John J. Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago, é uma das maiores referências atuais dos estudos sobre relações internacionais. Em 2014, ele tomou a iniciativa de explicar que o alargamento da NATO à Ucrânia teria como consequência uma invasão russa e uma tremenda destruição daquele país e do seu povo. Assim sucedeu, oito anos depois. Eis porque é importante conhecer esta figura e a sua obra.
Atendendo à fruta da época, este é um homem de quem se fala. O tipo, é certo, tem poucos amigos, mas ter passado por West Point e por cinco anos de U. S. Air Force deram-lhe a confiança não só de caminhar sozinho, como de ir enfrentando difíceis missões, sem cuidar dos estragos que um elefante pode fazer em loja de cristais. Aos 33 anos, doutorava-se em Ciência Política pela Cornell University e, dois anos depois, em 1982, já a Universidade de Chicago o recebia como docente.
Foi com «Precision guided munitions and conventional deterrence», o seu artigo de 1979, que John J. Mearsheimer (o J. é de Joseph) abriu as «hostilidades», logo esboçando a hipótese de o paradigma realista da defensiva, da détente, da dissuasão internacional ser alterado pelo da ofensiva, a propósito daquelas armas estratégicas. Ainda antes de editar o livro Conventional Deterrence (cozinhado desde a Primavera de 1976), Mearsheimer publicou o artigo «Why the Soviets can’t win quickly in Central Europe» para deixar expresso que «o risco de provocar um ataque soviético, ao iniciar-se uma mobilização da NATO, não pode ser completamente posto de lado. Esse risco, contudo, deve ser sopesado face a outro bem maior, consistente em a NATO, ao não se mobilizar, perder a sua capacidade de defesa face a um ataque do Pacto» (p. 39). Eis, já claro, o que lhe interessava: um cenário Mearsheimeriano de novas confrontações mundiais entre grandes blocos.
Repita-se o ano: 1976, com ninguém, depois da crise de Cuba, a acreditar num completo desequilíbrio da Guerra Fria, apesar do constante armamento, nem sequer a prever uma derrocada do Império Soviético. Da parte do autor daquela diatribe, o importante é que ele ia consolidando a conceção com que iria perturbar o equilibrismo de Kenneth Waltz, a grande referência do estudo das relações internacionais que o precedeu.
Pelo pós-Guerra (como se isso existisse!) em diante, parecia que, por debaixo do arreganhar de dentes e do doentio colecionismo de armamento, as grandes potências jogavam um xadrez sem vontade de entornar o tabuleiro. Comparado com a actual panela de pressão, tudo parecia, como Bob Dylan cantou (you play with my world / like it’s your little toy), que os super powers brincavam com o nosso mundo assim mesmo, como se de um brinquedo se tratasse, mas sem querer estragar a brincadeira. Por muito trágico que tudo isso efetivamente fosse.
Por seu lado, em Conventional Deterrence (1983), Mearsheimer só estava preocupado em perceber «em que condições poderemos esperar que a dissuasão falhe» (p. 7)… e a bernarda rebente. A palavra vem n’Os Maias (ou não fossem Mearsheimer e Eça dois autênticos realistas!) e, naquela altura, John Joseph já visualizava para a cena mundial o que Queiroz tinha escrito: que «ao som do hino tocado em fagotes, descia a tropa de calça branca a fazer a bernarda!»
Kenneth Waltz era uma grande cabeça. Quando Mearsheimer começou a treinar, a Waltziana Theory of International Politics (1979) dominava o campo, inscrevendo, na fachada do estádio, o seu âmago: anarquia (traduza-se corretamente: inexistência de uma alta autoridade no sistema internacional). Antes de Waltz, mostrou-o Jack Donnelly (2015), nos livros da área (mais de 200, de 1895 a 2013), usava-se o termo em média 6,9 vezes. Depois de 1979, passou-se para 35,5 vezes. Esqueça-se, pois, na cena internacional, qualquer ânsia de uma entidade supranacional reguladora do jogo (estais a ver Guterres a resolver seja o que for?!). Já para nem falar na eventualidade de um unipoder planetário ser capaz de sustentar tudo isto. Anarquia (naquele sentido) passou a ser a palavra do momento,
Dado que «o nacionalismo é a mais poderosa ideologia política no planeta», Mearsheimer dixit, o que temos entre mãos são Estados com E grande (ou, pelo menos, mais ou menos grande), cada qual desconfiando do parceiro e querendo assegurar cada vez mais a sua própria segurança, capacidade e influência territorial. Contudo, a esperança de Waltz era a de que o grande joguinho bipolar de «o meu é maior do que o teu» acalmasse ímpetos belicistas. Eis o sonho da détente. É aí que aparece J. J., bem como a queda do Muro, o peso assimétrico dos USA, a incessante ascensão da China, globalização e abalos da globalização, os populismos nacionalistas, o reorgulho russo, a constante inquietação norte-americana e toda uma animação por muitas regiões e países. Como sempre, a mãe-de-todas-as-coisas, a realidade, veio baralhar as ideias. Mas não as de Mearsheimer.
(continua)
* Este texto é a primeira parte de três que a Líder publicará. Foi inicialmente escrito para integrar um livro que um conjunto de académicos portugueses entendeu editar sobre a atual situação internacional. Como, entretanto, esse projeto editorial fracassou, aqui fica como algo que oxalá seja útil para o conhecimento destas matérias.
Referências
Eça de Queiroz, Os Maias: Episódios da Vida Romântica, Porto, Livraria Internacional de Ernesto Chardron, Casa Editora Lugan & Genelioux Successores, dois volumes, 1888.
Jack Donnelly, «The discourse of anarchy in IR». International Theory, 7(3), 2015, pp. 393–425.
John J. Mearsheimer, «Precision‑guided munitions and conventional deterrence», Survival, XXI(2) (March-April 1979), pp. 68-76.
John J. Mearsheimer, «Why the Soviets can’t win quickly in Central Europe», International Security, 7(1), Summer 1982, pp. 3-39.
John J. Mearsheimer, Conventional Deterrence, Cornell University Press, Ithaca and London, 1983.
Kenneth Waltz, Theory of International Politics, New York, 1979, McGraw-Hill, 1979.
