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Leonor Wicke

A Liderança Invisível: porque a cultura da sua empresa perde sempre para o software

17 Abril, 2026 by Leonor Wicke

Alimentamos o mito de que as pessoas moldam o ambiente de trabalho. A verdade é o oposto: é o ecossistema que dita o comportamento. Pense num jardim com passeios desenhados em ângulos retos. Em poucos dias, surge na relva um carreiro de terra feito por quem corta caminho. O líder tradicional vê indisciplina; o líder invisível vê um erro de design. O caminho oficial não serve a realidade operacional.

Nas empresas, esse carreiro traduz-se no Shadow IT: a folha de Excel paralela ou o grupo de WhatsApp. Quando o sistema oficial exige mais atrito do que o valor que devolve, equipas competentes criam atalhos para sobreviver. Muitos processos exigem uma concentração heroica para não colapsarem. Quando falham, culpa-se o ‘erro humano’. Exigir perfeição individual para colmatar falhas estruturais não é gerir; é delegar na equipa a responsabilidade do sistema. A excelência nunca deve depender do heroísmo.

Isto leva-nos ao diagnóstico mais preguiçoso do mundo corporativo: «falhou a comunicação». Perante o caos entre departamentos, gastam-se orçamentos em manuais que ninguém lê. A verdade é mais dura: o problema não é comunicação; é parametrização. Se o ERP permite inserir encomendas sem validação de stock, a guerra entre Vendas e Logística é inevitável. Um workflow bem desenhado resolve num segundo o que horas de reunião nunca resolverão.

A cultura real não mora em manifestos de PowerPoint; está codificada no atrito diário das ferramentas. Se o sistema exige duas assinaturas a um sénior para comprar um consumível básico, a cultura não é de confiança – é de infantilização. Para auditar isto, aplico métricas como o ICE (Internal Coherence Efficiency), que isola o trabalho útil da burocracia, e o CRR (Cultural Resonance Ratio), que avalia a adesão voluntária da equipa.

Numa era digital dominada pela rapidez, o carisma é insuficiente. A operação exige um design sistémico infalível. O líder do século XXI atua como um arquiteto organizacional, cujo legado se mede pela fluidez da operação na sua ausência. Se quer preparar a sua empresa para o futuro, deixe a retórica na gaveta e audite os fluxos do seu ERP.

A verdadeira liderança não se discursa. Codifica-se.

Arquivado em:Opinião

Adoção de IA dispara nas empresas, mas falta de ‘governance’ trava crescimento

16 Abril, 2026 by Leonor Wicke

O relatório destaca que esta evolução exige uma transformação profunda, incluindo o redesenho de processos, modelos operacionais e sistemas de governance, para integrar eficazmente tecnologias autónomas.

Uso de IA cresce rapidamente nas empresas

O estudo levado a cabo pela Deloitte revela que 60% dos trabalhadores já utilizam ferramentas de IA autorizadas pelas suas organizações, um aumento de 50% face ao ano anterior.

Apesar desta aceleração, a maioria das empresas ainda se encontra numa fase intermédia, utilizando a IA sobretudo para aumentar a eficiência e automatizar tarefas, sem uma transformação estrutural completa.

Ainda assim, cerca de um terço das organizações considera que a IA já está a transformar significativamente o seu setor, enquanto a maioria espera impactos profundos nos próximos três anos.

Agentic AI ganha força, mas governance continua limitada

A chamada Agentic AI, sistemas autónomos capazes de tomar decisões, está a ganhar destaque, mas a maturidade das empresas nesta área ainda é reduzida.

Apenas 21% das organizações afirmam ter modelos de governance preparados para gerir estes sistemas, o que levanta desafios ao nível da regulação, controlo e utilização responsável.

Em Portugal, a adoção ainda é incipiente:

  • 40% das empresas não utilizam agentes autónomos;
  • 27% têm uma utilização mínima;
  • 27% reportam uso moderado.

Mesmo assim, quase metade das organizações portuguesas espera que esta tecnologia tenha impacto significativo nos próximos três anos.

IA soberana torna-se prioridade estratégica

A IA soberana, relacionada com o controlo e origem das tecnologias, está a ganhar relevância no planeamento estratégico das empresas. Cerca de 83% das organizações consideram este tema importante, sendo que quase metade o classifica como crítico.

A nível global, 77% das empresas já têm em conta o país de origem dos fornecedores de tecnologia, enquanto em Portugal apenas 27% consideram esse fator irrelevante.

