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Leonor Wicke

Num mundo polarizado, que papel tem a fé?

27 Janeiro, 2026 by Leonor Wicke

A propósito do Dia Mundial da Religião, assinalado a 21 de janeiro, a Líder reuniu testemunhos de vozes de três credos: islão, catolicismo e budismo. Cada uma sintetiza o papel da fé num mundo em guerra, a legitimidade da dúvida, o sentido da pertença religiosa e aquilo que, no essencial, a fé continua a oferecer às sociedades contemporâneas.

 

Nelson Faria, Jesuíta, Editor-geral do Ponto SJ

Vivemos um contexto geopolítico complexo e cada vez mais bélico. Que papel tem a religião na resolução destes conflitos?

As religiões são muitas vezes manipuladas de forma a justificar perseguições que servem interesses políticos. Aqueles que seguem Cristo devem assumir, sem reservas, a sua vocação como agentes de reconciliação, promotores da paz e construtores de pontes entre os desavindos.

 

Nestes tempos, é legítimo interrogar a presença de Deus?

Na visão católica, Deus não se impõe à vontade da pessoa. O mal moral tem a sua fonte na liberdade do ser humano e cabe a cada um dos católicos ser sensível à forma como Deus se manifesta e habita situações de desespero e nos chama a ser luz e fonte de esperança.

 

A Igreja tem receio de perder fiéis?

O único receio que a Igreja deve ter é não ser fiel ao Evangelho, ao anúncio de uma confiança e alegria que ultrapassam todas as expetativas, que tem a sua base na nossa identidade profunda como filhos queridos e amados de Deus. Quem vive pelos números, acabará sempre por se encerrar nos becos sem saída da autossuficiência. A pergunta-chave, em cada momento, é: «Senhor, onde queres que eu vá? Seguindo-te, sei que não me perderei». É esta liberdade para o seguimento de Jesus que deve ocupar o coração do crente.

 

Essencialmente, para que serve a fé? 

A fé, tal como tudo o que realmente interessa, como a música, a amizade, a literatura, o amor e todas as demais dimensões relacionais, não é uma coisa mais que está ao nosso dispor, uma ferramenta ou instrumento que se mede pela sua utilidade. A fé não serve para nada, a fé serve; não tem utilidade, nem recompensa, é um caminho reconhecido e verdade acolhida.

A fé liberta-se da nossa imaginação, do nosso próprio amor, querer e interesse, e coloca-nos em movimento para o que realmente importa: dar vida, dando a própria vida.

 

Comunidade Islâmica de Lisboa

Vivemos um contexto geopolítico complexo e cada vez mais bélico. Que papel tem a religião na resolução destes conflitos?

As religiões foram reveladas para os humanos criarem uma ligação com o Criador. E também ter uma relação humana como seres humanos. Infelizmente, alguns querem impor aos outros as suas ideologias, usando a força para dominarem o seu próximo.

O papel das religiões é muito importante na resolução dos conflitos porque, perante o Criador, todos nós somos iguais. Todos nós temos que respeitar e ser respeitados.

 

Nestes tempos, é legítimo interrogar a presença de um deus?

Quando o ser humano tem dúvidas é legitimo interrogar a presença de Deus. E Deus deu-nos vários sinais até chegarmos a Ele. Basta estar atento a esses sinais.

 

O islão tem receio de perder fiéis?

Não, o Islão não tem esse receio. O Islão não precisa de muçulmanos, os muçulmanos é que precisam do islão.

 

Essencialmente, para que serve a fé?

A fé serve para dialogarmos com Deus, e evoluirmos espiritualmente. Há momentos em que a nossa fé fica um pouco abalada, mas também há momentos em que a nossa fé cresce e evolui.

 

Paulo Borges, Cofundador e ex-presidente da União Budista Portuguesa

Vivemos um contexto geopolítico complexo e cada vez mais bélico. Que papel tem a religião na resolução destes conflitos?

A religião tem um papel fundamental a desempenhar na resolução dos graves conflitos e desafios contemporâneos se os responsáveis e seguidores das várias tradições religiosas e espirituais as puserem efectivamente em prática, de acordo com os exemplos e ensinamentos deixados pelos seus fundadores e pelos mestres, sábios e santos que os continuaram até hoje.

