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Leonor Wicke

Criar valor num país adverso

21 Janeiro, 2026 by Leonor Wicke

Num país adverso, a tentação é culpar o sistema. E, muitas vezes, com razão. Mas líderes que ficam presos à queixa raramente criam valor. Os que conseguem fazê-lo são aqueles que aceitam o contexto como dado de partida e concentram energia no que controlam: execução, pessoas e foco no cliente.

Criar valor começa por uma obsessão quase desconfortável com eficiência. Em ambientes difíceis, o desperdício custa mais caro. Processos confusos, decisões adiadas e reuniões improdutivas tornam-se luxos que ninguém pode pagar. Empresas que criam valor nestes contextos são implacáveis a eliminar ruído e a concentrar recursos no essencial. O segundo pilar é a liderança de pessoas. Países adversos tendem a perder talento, o que torna ainda mais crítico cuidar bem de quem fica. Isso não significa baixar exigência – significa o contrário.

As melhores equipas são construídas com padrões claros, responsabilidade individual e reconhecimento justo. Talento não se retém com discursos, retém-se com contexto, desafio e sentido. Há também uma característica comum às empresas que prosperam em contextos difíceis: foco absoluto no cliente. Quando o ambiente externo é hostil, o cliente torna-se o único árbitro real do valor criado. Tudo o que não melhora a experiência, o produto ou o serviço é secundário. Criar valor é, no fim, resolver problemas reais de alguém disposto a pagar por isso.

Num país adverso, a margem para erro é menor. Isso obriga os líderes a decidir melhor, mais cedo e com mais responsabilidade. Obriga a abandonar estratégias genéricas e a apostar em diferenciação real: execução superior, serviço consistente e credibilidade construída ao longo do tempo. Criar valor em Portugal – ou em qualquer país adverso – não é um ato de heroísmo. É um exercício diário de disciplina, foco e liderança adulta. As empresas que o conseguem não esperam por contextos ideais. Constroem vantagem precisamente porque aprenderam a operar quando o contexto não ajuda. No fim, os países mudam lentamente. As empresas não podem esperar. Num ambiente adverso, criar valor não é apenas uma vantagem competitiva – é uma questão de sobrevivência.

Arquivado em:Opinião

100% dos empregadores confiam no crescimento em 2026, mas menos de metade do talento acredita

20 Janeiro, 2026 by Leonor Wicke

A Randstad acaba de lançar os resultados do Workmonitor 2026, revelando um cenário de grande adaptação no mercado de trabalho. O estudo, que inquiriu 26.000 profissionais em 35 mercados (incluindo Portugal), destaca um desalinhamento a nível de confiança: em Portugal, 100% dos empregadores estão confiantes no crescimento para o próximo ano, mas apenas 46% do talento partilha desta visão, um valor abaixo da média global de 51%.

Autonomia é a nova definição de sucesso pessoal

Os dados revelam que 39% do talento em Portugal pretende seguir um percurso de carreira tradicional e linear, ao passo que 27% afirma preferir uma “carreira de portfólio”, com mudanças de setor e funções (38% globalmente).

No que respeita à retenção, o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal é o principal motivo para 51% dos profissionais permanecerem na função atual, superando a remuneração e benefícios (23%) e a segurança no emprego (22%). No recrutamento, 87% do talento é atraído pelo salário, mas 42% não aceitaria um novo emprego sem flexibilidade de local e 41% rejeitaria uma função sem flexibilidade de horário. Entre a Geração Z, 67% prefere traçar o seu próprio percurso em vez de seguir uma hierarquia definida.

Adicionalmente, 50% dos profissionais já abandonaram um emprego por falta de independência concedida pelas chefias, embora 80% dos empregadores concordem que a autonomia aumenta o compromisso e a produtividade.