Falta de talento trava integração da IA

Um dos principais obstáculos à adoção da inteligência artificial continua a ser a escassez de competências. O estudo indica que a maioria das empresas está a investir em formação, mas sem redesenhar os modelos de trabalho. Atualmente:

  • 84% das empresas não alteraram funções com base na IA;
  • Menos de metade ajustou estratégias de talento.

Ainda assim, espera-se uma forte automação nos próximos anos. Cerca de 36% das empresas antecipam que 10% dos empregos sejam totalmente automatizados no prazo de um ano, número que poderá subir para 82% em três anos.

Empresas ainda lutam para passar de pilotos à implementação

Apesar do aumento da experimentação, a transição de projetos-piloto para implementação real continua a ser um desafio.

Apenas 25% das organizações conseguiram colocar mais de 40% dos projetos de IA em produção, embora exista expectativa de aceleração nos próximos meses. A definição de uma estratégia clara é apontada como essencial para evitar a chamada ‘fadiga de pilotos’ e maximizar o valor da tecnologia.

IA ainda pouco usada para transformar modelos de negócio

Embora a IA já esteja a melhorar a produtividade, poucas empresas estão a utilizá-la para transformação profunda.

Apenas 34% dos líderes afirmam usar a IA para redefinir modelos de negócio, enquanto uma parte significativa admite uma utilização superficial, sem impacto estrutural. O estudo conclui que o verdadeiro potencial da inteligência artificial está na sua capacidade de gerar vantagem competitiva e inovação, exigindo uma abordagem estratégica e integrada.

Segundo Hervé Silva, Partner de AI & Data da Deloitte, as empresas estão num ponto crítico. «Estamos perante um momento decisivo em que a IA deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a integrar o núcleo das operações. A próxima fase será a implementação em escala, com foco na governance e na criação de valor a longo prazo», afirma.

Arquivado em:Notícias, Tecnologia

Empresas em Portugal são as mais pessimistas na Europa e antecipam queda de receitas em 2026

16 Abril, 2026 by Leonor Wicke

As informações constam do barómetro europeu da ERA Group, que aponta para um ambiente económico mais exigente e uma postura mais cautelosa por parte dos líderes empresariais.

O estudo, baseado num inquérito a mais de mil decisores empresariais, revela uma quebra significativa nas expectativas de crescimento. Apenas 39% das empresas em Portugal antecipam aumento de receitas, uma descida acentuada face aos 63% registados no ano anterior.

Ainda assim, os resultados mostram alguma resiliência. Mais de metade das organizações (57%) espera melhorar o EBITDA, embora este valor continue abaixo da média europeia, fixada nos 62%. Entre os setores mais confiantes destacam-se o retalho e a distribuição, a indústria e a saúde, que mantêm expectativas mais positivas quanto à evolução do negócio.

Contexto económico e geopolítico agrava incerteza

O ambiente económico tem contribuído para este cenário de maior prudência. As empresas enfrentam um conjunto de pressões acumuladas, desde prejuízos estimados em cerca de dois mil milhões de euros associados a fenómenos meteorológicos no início do ano, até aos efeitos persistentes da inflação e à escalada do conflito no Médio Oriente.

Este contexto tem levado os executivos a adotarem estratégias mais cautelosas, privilegiando estabilidade e controlo em detrimento de uma expansão mais agressiva.

Eficiência e tecnologia lideram estratégia das empresas

Em vez de apostar numa expansão generalizada, as empresas estão a seguir uma abordagem mais seletiva e estruturada. O foco recai na eficiência operacional, na inovação e na capacidade de adaptação a um ambiente mais volátil.

A otimização de custos surge como prioridade central, acompanhada pelo investimento em tecnologia, nomeadamente inteligência artificial e pela integração de práticas mais sustentáveis. Esta combinação reflete uma mudança na forma como as empresas procuram gerar valor, com maior atenção ao curto prazo sem perder de vista a transformação estrutural.

Custos tecnológicos e falta de talento continuam a travar resultados

Apesar da aposta na inovação, o aumento dos custos tecnológicos surge como um dos principais obstáculos. Cerca de 40% dos decisores identificam este fator como crítico para o desempenho das empresas, um valor significativamente acima da média europeia.

A escassez de mão-de-obra qualificada mantém-se igualmente como um desafio relevante, apontado por 37% dos inquiridos, reforçando as dificuldades na atração e retenção de talento num mercado cada vez mais competitivo.

Empresas portuguesas mais céticas face ao comércio internacional

A incerteza geopolítica também se reflete na perceção sobre o comércio global. Portugal surge como o país mais cético face às tarifas impostas pelos Estados Unidos, com 34% dos líderes a antecipar um impacto negativo nos seus negócios.

Perante este cenário, muitas empresas, sobretudo de menor dimensão, estão a adotar estratégias mais conservadoras, com foco na sustentabilidade e na rentabilidade imediata.

