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Denise Calado

O papel da tradição no processo de inovação: um dilema ou um paradoxo?

26 Maio, 2023 by Denise Calado

Quando pensamos no fundador de uma organização, pensamos em figuras míticas e personalidades que foram maiores do que a vida, com uma visão forte e a força de vontade para a levar a cabo. Quando estes líderes deixam a organização, constrói-se um mito em torno dos feitos do fundador, que ajudará a perpetuar a sua presença no quotidiano da organização. Este processo é amplificado quando a organização é uma empresa familiar, uma vez que a família está presente, para incorporar e dar continuidade às crenças e valores do fundador (Schein, 1983).

Quando pensamos em empresas familiares, temos tendência para as associar à tradição e à continuidade. As empresas familiares distinguem-se das empresas não familiares porque um dos seus principais motores é o controlo transgeracional, que consiste no objectivo de transferir o controlo e a propriedade da empresa para a geração seguinte (Chua et al., 2004). Assim, para que uma empresa seja transferida, tem de ser sustentável e, por conseguinte, a inovação é fundamental, uma vez que permitirá que a empresa seja flexível, resiliente, competitiva e sustentável.

A inovação é a procura de novos conhecimentos, enquanto o passado é visto como uma fonte de resistência, gerando inércia e rigidez, no sentido em que o conhecimento antigo pode tornar-se obsoleto e não satisfazer as necessidades actuais, diminuindo assim o valor e a utilidade dos novos produtos que incorporam esse conhecimento (Kinicki et al., 2013; Leonard-Barton, 1992). Ao mesmo tempo, existem vários potenciais benefícios na utilização do conhecimento transferido, nomeadamente, níveis mais elevados de confiança, legitimidade e níveis mais baixos de risco, que se tornam mais importantes num contexto de elevada incerteza. Nestes casos, tanto os trabalhadores como os consumidores tendem a procurar orientação no que é conhecido e familiar, nos seus pares e líderes.

São vários os potenciais benefícios da utilização do conhecimento adquirido, incluindo maior confiança, legitimidade e menor risco de erro, que assumem maior importância quando, num contexto de grande incerteza, os consumidores procuram orientação no que é conhecido e familiar (Katila, 2002; Marquis & Tilcsik, 2013).

A tradição envolve a acumulação de saberes, artefactos simbólicos e culturais, e práticas transmitidas de geração em geração, ajudando assim a moldar a identidade de indivíduos, organizações e territórios. Pode mesmo ser vista como um recurso distinto e único. Está de tal forma enraizado na cultura de uma organização que se torna inimitável, contribuindo para a sua diferenciação e raridade. As empresas que conseguem desenvolver capacidades alavancadas na sua tradição são capazes de criar e capturar valor da inovação, e assim criar e alimentar vantagens competitivas (De Massis et al., 2016).

As empresas familiares são conhecidas por fazerem mais com menos. Tendem a investir menos em inovação, mas são mais eficientes nos seus processos de inovação, o que significa que são mais cautelosas nos seus investimentos (Duran et al., 2016).

Assim, de um lado temos a tradição como potencial fonte de vantagem competitiva e do outro lado a cautela para novos investimentos. Qual é que escolhemos? Ambos! Muitas questões nas empresas familiares são, na verdade, paradoxos e não dilemas e, por isso, os dois lados que parecem opostos, na verdade, apoiam-se mutuamente. Assim, a melhor maneira de lidar com eles é escolher ambos os lados em vez de um ao outro. É verdade, pode ser bastante frustrante e, não surpreendentemente, os paradoxos podem ser vistos como pontos-chave de conflito no seio da família e da empresa. No entanto, nem todos os problemas devem ser tratados da mesma forma, alguns podem e devem ser resolvidos, outros são paradoxos a gerir.

