupança ou investimento pode, por algum motivo, não ser tão seguro ou rentável quanto o esperado. Além disso, existem sempre boas oportunidades de poupança e investimento no mercado, por isso, não se sinta pressionado a agarrar todas as opções que surgem. Foque-se em consolidar as suas finanças e eliminar as dívidas de forma consistente e sustentável.

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