 

Colaboração: O valor do talento entre gerações

Os indicadores de colaboração mostram que 65% do talento em Portugal possui uma relação forte com o seu gestor direto e 73% confia nos seus colegas. A produtividade é influenciada pela diversidade: 84% dos profissionais acreditam ser mais produtivos quando colaboram com diferentes perspetivas e 78% afirmam contar com pessoas de gerações distintas para alargar a sua visão.

Do lado das empresas, 100% dos empregadores inquiridos em Portugal destacam a diversidade geracional como uma alavanca de produtividade. Contudo, 90% dos empregadores referem que o trabalho remoto ou híbrido tornou a colaboração mais desafiante. Os dados indicam também que 70% dos profissionais procuram mais pontos de contacto com os seus empregadores devido à incerteza no mercado e 68% dizem estar mais dispostos a colaborar se os seus líderes o fizerem.

 

IA & Adaptação: O novo paradigma da agilidade

No domínio tecnológico, 89% das empresas em Portugal planeiam reforçar a utilização da IA nos próximos 12 meses, embora apenas metade (50%) dos profissionais acredite ter as competências necessárias para potenciar esta tecnologia. Relativamente à produtividade, 60% do talento e 70% dos empregadores sentem que a IA ajuda a melhorar o desempenho, mas 44% do talento considera que a adoção da IA beneficiará principalmente as empresas e não os trabalhadores.

Face a este cenário, 72% dos profissionais afirmam precisar de adaptar as suas competências atuais para manterem a relevância. Os dados indicam ainda que 65% das empresas listam a agilidade como uma das três principais características procuradas em novas contratações, num momento em que a maioria dos trabalhadores receia que as funções
de entrada possam desaparecer nos próximos cinco anos devido à automação.

«O mercado de trabalho atravessa um momento de pressão e transformação profunda. A IA não deve ser vista como uma ameaça de substituição, mas como uma ferramenta de aumento de tarefas, permitindo que as pessoas se foquem em funções onde o toque humano é insubstituível», refere Isabel Roseiro, Diretora de Marketing da Randstad. «O sucesso das organizações dependerá da sua capacidade de oferecer a autonomia que o talento exige e de promover uma colaboração geracional eficaz».

Arquivado em:Notícias, Trabalho

Tens uma boa ideia na área Tech? Há um voucher que apoia o teu negócio

20 Janeiro, 2026 by Leonor Wicke

Estão a decorrer até ao dia 30 de janeiro (6ª feira) as candidaturas ao Startup Voucher Innovate do IAPMEI, uma iniciativa que apoia projetos empresariais em fase de ideia, dirigida a jovens licenciados até aos 29 anos. 

Através de um percurso de três fases de desenvolvimento, num total de 9 meses, a 4.ª edição do programa conta com: 

  • Bolsa mensal no valor de 900€ (até ao máximo de 2 bolsas/projeto)
  • Prémios intercalares (1.500€ no início da 2.ª e 3.ª fases)
  • Prémio de concretização (2.000€ após criação do próprio emprego)

Além disso, os participantes beneficiam de: 

  • Acesso à Rede Nacional de Incubadoras, ligação à Rede Nacional de Mentores, acompanhamento enetworkingcom atividades práticas, conteúdo técnico, eventos de demonstração (Demo Days) 
  • Participação em sessões temáticas,bootcamps,skill labs e technical clinics 
  • Imersão em ecossistemas empresariais
  • Apoio especializado em ESG e ODS (2030Council)

 

A iniciativa do Programa Temático Inovação e Transição Digital, promovida pelo IAPMEI e cofinanciada pelo COMPETE2030, PORTUGAL2030 e União Europeia, através do Fundo Social Europeu Mais. 

Mais informação sobre o Programa StartUP Voucher Innovate aqui.  

Arquivado em:Notícias, Tecnologia

Saúde mental no trabalho: «É preciso desnormalizar o sofrimento como sinal de empenho»

20 Janeiro, 2026 by Leonor Wicke

A saúde mental no trabalho deixou há muito de ser um tema marginal, mas continua longe de ocupar um lugar central nas decisões empresariais e nas políticas públicas. Num contexto marcado por pressão constante, escassez de talento, jornadas prolongadas e uma cultura que ainda normaliza o sofrimento como sinal de empenho, o impacto do trabalho na saúde mental dos profissionais tornou-se um dos grandes desafios do nosso tempo.