Muitas organizações beneficiam da sua história, mas também precisam de ser capazes de gerir a tensão criada entre o foco na tradição e o foco na inovação. Aqueles que conseguem gerir esta tensão, em vez de a tentarem resolver, são capazes de se envolver simultaneamente em actividades inovadoras e tradicionais. Ao fazê-lo, podem ganhar força e posicionar-se de uma forma que é simultaneamente bem sucedida e difícil de imitar. A beleza da tradição reside no facto de ser específica da empresa e, por conseguinte, difícil de imitar, sendo assim uma fonte potencial de vantagem competitiva sustentável.

Referências Bibliográficas:

Chua, J. H., Chrisman, J. J., & Chang, E. P. C. (2004). Are Family Firms Born or Made? An Exploratory Investigation. Family Business Review, 17(1), 37–54. https://doi.org/10.1111/j.1741-6248.2004.00002.x

De Massis, A., Fratinni, F., Kotlar, J., Messeni Petruzzelli, A., & Wright, M. (2016). Innovation Through Tradition. Academy of Management Perspectives, 30(1), 93–116.

Duran, P., Kammerlander, N., Van Essen, M., & Zellweger, T. (2016). Doing more with less: Innovation input and output in family firms. Academy of Management Journal, 59(4), 1224–1264. https://doi.org/10.5465/amj.2014.0424

Katila, R. (2002). New Product Search Over Time: Past Ideas in Their Prime? Academy of Management Journal, 45(5), 995–1010. https://doi.org/10.5465/3069326

Kinicki, A. J., Jacobson, K. J. L., Peterson, S. J., & Prussia, G. E. (2013). Development and Validation of the Performance Management Behavior Questionnaire. Personnel Psychology, 66(1), 1–45. https://doi.org/10.1111/PEPS.12013

Leonard-Barton, D. (1992). Core capabilities and core rigidities: A paradox in managing new product development. Strategic Management Journal, 13(S1), 111–125. https://doi.org/10.1002/smj.4250131009

Marquis, C., & Tilcsik, A. (2013). Imprinting: Toward a Multilevel Theory. The Academy of Management Annals, 7(1), 195–245. https://doi.org/10.1080/19416520.2013.766076

Schein, E. H. (1983). The Role of the Founder in Creating Organizational Culture. Organizational Dynamics, 13–28.

 

Arquivado em:Opinião

Ana Almeida Simões é a nova Diretora de inovação do Grupo Brisa

26 Maio, 2023 by Denise Calado

Ana Almeida Simões é a nova diretora de inovação do Grupo Brisa e tem como missão liderar e promover a inovação do Grupo, através de novas formas de pensar, metodologias e processos que potenciem a disrupção.

Nas suas novas funções, a profissional vai fazer a ponte com entidades externas de inovação e com o mundo académico, para aumentar a permeabilidade do grupo a ideias externas.

Ana Almeida Simões iniciou a sua carreira, em 2005, como consultora, passando pela Deloitte, e depois na McKinsey antes de assumir a posição de diretora de estratégia na área internacional da British Telecom, no Reino Unido. Ainda no Reino Unido, iniciou o seu percurso na Google, passando, em 2018, para os EUA, onde assumiu uma posição de liderança da área de gestão de estratégia e operações da tecnológica.

Em 2021, regressou a Portugal para ingressar na Mercedes-Benz.io como diretora da área de negócio transversal, incluindo estratégia, agility e data insights.

É licenciada em gestão de empresas pela Universidade Católica Portuguesa, tem um MBA pelo INSEAD e um curso executivo de Liderança pela LSE.

 

Arquivado em:Notícias, Pessoas

O custo da discriminação contra pessoas LGBT+ leva a uma diminuição do PIB até 2%

25 Maio, 2023 by Denise Calado

Jens Schadendorf é economista e autor do livro Gayme Changer, onde explora o tema crucial da igualdade LGBT+ para as empresas e a economia global. A sua experiência de vida, trabalho e visão sobre o tema da diversidade, é o mote para esta entrevista com a Líder.