Se os praticantes religiosos deixarem que a sua religião transforme profundamente as suas mentes e corações, conectando-os com uma dimensão mais vasta do ser e da consciência, que diminua o sentimento de separação entre si e os outros, sem a reduzirem a uma adesão meramente social, intelectual ou dogmática, a religião fará sempre parte da solução e não do problema. Se isto não acontecer, todavia, a insuficiente compreensão e prática dos caminhos espirituais apontados pelas religiões do mundo leva a que elas sejam facilmente desvirtuadas e instrumentalizadas pelos poderes geopolíticos e económicos, tornando-se parte do problema e não da solução.

A resolução dos conflitos externos implica uma pacificação interna dos vários agentes e protagonistas, que somos todos nós. Isso passa, segundo Sua Santidade, o XIV Dalai Lama, pelo desarmamento interior, o que em termos budistas supõe a renúncia à ignorância, a percepção dualista da realidade, que estabelece uma fictícia separação entre eu e outro, nós e eles, bem como aos consequentes apego e aversão. São estas forças mentais e emocionais que, em primeira e última instância, estão na raiz do sofrimento humano e de todos os conflitos, à escala individual, social e civilizacional.

 

Nestes tempos, é legítimo questionar a presença de um ou vários deuses?

Hoje em dia, tal como em todos os tempos, existe uma grande diversidade de possibilidades e propensões mentais nos seres humanos, o que se traduz numa enorme variedade de interesses, inclinações e necessidades espirituais e religiosas, bem como de visões filosóficas acerca da natureza da realidade e do sentido da vida. Daí decorre o surgimento de diferentes tradições, teístas e não teístas, centradas ou não na existência de Deus ou de deuses, sendo o budismo exemplo de uma tradição não teísta, que, em vez de se focar na questão de Deus ou dos deuses, explora o infinito potencial da mente para se libertar do sofrimento que causa a si mesma.

As diferentes formas de crença num ou mais deuses, ou a confiança no ilimitado potencial da mente, constituem o rico património espiritual da humanidade, que deve ser cultivado num espírito de diálogo, compreensão e tolerância mútua, para o bem de todos.

Verifica-se que, nas diversas tradições religiosas, o treino ético é basicamente o mesmo ou muito semelhante e convergente, no sentido de haver valores e práticas transversais, como o cultivo do amor e da compaixão, do contentamento e da paciência e da renúncia às emoções perturbadoras e ao apego aos bens mundanos e efémeros, entre outros. No que respeita às mais elevadas aspirações de cada religião para os seus seguidores, a ênfase é que sejam bons seres humanos, para si próprios e para os outros (incluindo as formas de vida não-humana), valores que são essenciais para a sociedade em geral e para a preservação da harmonia ecológica.

 

O budismo tem receio de perder fiéis?

Como sustenta Sua Santidade o Dalai Lama, o objetivo do budismo não é que as pessoas sejam budistas, mas sim que sejam felizes. O budismo não é proselitista, não se esforça por converter pessoas, embora naturalmente esteja fortemente disponível e motivado para inspirar as pessoas pelo exemplo de uma prática espiritual autêntica e para divulgar e partilhar os ensinamentos do Buda com todos aqueles que neles estiverem interessados, do modo mais adequado a cada um. Isto assume-se como um exercício de compaixão, que contribua para a libertação do sofrimento e para a realização de todo o potencial espiritual dos seres humanos.

Neste sentido, se forem coerentes com os seus princípios, os responsáveis e as comunidades budistas não têm receio de perder seguidores, porque não têm a insegurança inerente à expectativa de os ter, que pode ser sinal de preocupações mundanas com o poder, a riqueza e o prestígio. O receio que um praticante budista pode legitimamente sentir é de não praticar autenticamente a via do Buda e assim deixar de ser benéfico e inspirador para os outros seres humanos.

 

Essencialmente, para que serve a fé?

Na tradição budista, o caminho espiritual apoia-se tanto na fé como na razão. A fé, entendida como uma confiança que vem da compreensão e da experiência, deve estar assente na razão e na sabedoria. Nesse sentido, o Buda referiu que os seus ensinamentos não deveriam ser aceites numa atitude de fé cega, mas que deveriam ser questionados, investigados e postos à prova da razão e da experiência, tal como um ourives testa com rigor a qualidade do ouro antes de o começar a trabalhar.