Investimento foca-se na competitividade e adaptação

Para enfrentar os desafios, as empresas estão a direcionar os seus investimentos para áreas com impacto direto na competitividade. A sustentabilidade operacional e as áreas de vendas e marketing surgem como prioridades, acompanhadas por iniciativas de diversificação de produtos, reforço da cadeia de fornecimento e melhoria da experiência do cliente.

Estas estratégias refletem uma adaptação ao novo contexto económico, onde a resiliência e a capacidade de resposta rápida são determinantes para garantir crescimento.

«O cenário atual exige uma liderança de custos mais estruturada e prioritária», afirma João Costa, country manager da ERA Group, sublinhando que as empresas mais resilientes serão aquelas capazes de transformar eficiência em capacidade de reinvestimento e adaptação.

Arquivado em:Nacional, Notícias

A normalização do desvio: o veneno silencioso que corrói a liderança

16 Abril, 2026 by Leonor Wicke

Como especialista que analisa a sinistralidade e o risco há quase duas décadas, observo este fenómeno com a crueza de quem olha para um rasto de sangue num corredor limpo. São líderes que, sem perceberem, começam a aceitar pequenos desvios como se fossem a respiração natural do negócio. Um procedimento de segurança ignorado para cumprir um prazo, uma regra contornada ‘só desta vez’, um sinal de exaustão no olhar de um trabalhador que é lido apenas como o cansaço cinzento de uma terça-feira. Habituamo-nos ao perigo como nos habituamos ao barulho de um motor velho; até que o silêncio da paragem nos ensurdece.

 

A solidão das métricas

O grande perigo para um gestor não é o risco que ele vê, mas o desvio que ele domesticou. Existe uma solidão terrível nos gabinetes de topo, onde o cheiro a papel e a café frio disfarça o odor a metal cansado e a suor das equipas. O líder acredita na imunidade das suas tabelas de Excel, ignorando que o risco real não cabe nos interstícios de uma célula de Excel. Ele gere uma miragem de conformidade, enquanto no ‘chão de fábrica’, ou nos labirintos do open space, a cultura da sobrevivência vai esquartejando a segurança em nome de um KPI que não tem rosto nem alma.

A prevenção de riscos hoje não pode ser entregue à burocracia das checklists que apenas servem para adormecer a consciência dos inspetores. Exige uma liderança com um ‘olhar clínico’, capaz de detetar o tremor nas mãos da organização. Onde existe pressão desenfreada, o desvio será sempre o caminho de menor resistência. Se a cultura organizacional recompensa o atalho e castiga a cautela, o líder não tem uma equipa; tem uma sucessão de acidentes à espera de um calendário.

 

A coragem de ver o invisível

A verdadeira resiliência de uma empresa não se mede pelo brilho dos certificados na parede, mas pela coragem de questionar a ‘normalidade’ do erro. É tempo de deixarmos de ser fiscais de formulários para passarmos a líderes da realidade, em vez de gestores da aparência. Um líder que não entende a sociologia da sua própria estrutura é um cego a conduzir um navio de carga em águas minadas.

A proteção do ativo humano exige que baixemos a guarda da blindagem institucional. É preciso ouvir o que não é dito nas reuniões, ler as entrelinhas do cansaço e entender que a saúde de quem produz é o único balanço que não admite fraudes. Porque a normalização do desvio é um cheque em branco que a liderança assina hoje, com a tinta da arrogância, para ser cobrado amanhã pela tragédia do inevitável.

Arquivado em:Opinião

Crescimento económico de Portugal fica abaixo das previsões do Governo para 2026

15 Abril, 2026 by Leonor Wicke

Para 2027, a instituição antecipa que a economia portuguesa cresça 1,8%, segundo a mais recente atualização do relatório World Economic Outlook (WEO).

Conflito no Médio Oriente trava crescimento económico global

O FMI sublinha que a revisão em baixa das previsões resulta, em grande medida, da escalada do conflito no Médio Oriente, que está a gerar incerteza e pressão sobre os mercados, nomeadamente através do aumento dos preços da energia.

Segundo o relatório, sem este fator geopolítico, as previsões globais poderiam ter sido revistas em alta. Em vez disso, o crescimento mundial deverá situar-se nos 3,1% em 2026 e 3,2% em 2027, abaixo do ritmo registado em 2024 e 2025, quando a economia global cresceu cerca de 3,4%.

Zona euro abranda com impacto da energia e da guerra

Também a zona euro deverá registar um abrandamento económico. O FMI prevê um crescimento de 1,1% em 2026 e de 1,2% em 2027, valores que representam revisões em baixa de 0,2 pontos percentuais face às estimativas anteriores.