O autor refere que, no mundo corporativo, em Portugal, apesar do atraso na igualdade LGBT+, começa a haver um movimento positivo. Na sua perspetiva, os líderes, e as suas empresas, devem atualizar-se “o mais rápido possível”, sob a pena de um impacto significativo na economia nacional.

 

Enquanto economista, escritor e orador, como é que a sua experiência influenciou à abordagem, no livro, ao tema da igualdade LGBT+ em empresas, locais de trabalho e comunidades?

Durante muitos anos, fui executivo em grandes empresas de media, publicava principalmente livros sobre tendências globais, conceitos de gestão, liderança, e muito mais. Se quiser ser um editor de sucesso, deve aprender que não é só a qualidade que importa, mas também o timing certo. Isto aplica-se também ao tema da igualdade LGBT+ no trabalho e nas sociedades.

Há pouco mais de dez anos, pensei: agora é a hora certa.

Claro que o facto de, desde meados dos anos 90, ter sido um líder abertamente gay no trabalho, com amigos no mundo dos negócios e finanças, ajudou-me a chegar a esta conclusão. Percebi que algo tinha mudado, uma mudança de atitude dos meus pares, especialmente os mais jovens, e também houve uma maior consciencialização e atividade das empresas.

Foi por isso que escrevi o meu primeiro livro sobre o tema, nessa altura focado apenas nos países de língua alemã, e também escrevi artigos em semanários alemães de renome, como o Spiegel e o Die Zeit.

Depois, em determinado momento, comecei a perceber que esta não era uma mudança menor, mas o início de uma transformação, impulsionada por empresas de atuação global, associações corporativas transnacionais, entidades de direitos humanos e outros atores como o Fórum Económico Mundial, a ONU e outras organizações internacionais.

Como está a situação em Portugal, e qual é o compromisso das empresas com a comunidade LGBT+?

Por um lado, Portugal já permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo desde 2010 e a adoção de crianças por parceiros do mesmo sexo desde 2016.

A ILGA Europa, uma ONG que trabalha para promover da igualdade na comunidade LGBT+, publica um importante ranking anual que avalia os direitos e políticas nacionais LGBT+ que, em 2022, colocou Portugal na 9ª posição entre 49 países; o ranking de 2023, que acaba de ser publicado, atribui-lhe o 11º.

Para surpresa de muitos, o ranking coloca Portugal à frente de países ditos mais progressistas em termos de igualdade LGBT+, como a Holanda, o Reino Unido e a Alemanha. A situação jurídica é apenas uma parte da equação, porque, por outro lado, no quotidiano e nos locais de trabalho, Portugal, ainda muito conservador, está muito atrás destes e de muitos outros países, o que se reflete também na cultura das empresas.

Em muitos outros países democráticos, as empresas estão a progredir em direção a uma maior diversidade e inclusão LGBT+ nos seus escritórios. Desenvolveram estratégias e investiram em mudanças culturais porque entenderam que investir numa maior igualdade LGBT+ traz retorno económico. Claro, os países (e as empresas) devem escolher o seu próprio caminho. Mas a minha recomendação é que as empresas portuguesas e os seus líderes se atualizem o mais rápido possível a esse respeito – para interesse da empresa.

No livro discute o conceito de “pinkwashing” no contexto da responsabilidade social corporativa (RSE). Por que o considera relevante?

O Pinkwashing envolve criar estratégias destinadas a promover produtos, marcas ou empresas, com a narrativa de que se é LGBT+ friendly, sem realmente ser. Enquanto palestrante, por vezes perguntam-me o que penso sobre o pinkwashing. A minha resposta geralmente é: é maravilhoso que as empresas sejam criticadas por serem pinkwashers. Porquê? Porque a verdade é que se se falar do problema, haverá mudança.

De facto, é de salientar que há cerca de dez anos o termo “pinkwashing” não era usado de todo, nem mesmo no mundo liberal-democrático anglo-saxão. 