Assim, como referimos, a própria palavra ‘fé’ designa uma confiança adquirida a partir de uma investigação, que nasce da escuta e estudo dos ensinamentos budistas, que se aprofunda na reflexão sobre eles e que se confirma em pô-los em prática em termos meditativos e éticos. A partir daí, esta fé ou confiança converte-se numa fé e confiança nos próprios recursos internos do praticante, na sua capacidade de consciência, amor, compaixão e sabedoria, nas qualidades inatas da sua própria natureza de Buda. A fé/confiança no Buda (a consciência desperta que é a essência de todos nós), no Dharma (a sabedoria dos seus ensinamentos) e na Sangha (a comunidade dos que os praticam compassivamente) converte-se num refúgio inabalável pelas dúvidas, hesitações e oscilações da mente conceptual e emocional.

A tradição budista aponta três tipos de fé: o primeiro surge sob a forma de admiração ou devoção (por exemplo, pelos exemplos de vida dos grandes mestres e praticantes); o segundo é a fé como aspiração, a aspiração a tornar-nos Budas, seres despertos, para ajudarmos todos os seres a chegarem ao mesmo estado; o terceiro é a fé confiante, uma convicção interior na possibilidade do progresso espiritual e do Despertar que gera uma transformação profunda.

Deste modo, a fé/confiança é considerada um dos principais pilares do caminho budista que tem como finalidade a libertação completa do sofrimento, só possível pela dissipação dos véus mentais e emocionais que impedem o reconhecimento da nossa natureza autêntica e a manifestação de todas as suas qualidades, o que nesta tradição se designa como estado de Buda.

Arquivado em:Cultura e Lifestyle, Notícias

Portugueses são os que mais valorizam o trabalho híbrido na Europa

27 Janeiro, 2026 by Leonor Wicke

Os resultados constam de um estudo desenvolvido pela MARCO, que revela as principais conclusões da terceira vaga do seu Relatório Global de Consumo, com foco no crescimento e adoção do trabalho híbrido.

O estudo, que contou com a participação de 4,500 participantes de sete países (Portugal, Espanha, França, Itália, Alemanha, México e Brasil), analisa a evolução do trabalho híbrido enquanto tendência global, as preferências dos trabalhadores e o impacto destes modelos na cultura organizacional.

 

Flexibilidade no topo das escolhas dos trabalhadores portugueses

A preferência pelo trabalho híbrido continua a crescer. Portugal lidera na preferência pelo trabalho híbrido e remoto, com 79% dos inquiridos a colocar estes modelos no topo das suas escolhas, um crescimento de 9% em relação a 2024, e um resultado acima da média global de 70%.

Estes resultados evidenciam a crescente importância da flexibilidade no mercado de trabalho nacional e reforçam a necessidade das organizações se adaptarem às expectativas dos colaboradores, integrando modelos capazes de responder às motivações pessoais e profissionais.

Ainda assim, enquanto o trabalho exclusivamente presencial perde popularidade entre os portugueses, países como França e Alemanha valorizam mais a presença no escritório, evidenciando diferenças nas dinâmicas do trabalho entre os países europeus.

Imagem 1. Qual é a sua preferência entre trabalho remoto e trabalho presencial?

 

«O futuro do trabalho pertence às organizações que colocam as pessoas no centro. O talento é cada vez mais atraído por ambientes onde a flexibilidade, o propósito e oportunidades de crescimento caminham lado a lado. Ao investir no desenvolvimento dos seus colaboradores e ao promover relações baseadas na confiança, as empresas não só atraem os melhores profissionais, como também potenciam todo o seu valor», conclui Carlos García, Diretor de Comunicação Interna da MARCO.

 

Perceção do impacto do trabalho híbrido nas relações entre colaboradores

A crescente procura e implementação do trabalho híbrido levanta questões relativamente às relações interpessoais e à identificação com a cultura organizacional. Sobre este tema, o relatório demonstra ainda que 67% dos inquiridos a nível mundial acredita que este modelo não prejudica a relação com colegas nem o alinhamento com a cultura da empresa.