É neste cenário que surge Saúde Mental e o Trabalho, o primeiro livro de texto de Psiquiatria do Trabalho em Portugal. Em entrevista à Líder, os autores, Pedro Moura, médico especialista em Psiquiatria e Medicina do Trabalho, e Afonso Gouveia, médico especialista em Psiquiatria, refletem sobre a relação entre trabalho e doença mental, os efeitos persistentes da pandemia, o papel das empresas na prevenção e os riscos de continuar a tratar o bem-estar psicológico como um custo – e não como um investimento estrutural.

Pedro Moura
Afonso Gouveia

 

A importância da saúde mental no trabalho não é de agora, apesar de ainda haver um longo caminho a percorrer. Essencialmente, o que traz de novo o vosso livro?

Pedro Moura (PM): O nosso livro é o primeiro livro de texto de Psiquiatria do Trabalho em Portugal. É uma abordagem completa, abrangente, da saúde e da doença mental no local de trabalho, incorporando os vários níveis de prevenção e abordando também a melhoria da performance e a perspetiva económica.

Afonso Gouveia (AG): Além disso, este livro  aborda explicitamente as condições psiquiátricas no contexto do trabalho, enfatizando a realidade de que não só os trabalhadores podem adoecer, como também pessoas com doenças mentais podem trabalhar e/ou regressar ao ativo, trazendo para primeiro plano aportes clínicos e biomédicos geralmente dispersos e não concretizados no trabalho.

 

Segundo a Organização Mundial da Saúde, mil milhões de trabalhadores em todo o mundo vivem com uma perturbação mental. O que é que estes números nos dizem sobre a forma como o trabalho está hoje organizado?

AG: Considerando que em 2022 o The World Bank estimou a existência de 3.6 mil milhões de trabalhadores à escala global, então podemos retirar a noção aproximada de que mais de um quarto da força laboral global vive com uma perturbação mental. Será, no mínimo, interessante e crucial perceber, à escala local e regional, os porquês de tal prevalência, para que eventuais soluções vão diretamente ao encontro dos fatores condicionantes. Essencialmente também nos mostra como a saúde mental e o trabalho não são assuntos distintos. Com efeito, o trabalho surge classicamente como um importante determinante da saúde mental por todo o mundo.

Ambientes de trabalho concebidos com forte ênfase na produtividade, na competitividade e na disponibilidade permanente, frequentemente à custa do repouso e bem-estar; jornadas longas, ritmos intensos, metas irrealistas, pressão constante por resultados e insegurança laboral criam condições propícias à persistência do stress ligado ao trabalho, assim como da ansiedade patológica e depressão.

Além disso, os dados levantam a suspeita de que a saúde mental continua a não ser tratada como uma dimensão central da gestão e das políticas laborais. Em muitas organizações, persiste o estigma em torno das perturbações mentais, o que dificulta (quando não impossibilita) a prevenção, o apoio atempado e a adaptação das condições de trabalho aquando do regresso, no sentido de apoiar a recuperação. Este problema é particularmente agravado pela mentalidade de apenas responsabilizar o indivíduo, por oposição a uma perspetiva mais sistémica, coletiva e organizacional que tem em conta as exigências e as condições de trabalho em que surgiu o sofrimento e doença.

Por último, estes números também colocam em causa a sustentabilidade do trabalho nos moldes atuais, visto que para certas profissões a oferta é escassa e os tempos formativos são longos e pouco ou nada encurtáveis. Um sistema que depende de trabalhadores para além do razoavelmente possível e sustentável, condicionando que permaneçam sistematicamente exaustos, ansiosos e/ou deprimidos, não é apenas eticamente problemático, mas também ineficiente e insustentável a médio e longo prazo.