Só surgiu quando as empresas começaram a entender que podem e devem construir uma vantagem competitiva em talentos, opinião pública e outros mercados se se apresentarem enquanto LGBT+ friendly.

Assim, ao aperceberem-se disso, refletiram: “vamos levar isto a sério, este é um desenvolvimento a longo prazo, impulsionado pela mudança de valores e pelos jovens, dos nossos atuais e futuros colaboradores, líderes e clientes.

Trabalhar com credibilidade por mais diversidade, inclusão e igualdade, especialmente no que diz respeito a grupos vulneráveis ​​e sub-representados, compensa, nos locais de trabalho e na sociedade. É bom para os negócios e a coisa certa a fazer.

Outras empresas têm pensado de maneira diferente: “vamos fazer um atalho”. Por exemplo, dizem que vão produzir bens com a bandeira do arco-íris na embalagem e vendê-los para pessoas LGBT+ com o seu poder de compra crescente.

Mas as pessoas não são parvas. Especialmente as gerações mais jovens, desenvolveram um sentido crescente de injustiça, deslealdade e desigualdade. Se as pessoas hoje percebem que as empresas estão apenas a fingir incluir a comunidade LGBT+, evitam ou não compram, ou criticam as empresas por serem pinkwashers.

Em Portugal, o Pinkwashing também se aplica? Que iniciativas são eficazes na promoção da inclusão e igualdade LGBT+ reais no mundo empresarial?

Em Portugal, o nível médio de envolvimento interno e externo para uma maior igualdade LGBT+ ainda é baixo – muito baixo, como indiquei anteriormente, com consequências negativas para os negócios a longo prazo.

A maioria das empresas que operam em Portugal nem sequer se atrevem a abordar o tema, iluminando apenas os seus edifícios principais com as cores do arco-íris ou hasteando a bandeira do arco-íris.

A minha impressão é que o pinkwashing não é realmente um problema no País, pelo menos não no nível que vemos nos EUA, Reino Unido, Austrália, Canadá, Holanda ou Alemanha.

Pode parecer paradoxal, mas se daqui a três anos ouvirmos críticas mais substanciais sobre o pinkwashing em Portugal, isso seria um bom sinal de progresso. 

Isso mostraria que até lá as empresas propuseram-se a fazer mais estratégias e ações internas de D&I LGBT+ e externas de RSE LGBT+, e também as incentivaria a continuar a sua jornada e a aumentar os seus esforços.

 

Qual é a sua visão sobre o impacto da inclusão LGBT+ na economia global?

Já há alguns anos que vários centros de investigação estão focados em quantificar o custo da discriminação contra pessoas LGBT+ nas economias nacionais.

Esses estudos mostram que, em média, esse custo leva a uma diminuição do PIB entre 1 a 2%. Destaque H2

Dependendo do grau de discriminação – com níveis variados de estigmatização, bullying, discursos de ódio, violência e criminalização – a diminuição pode ser significativamente maior.

A perda do PIB é causada principalmente por fatores como capital humano não utilizado e custos mais altos com saúde. Estas constatações quantitativas deverão ser muito relevantes também para as empresas portuguesas e para a economia nacional.

 

Foi médico socorrista no exército alemão. Houve alguma experiência ou aprendizagem dessa época que ainda impacta o seu trabalho hoje?

Vários. Darei quatro exemplos:

Um: É importante ser um membro comprometido da sua equipa e contar com eles, principalmente em situações desafiadoras e perigosas, assim como eles têm o direito de contar consigo.

Dois:  Como durante algum tempo trabalhei num hospital militar, estive exposto a muitos pacientes, inclusive a pacientes que sofreram ferimentos graves devido a minas terrestres e, por vezes, à morte inesperada. Esta foi uma lição difícil de aprender numa fase inicial da minha vida e moldou claramente o que é importante na vida e no trabalho – e o que não é importante.