Em Portugal, esta perceção é ainda mais evidente: 74% dos inquiridos afirmam que o regime híbrido não compromete as relações com colegas ou o envolvimento com a empresa, demonstrando que a proximidade profissional não depende apenas da presença física no escritório, mas sim de fatores como a liderança, o propósito e a possibilidade de crescimento.

Imagem 2. Considera que o trabalho híbrido afeta negativamente a conexão com colegas ou com a cultura da empresa?

 

Arquivado em:Notícias, Trabalho

O fim dos jornais

26 Janeiro, 2026 by Leonor Wicke

Compreendo. Há outros meios de informação que não são em papel e por isso não são jornais. Ultimamente, tem sido discutido o problema da distribuição no interior. Mas a verdade é que se o problema existe, ele decorre em primeiro lugar do facto de as pessoas não os comprarem. Porque parámos de comprar jornais?

Porque há novos media, nomeadamente os servidos no smartphone. O telemóvel tornou-se um vício. Quantas pessoas vemos a ler um jornal, uma revista ou um livro num local público? E a olhar para o ecrã? Por outro lado, os jornais têm a sua culpa. Eu, que continuo a comprar, compro com cada vez menos gosto.

Tenho saudades dos tempos em que os jornais eram feitos por jornalistas e não por ativistas. Em que os líderes de partidos não tinham colunas à disposição. Em que havia suplementos culturais que nos educavam o gosto. Em que aprendíamos a escrever com Vasco Pulido Valente, António Mega Ferreira, Vicente Jorge Silva, Augusto Seabra, José Quitério. Em que o DN estava na Avenida da Liberdade e tinha o Nuno Galopim e o Pedro Rolo Duarte. Em que o Independente era uma guloseima mental.

É evidente que continuamos a ter nomes à altura. Mas os jornais pioraram. Tomam partido por vezes descarada mas não assumidamente. Dão notícias sem interesse. Adoram o pequeno escândalo, metendo o salário de um político ou um fait divers da treta. São previsíveis. Magrinhos mesmo ao fim de semana. Não dão estilo a quem os leva. Assim não vamos lá. A culpa não é só dos jornais, mas é muito dos jornais.

Arquivado em:Leading Opinion, Opinião

O que preocupa o mundo? Crime, inflação e desigualdade lideram as inquietações globais

26 Janeiro, 2026 by Leonor Wicke

De acordo com o estudo What Worries the World – December 2025, que analisa perceções em 30 países, 59% da população considera que o seu país está a seguir o caminho errado, contra apenas 41% que acredita estar na direção certa.

Apesar de uma ligeira melhoria face ao ano anterior, o sentimento global continua marcado pela incerteza. A análise mostra ainda que, embora quatro em cada dez pessoas descrevam a situação económica do seu país como ‘boa’, esse valor permanece distante de uma perceção generalizada de estabilidade, sobretudo nas grandes economias europeias.

 

No caminho certo?

Em 30 países, a proporção que afirma que o seu país está «no caminho certo» aumentou 4 pontos percentuais para dois quintos (41%) desde dezembro passado. Em dezembro de 2024, 22 dos 29 países tinham uma maioria que afirmava que o seu país estava a seguir na direção errada. Em dezembro de 2025, 23 dos 30 países têm uma maioria que acredita no mesmo.

A Irlanda foi adicionada ao inquérito durante 2025, pelo que agora cobrimos mais um país. A Coreia do Sul passou para o campo da «direção certa» e o México para o campo da «direção errada» ao longo do ano. França está à frente quando se trata de ser a nação mais pessimista; em setembro, registou a pontuação mais baixa em 10 anos na direção certa, com 9%. Em dezembro estava em 10%.

 

Crime e violência no topo das preocupações globais

Pela quinta vez consecutiva, crime e violência surgem como a principal preocupação mundial, mencionada por 32% dos inquiridos.

Apesar de uma ligeira descida face ao mês anterior, o tema mantém-se no topo, refletindo uma tendência de longo prazo agravada por instabilidade social, conflitos internos e perceções crescentes de insegurança urbana.

Países como Peru, México, Suécia, Chile e Brasil apresentam níveis particularmente elevados de preocupação, enquanto na Europa Ocidental se registam subidas expressivas face a 2024, nomeadamente na Alemanha, Itália e França.