De acordo com a instituição, o impacto negativo do conflito no Médio Oriente deverá anular os sinais positivos observados no final de 2025. A este cenário juntam-se os efeitos persistentes da subida dos preços da energia desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, bem como a valorização do euro, que continua a pressionar a competitividade das exportações europeias.

Alemanha, França e Itália com crescimento moderado

As principais economias da zona euro deverão apresentar crescimentos moderados em 2026. O FMI estima que:

  • A Alemanha cresça 0,8%;
  • A França avance 0,9%;
  • A Itália registe um crescimento de 0,5%.

Estes números refletem um contexto europeu de recuperação lenta, condicionado por fatores externos e estruturais.

Inflação global volta a subir em 2026

Além do crescimento económico, o FMI alerta também para a evolução da inflação. A nível global, os preços deverão aumentar para 4,4% em 2026, antes de desacelerarem para 3,7% em 2027.

No entanto, o organismo admite cenários mais adversos. Caso o conflito no Médio Oriente se prolongue ou intensifique, o impacto nos preços da energia poderá levar a uma inflação mais elevada e a um crescimento mais fraco.

Num cenário de maior instabilidade, o crescimento global poderá cair para 2,5% em 2026, enquanto a inflação poderá atingir 5,4%. Num cenário mais grave, com danos significativos nas infraestruturas energéticas, a economia mundial poderá crescer apenas cerca de 2%, com inflação acima dos 6%.

Portugal enfrenta contexto mais exigente

As previsões do FMI colocam Portugal num contexto de maior prudência económica, com crescimento mais moderado e dependente da evolução do cenário internacional.

O impacto da geopolítica, da inflação e da evolução dos mercados energéticos deverá continuar a condicionar o desempenho da economia portuguesa nos próximos anos.

Arquivado em:Economia, Notícias

Hotéis ajudam a retirar 16 toneladas de plástico do Mediterrâneo com projeto sustentável

15 Abril, 2026 by Leonor Wicke

A lógica é simples: por cada hóspede que abdica da limpeza diária do quarto, é retirado 1 kg de plástico do oceano. A ação transforma uma decisão individual num impacto ambiental direto, envolvendo turistas e hotéis numa estratégia de sustentabilidade mensurável.

Turismo sustentável com impacto direto no ambiente

O projeto assenta na participação ativa dos hóspedes. Ao optarem por não solicitar a limpeza do quarto, contribuem automaticamente para a recolha de resíduos plásticos no Mediterrâneo.

A equipa de housekeeping regista os quartos participantes e os hóspedes recebem uma confirmação, com acesso a uma plataforma onde podem acompanhar, em tempo real, o impacto da sua escolha.

Segundo a ECO-ONE, esta abordagem pretende tornar as estratégias de sustentabilidade mais visíveis, concretas e mensuráveis, respondendo a um perfil de turista cada vez mais consciente.

Parceria entre empresas e pescadores para reciclar plástico

O plástico é recolhido por pescadores e portos de pesca em diferentes pontos do Mediterrâneo. Posteriormente, os resíduos são transportados para terra, separados e reciclados sempre que possível.

A matéria-prima resultante é utilizada para produzir novos objetos, incluindo mobiliário e produtos reutilizáveis para hotéis, como bases para copos.

A Gravity Wave, criada em 2019, tem como missão envolver empresas e comunidades piscatórias na remoção de plástico do mar e na sua valorização através da economia circular.

Hotéis e hóspedes no centro da sustentabilidade

Para Carlos Fluixá, CEO e cofundador da ECO-ONE, o envolvimento dos turistas é essencial para o sucesso da iniciativa. «É fundamental que os hóspedes percebam que a sua participação tem impacto real. Este projeto permite-lhes acompanhar o resultado das suas decisões e assumir um papel ativo na sustentabilidade dos hotéis», afirma.

Já Álvaro García Artiñano, responsável de alianças da Gravity Wave, destaca o potencial de expansão do modelo, sublinhando que a iniciativa é facilmente replicável em hotéis a nível global e não implica custos operacionais significativos.

Projeto já envolve grupos hoteleiros internacionais

Vários grupos hoteleiros internacionais, como Port Hotels e Magic Hotel Group, já aderiram ao projeto, reforçando um compromisso com práticas mais sustentáveis.

A ECO-ONE, que conta com financiamento do fundo português 3XP Global, abriu recentemente uma sede em Portugal, juntando-se às operações já existentes em Espanha e França. Atualmente, a empresa trabalha com mais de 2.300 hotéis.

Arquivado em:Internacional, Notícias

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