Três: Ainda hoje acho importante ter um exército forte e ágil para defender o Estado democrático, para lutar pelo seu valor e pelo seu povo. Houve alturas em que esse tipo de pensamento era tabu. Apesar de, pessoalmente, não gostar de armas, para mim nunca foi.

Quatro: Hierarquias claras e que funcionam bem podem salvar vidas. Mas também podem ser mal utilizadas, e podem ser muito burocráticos. Por isso, é importante estar atento, e tentar torná-las melhores, se necessário e possível, mais ágeis e rápidos.

 

Ao longo da sua carreira tem vindo a trabalhar com autores como Jack Welch, Bill Clinton e Peter Drucker. Há algum conselho ou lição que tenha aprendido e aplicado ao seu trabalho, ou que queira passar para o público?

Aqui estão três lições sobre liderança:

Em primeiro lugar: cuidado com egos carismáticos em cargos de liderança, principalmente em grandes empresas. O caminho para o sucesso a longo prazo está em melhores mãos com líderes menos carismáticos, mas estratégicos, comunicativos e confiáveis.

Em segundo lugar: a liderança é uma competência multifacetada que pode ser aprendida. Talento ajuda; a experiência ajuda; a criatividade ajuda; mas, à medida que empresas, mercados, sociedades e valores mudam com o tempo, os líderes devem verificar regularmente e proativamente as suas competências, e adaptá-las e atualizá-las.

Em terceiro lugar: não confundir liderança e gestão; ambos são importantes; ambos são necessários. Até certo ponto, as capacidades de gestão podem ser inevitavelmente parte do seu papel de liderança. No entanto, como líder, não se deve perder na microgestão, mas manter a cabeça acima da linha d’água.

 

As lideranças precisam, necessariamente, de se reinventar para se adaptarem ao novo mundo do trabalho. Se tivesse de atribuir três características principais de um líder sensível, quais seriam?

As lideranças têm de ser:

– Mestres a praticar empatia com os outros;

– Mestres da comunicação inclusiva;

– Conseguir equilibrar a necessidade de estabilidade e mudança (incremental e radical).

 

O que podemos esperar da sua participação no Leading People, International HR Conference?

O meu objetivo é contribuir com o tema da minha apresentação na conferência, relacionado com o meu livro “GaYme Changer”. Com base na minha investigação em quatro continentes, vou destacar o fascinante aumento da igualdade LGBT+ na economia global e o que isso significa para líderes, empresas e sociedades – especialmente em Portugal.

Destacarei que, mesmo em tempos de hostilidade, resistência e crise, é economicamente e eticamente benéfico para empresas e sociedades em todos os lugares permitir que os membros LGBT+, individualmente e como parte de organizações, se desenvolvam em forças dinâmicas enraizadas em novas formas de cooperação para obter resultados.

Embora o mundo corporativo de Portugal esteja atrasado no avanço da igualdade LGBT+, que é uma desvantagem numa economia globalizada altamente competitiva, agora há algum movimento.

 

Jens Schadendorf vai marcar presença na Leading People HR Conference

Jens Schadendorf vai estar presente, no próximo dia 31 de maio, no Centro Cultural de Cascais, com a apresentação da talk “The Rise of LGBT+ Equality in Global Business – Now What?”. O momento faz parte do programa da próxima edição da Leading People – International HR Conference, este ano sobre o tema “Sensitive Leadership – Reset, Rebirth, Reinvent Ourselves”.

Pode assistir a todos os momentos do evento, a partir do dia 2 de junho, disponível on demand, de acesso universal e gratuito, na Líder TV, posição 165 do MEO e 560 da NOS.