Inflação estabiliza, mas continua a pressionar famílias

A inflação é a segunda maior preocupação global, referida por 30% da população. Embora os níveis tenham estabilizado ao longo de 2025, o impacto acumulado da subida do custo de vida continua a afetar o poder de compra e a confiança das famílias.

Em economias como a Índia, Canadá e Estados Unidos, a inflação mantém-se entre os principais fatores de ansiedade económica. O relatório sublinha que, mesmo com sinais de desaceleração, os efeitos psicológicos e sociais da inflação persistem.

Desigualdade social e desemprego mantêm-se estruturais

A pobreza e desigualdade social ocupam o terceiro lugar das preocupações globais (28%), seguidas de perto pelo desemprego, também com 28%. Estes dois indicadores revelam problemas estruturais que atravessam geografias e modelos económicos distintos.

Na África do Sul, por exemplo, o desemprego atinge níveis historicamente elevados de preocupação, enquanto na Europa cresce a perceção de desigualdade como fator de instabilidade social e política.

Saúde, imigração e clima descem na hierarquia

Apesar de continuarem presentes, a saúde (23%) e a imigração (18%) perderam relevância face a picos registados durante a pandemia e crises migratórias recentes. Já as alterações climáticas descem para 13%, o valor mais baixo em mais de quatro anos, ainda que eventos extremos na Ásia tenham provocado subidas pontuais em países como Tailândia e Malásia.

Um mundo economicamente frágil e politicamente tenso

O relatório da Ipsos traça o retrato de um mundo em que a recuperação económica não é suficiente para restaurar a confiança. Mesmo em países onde os indicadores macroeconómicos melhoraram, o sentimento coletivo permanece marcado por insegurança, desigualdade e perceção de perda de controlo.

Mais do que crises pontuais, os dados revelam um mal-estar estrutural, em que economia, segurança e coesão social se cruzam como desafios centrais para governos e líderes em 2026.

Arquivado em:Notícias, Sociedade

Café, chá, cacau e especiarias: volume de negócios sobe 17%

26 Janeiro, 2026 by Leonor Wicke

Num setor onde a maioria das empresas opera com um risco médio de incumprimento, a Iberinform verifica que o período económico de 2024 tem bastantes fatores positivos a registar. De acordo com os dados do Insight View, o setor registou um aumento de 17% na faturação face ao ano anterior, reforçando a tendência positiva já observada no exercício anterior, quando o crescimento foi de cerca de 8%.

A análise mostra uma forte concentração nos grandes centros urbanos: Lisboa lidera com 23%, seguida do Porto (15%), Braga (7%), Setúbal (7%) e Faro (6%).

 

Empresas jovens são as que mais prosperam

Outro dado relevante é a juventude do setor. 40% das empresas foram constituídas nos últimos cinco anos, revelando dinamismo e renovação. 25% têm entre seis e dez anos, outras 25% entre 11 e 15 anos, enquanto apenas 4% operam há 16 a 25 anos e 6% estão no mercado há mais de 25 anos.

Quanto ao risco, o cenário é equilibrado: 16% das empresas apresentam baixo risco, 71% situam-se em risco médio, 12% em risco elevado e apenas 1% enfrenta risco máximo, o que reforça a confiança no setor.

A estrutura empresarial é dominada por microempresas (85%) e pequenas empresas (12%), que representam 97% do total. As médias empresas somam 2% e as grandes apenas 1%.

 

Os prazos médios de pagamento e de recebimento mostram sinais de melhoria

Embora de uma forma algo tímida, são registadas melhorias, tanto no prazo médio de pagamento como no prazo médio de recebimento, que respetivamente, passam para 96 e 97 dias, com uma redução de um dia em cada face ao período económico anterior. Estes indicadores sugerem que tanto os produtores de café e chá quanto os grossistas de café, chá, cacau e especiarias possuem alguma estabilidade na gestão do fluxo de caixa, o que reduz o risco percebido para clientes e fornecedores.

Embora o volume de negócios tenha tido, globalmente, um aumento superior a 17% face a 2023, vemos que a taxa de exportação baixou no mesmo período. Isto demonstra um aumento no consumo interno dos produtos destas empresas e, em simultâneo, um aumento na valorização dos mesmos.