 

O que distingue uma resposta normal ao stress laboral de um verdadeiro adoecer mental?

AG: Em suma, tempo (ou persistência), proporcionalidade, impacto no funcionamento e autonomia na recuperação. O stress é uma reação humana normal à perceção de um conjunto de exigências, neste caso laborais, que à avaliação do próprio ameaçam ou superam os seus recursos disponíveis (tempo, saber, capacidades, etc.). Já um genuíno “adoecer mental” ocorre quando essa reação e padrão de funcionamento mental e comportamental exorbitam o caráter adaptativo e funcional, tornando-se persistente, desproporcional, sofrido e prejudicial na vida da pessoa, acabando por tipificar um diagnóstico de doença mental à luz do conhecimento (e critérios diagnósticos) atual.

 

A que efeitos ainda estamos a assistir na saúde mental das pessoas, resultantes do impacto da pandemia?

AG: Primeiramente, talvez o facto de ainda estarmos a falar conjugadamente de saúde ocupacional e saúde mental, algo que foi tornado mais saliente pela pandemia.

Noutra nota, a pandemia afetou desigualmente os jovens, que foram assim expostos a um conjunto de fatores de risco sem precedentes: isolamento físico e/ou social prolongado, ruturas abruptas nos percursos educativos, incerteza quanto ao futuro profissional, e uma exposição contínua a instabilidade e discursos de medo. Para muitos, a escola e a universidade – espaços fundamentais de socialização, estrutura e construção identitária – deixaram de cumprir esse papel. No período pós-pandemia, esses impactos não desapareceram; pelo contrário, manifestaram-se sob a forma de ansiedade crónica, depressão, burnout e dificuldades de integração no mercado de trabalho.

 

No que à psiquiatria do trabalho diz respeito, em que ponto estamos para trazer esta questão para as empresas? E em que se traduz, na prática?

PM: Em Portugal, estamos ainda na infância, o que se correlaciona também com dificuldades ao nível da implementação de serviços de Medicina do Trabalho com qualidade, em particular nas pequenas e micro-empresas. Mesmo nas grandes empresas, não é comum estes serviços terem, por exemplo, um consultor psiquiatra, o que acontece habitualmente em países desenvolvidos.  Isto pode permitir, na prática, a estruturação de respostas em saúde e doença mental específicas para a situação atual da empresa.

 

Perturbações como a hiperatividade e défice de atenção em adultos ainda são pouco compreendidas em contexto laboral. Que adaptações razoáveis podem – e devem – ser feitas no trabalho?

AG: No contexto laboral, a Perturbação de Hiperatividade/Défice de Atenção (PHDA) não é livre de impacto. Um estudo conduzido pela Organização Mundial da Saúde, em 2008, envolvendo 7.075 trabalhadores de 10 países, identificou que 3,5% preenchiam critérios diagnósticos de PHDA. A literatura subsequente tem demonstrado uma associação entre esta condição e o reporte de menor desempenho profissional, maiores taxas de despedimento e de rotatividade laboral, menor prevalência de emprego a tempo inteiro, aumento do absentismo e dificuldades na organização de tarefas, gestão do tempo, cumprimento de normas e interação com colegas.

Consequentemente, estes trabalhadores são frequentemente rotulados como desinteressados, distraídos, intempestivos, desrespeitosos, desmotivados ou procrastinadores. Todavia, características inicialmente percecionadas como negativas podem revelar-se vantajosas em determinados contextos. Com efeito, a dificuldade em manter a atenção em tarefas repetitivas ou prolongadas pode favorecer o pensamento original, criativo e não convencional (“fora da caixa”), enquanto a hiperatividade ou a impulsividade podem constituir mais-valias em contextos sociais de entretenimento ou em situações que exigem tomada de decisão rápida perante a incerteza.

A evidência indica que trabalhadores com esta condição apresentam maior capacidade de sustentação da atenção em ambientes profissionais altamente estimulantes, desafiadores, inovadores, exigentes em multitasking, de ritmo acelerado, fisicamente exigentes e intrinsecamente motivadores.