Arquivado em:Entrevistas, LGBTQIA+

“Os Futuristas”: Quando a realidade virtual melhora as experiências reais

25 Maio, 2023 by Denise Calado

No ano de 1895 foi feita a primeira apresentação pública de um filme. Gravado pelos irmãos Lumière, com uma duração de 42 segundos, mostrava imagens de um comboio a chegar à estação. Por não distinguirem o real da ficção, os espetadores fugiram em pânico com medo do comboio que se aproximava.

Sempre que há disrupção, esta gera desconfiança e medo, mas pode, tal como no exemplo do cinema, e à medida que se incorporam as mudanças e o medo desvanece, tornar-se uma forma de arte e entretenimento com um impacto significativo e importante na sociedade.

Umas das tecnologias que causa desconfiança é a da realidade virtual (RV). Esta gera ambientes virtuais imersivos e interativos que reproduzem contextos de forma assustadoramente real.

Regressei há pouco de uma reunião científica em que discutimos os seus perigos e benefícios e achei um assunto fascinante para ‘os futuristas’. Ao contrário do que se pensa, a RV é usada para muito mais que jogos, com aplicações muito vastas e com resultados bastante promissores. Curiosamente, pode ser muito eficaz no tratamento de ansiedade social, que normalmente é tratada com terapia cognitivo-comportamental, na qual se imaginam cenários no consultório, e vai-se expondo e preparando lentamente o paciente para a situação real. Acontece que a utilização da RV neste contexto terapêutico, por profissionais, tem-se revelado muito mais eficaz e rápida neste processo. Ao replicarmos cenários quasi-reais de situações assustadoras, como falar em público, interpretar uma peça de teatro em palco ou entrar numa festa cheia de desconhecidos, com personagens virtuais que reproduzem o comportamento humano nas várias amplitudes, e expormos o paciente aos mesmos de forma controlada, permite melhorias significativas em pouco tempo. Possibilita treinar a prática de interações sociais e situações desafiadoras, como ter perguntas agressivas da audiência, ou situações sociais mais constrangedoras, ajudando os pacientes a desenvolver confiança e habilidades sociais, num ambiente seguro e controlado.

O mesmo se aplica a fobias, como medo das alturas, de andar de avião, e mesmo a situações de stress pós-traumático ao permitir reproduzir as situações de forma muito real para auxiliar na redução da resposta emocional às mesmas. Estas aplicações da realidade virtual oferecem um ambiente seguro para a exposição gradual a estímulos fóbicos, desde que devidamente enquadrados num programa terapêutico. No Japão, que tem vindo a sofrer uma subida enorme de casos de hikikomori – pessoas solitárias que se afastam de todo o contato social e vivem isolados anos –  há vários estudos piloto utilizando a RV para gradualmente permitir às pessoas o regresso ao contacto social.

Há desafios e precauções que se devem ter na sua utilização, como estudos mais controlados para provar a sua eficácia com maior número de pacientes, conhecer os possíveis efeitos adversos ao longo do tempo, e obviamente a sua não-utilização em menores de idade ou indivíduos mais vulneráveis, até termos uma maior compreensão do seu efeito no cérebro e sempre com monitorização adequada por profissionais. Mas que isso não impeça de explorar o seu fantástico potencial de desempenhar um papel significativo na área da saúde, melhorando os resultados para as pessoas e promovendo o bem-estar geral.

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“Não é possível parar o vento com as mãos”: Nuno Jardim Nunes (IST) comenta a pausa no desenvolvimento da IA

25 Maio, 2023 by Denise Calado

O Future of Life Institute (FLI) tornou-se o centro das atenções, quando em março último lançou um alerta global: “Pause Giant AI Experiments. We call on all AI labs to immediately pause for at least six months the training of AI systems more powerful than GPT-4”.

A Carta Aberta, em jeito de Manifesto, pede uma pausa de seis meses no desenvolvimento dos Grandes Modelos de Linguagem (LLMs), nomeadamente o Chat GPT.

Está-se a ir rápido de mais. Será?