Arquivado em:Economia, Notícias

Mais de 90% dos professores defendem um ensino de inglês mais inclusivo, digital e ligado à vida real

26 Janeiro, 2026 by Leonor Wicke

Segundo este novo relatório do British Council, mais de 90% dos profissionais da educação considera essencial adotar práticas inclusivas, desenvolver competências digitais e preparar os alunos para contextos reais e diversos, para além do domínio da língua.

O estudo, elaborado pelos investigadores Gary Motteram e Susan Dawson, sintetiza dez anos de mudanças significativas no setor educativo e chega a uma conclusão clara: ensinar inglês já não é apenas ensinar uma língua, mas formar cidadãos globais, críticos, resilientes e plurilingues.

As mudanças observadas estão a redefinir as necessidades de desenvolvimento profissional dos docentes e baseiam a atualização de um elemento central da abordagem do British Council: o Quadro de Desenvolvimento Profissional Contínuo (DPC) para professores.

«Hoje, não existe um único caminho válido para ensinar inglês. É essencial ter em conta o contexto, as pessoas e uma realidade em permanente transformação», afirma Ruth Horsfall, responsável por Teaching Excellence do British Council para a Europa e América. «Num mundo globalizado, diverso e cada vez mais digital, o inglês torna-se uma ponte. Não apenas entre línguas, mas entre culturas, experiências e identidades», acrescenta.

 

Do inglês como disciplina a ferramenta de mudança

Durante muitos anos, aprender inglês foi sinónimo de gramática, listas de vocabulário e pronúncia britânica. Atualmente, porém, o paradigma mudou. Nas salas de aula contemporâneas – também em Portugal – o inglês já não é ensinado apenas como língua estrangeira, mas como língua para a aprendizagem de outras disciplinas, como ciências ou história. Paralelamente, abandona-se o ideal do falante nativo, reconhecendo a legitimidade de docentes e alunos plurilingues.

Neste contexto, a sala de aula é cada vez mais entendida como um espaço de diversidade, inclusão e consciência social. Integram-se abordagens pedagógicas críticas (antirracistas, LGBT+, decoloniais), presta-se atenção ao impacto do trauma pós-pandemia e dá-se prioridade à saúde mental. Não se trata apenas de ensinar estruturas linguísticas, mas de cultivar identidades e construir comunidades.

 

O ensino está cada vez mais ligado à vida real

O relatório sublinha que o ensino do inglês não pode ser dissociado do contexto: ensinar numa zona rural, numa cidade multicultural ou numa escola com elevada percentagem de alunos migrantes implica realidades muito distintas. Por isso, a personalização e a adaptação ao contexto local tornaram-se elementos centrais.

A partir deste ponto, o ensino do inglês alarga também o seu alcance ao desenvolvimento das chamadas novas literacias, entendidas como competências essenciais para atuar eficazmente em contextos sociais, culturais e profissionais diversos, indo além do mero domínio linguístico.

Independentemente do contexto local, os alunos precisam de desenvolver competências-chave para um mundo globalizado, como a literacia digital, o pensamento crítico, a colaboração intercultural e a mediação. Para esse efeito, o ensino do inglês integra não só ferramentas tecnológicas, como a inteligência artificial, a realidade aumentada ou modelos de aprendizagem híbrida, mas também estratégias pedagógicas e metodologias que promovem o desenvolvimento transversal e contextualizado destas competências.

 

O novo papel do professor deve ir além do conteúdo

A figura do docente enquadra-se num modelo já consolidado que o posiciona como facilitador, orientador e acompanhante do processo de aprendizagem, superando uma abordagem centrada exclusivamente na transmissão de conteúdos. Embora esta perspetiva colaborativa e prática não seja nova, o relatório sublinha a necessidade de reforçar a sua implementação nos sistemas educativos atuais.

Neste sentido, a formação docente é entendida como um processo contínuo, situado na prática quotidiana e assente na colaboração, no qual ganham particular relevância a autoformação, as comunidades de prática e a investigação-ação em contexto de sala de aula.

O relatório alerta ainda para o facto de a formação inicial de professores continuar a ficar aquém das necessidades atuais. Temas fundamentais como a inteligência artificial ou abordagens educativas inclusivas e críticas têm ainda uma presença limitada nos programas de formação.

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