Nuno Jardim Nunes é Professor catedrático do Instituto Superior Técnico e Co-Diretor da Carnegie Mellon Portugal e assume uma posição contra a moratória aos “grandes modelos de linguagem”. Primeiro, argumenta não serem uma forma de inteligência artificial geral, mas sim modelos treinados em quantidades muito grandes de informação e que geram respostas estatisticamente prováveis. Depois, estes modelos já estão disponíveis de forma relativamente aberta e disseminada. Na sua perspetiva, a existir a caixa de Pandora ela já foi aberta.

Para a revista Líder, colocamos o desafio:

Como podem estes seis meses de interrupção prevenir um ataque da máquina sobre o Homem? Faz sentido parar? O que pode significar o futuro do ChatGPT e dos Grandes Modelos de Linguagem (LLMs)? O que é realmente urgente?

“A polémica sobre os “grandes modelos de linguagem” (GPT ou LaMDA) continua. A recente moratória sugere que estamos numa corrida desenfreada para criar “mentes digitais” que são ainda pouco compreendidas, previsíveis e controláveis.

Segundo os subscritores, devemos parar até compreender os efeitos e riscos desta tecnologia. A ideia de que os modelos são uma forma de inteligência geral que pode fugir ao nosso controlo num ciclo explosivo é improvável.

A adoção de qualquer tecnologia de uso geral é sempre lenta, já que mudanças comportamentais e impactos na sociedade e na economia levam tempo. A moratória parece assim oportunista e sem efeitos práticos, a menos que o objetivo seja criar um mercado baseado no “hype-crítico” ou influenciar a competição global, beneficiando regimes ditatoriais ou empresas que estão a perder competitividade.

Não é possível parar o vento com as mãos. A adoção é a questão central, já que podemos controlá-la. Urge é decidir em quais áreas e como os LLMs serão adotados e a que informações terão acesso”.

 

Este artigo foi publicado na edição de primavera da revista Líder. 

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Talento internacional: cinco fatores a considerar na realocação de profissionais

25 Maio, 2023 by Denise Calado

A mobilidade global define o mercado de trabalho atual e apresenta benefícios relevantes tanto para as empresas, que têm a possibilidade de expandir internacionalmente e captar o melhor talento, sem restrições geográficas, como para os trabalhadores que, desta forma, encontram as portas abertas para o mundo.

No entanto, os processos de realocação são complexos e a burocracia associada é desafiante. A Jobbatical, plataforma tecnológica que gere a alocação de talento a empresas, partilha cinco pistas a considerar no processo de realocação de talento:

Contrato de trabalho

O primeiro e mais importante passo a considerar antes de iniciar o processo de realocação de talento é garantir que o contrato de trabalho está finalizado. Por mais óbvio que pareça, é de realçar que este é a base para todo o processo e, sem ele, nada avança;

Documentos pessoais

É essencial garantir que o futuro colaborador tem uma série de documentos pessoais válidos, como é o caso do passaporte e da carta de condução, que pode não ser válida noutros países;

Visto de trabalho

Os requisitos para adquirir um visto de trabalho não são iguais de país para país. Em alguns casos é preciso apresentar exames médicos ou, até mesmo, um registo criminal. Nos casos em que o profissional se faz acompanhar da família, certificados de matrimónio e certidões de nascimento dos filhos também são documentos a considerar;

Seguros

Existem diversos tipos de seguros e alguns deles são essenciais no processo de realocação de talento, como é o caso do seguro de saúde. Além desse, de forma a prevenir acidentes que possam eventualmente ocorrer durante o processo de realojamento do trabalhador e família, é aconselhável ter seguro de viagem e de bens;

Documentos relativos à família

No seguimento da documentação familiar necessária para o requerimento do visto de trabalho, há outros fatores a ter em conta. Se o trabalhador tiver filhos, é importante planear a situação escolar no novo país e, se existirem animais de estimação, há que garantir que estes têm os documentos necessários para a sua transição.

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