Deste modo, tal como diferentes trabalhadores podem apresentar desempenhos distintos numa mesma função, também diferentes contextos profissionais podem potenciar resultados entre diferentes trabalhadores, sobretudo quando são valorizadas e maximizadas as potencialidades individuais daqueles com PHDA.

 

Que sintomas de sofrimento mental são mais frequentemente premiados no mundo do trabalho (por exemplo, perfecionismo, insónia, controlo excessivo)?

AG: Não sendo propriamente sintomas, mas mais tendências comportamentais e aspetos ligados à personalidade, apontaria o sacrifício pessoal, ou abnegação, (que também muitas vezes desemboca em hiper-disponibilidade) e o perfecionismo. (Se o leitor ainda considera o perfecionismo uma qualidade incondicional, sugiro a escuta do episódio Perfecionismo: defeito ou virtude?, com a Dr.ª Ana Moniz, no Podcast InPertinente da Fundação Francisco Manuel dos Santos, onde são aflorados os seus limites e malefícios). Com efeito, a disponibilidade permanente frequentemente esvazia trabalhadores de outros proveitos da vida (lazer, desporto, vida familiar, enriquecimento cultural, etc.) e assim contribui para a sua exaustão e baixa realização. Um erro muito comum entre trabalhadores é, confrontados com novas exigências, sacrificarem o autocuidado, os projetos pessoais e de lazer e, ao fim ao cabo, algum do Porquê do ‘Por que trabalhar?’.

Já o perfecionismo, muitas vezes com inerente controlo excessivo, à primeira vista surge como uma característica desejável e saudada, mesmo quando resulta em extrema exigência com o próprio, excessiva atenção ao detalhe, intolerância ao erro ou do desagrado de terceiros. No entanto, este funcionamento assenta numa lógica interna profundamente punitiva. O erro não é entendido como parte do processo, mas como ameaça identitária (“Eu não sou assim”, “Eu não erro”, “Sou uma pessoa que não falha”, “Sou uma pessoa que se dá bem com todos”, etc.). Nalguns quadros o reconhecimento nunca é suficiente e a satisfação com o desempenho é sistematicamente inferior, eternamente insatisfeita.

A excelência é flexível, permite erro, ajustamento e crescimento, ao passo que o perfecionismo é inflexível, marcado por insatisfação crónica e por emoções como culpa, vergonha e o afamado “síndrome do impostor”. Não surpreende, por isso, que os perfecionistas sejam particularmente vulneráveis a burnout, depressão e quadros de ansiedade. Este padrão é transversal, mas manifesta-se com maior incidência nas mulheres, em contextos onde o sofrimento é normalizado como “parte do processo” e onde a validação externa continua a ser deficitária.

A cultura do “aguentar”, do “dar sempre mais”, reforça e eterniza o ciclo: maior custo interno para maior reconhecimento externo. Para o combate ao perfecionismo é preciso valorizar o produto do trabalho, desnormalizar o sofrimento como sinal de empenho (criando espaços onde limites, descanso e erro sejam legítimos), distinguir excelência da autoexploração, e abrir espaço para narrativas alternativas de sucesso, onde o valor profissional não dependa da anulação pessoal (entenda-se abnegação, ou sacrifício pessoal).

Por último, o sistemático recurso ao álcool como estratégia de coping pode ser normalizado ou mesmo facilitado pelo contexto de trabalho, prolongando e mascarando problemas ligados ao álcool, bem como comprometendo projetos de reingresso, recuperação e abstinência prolongada.

 

Que mudanças estruturais devemos priorizar nos nossos estilos de vida (dentro e fora do trabalho), para prevenir estas situações?

AG: O autocuidado deve ser entendido como uma competência central e não como um luxo ou medida de mitigação. Isso implica desenvolver maior self-awareness e auto-compaixão, reconhecendo que ninguém está imune ao stress ou à exaustão ou à doença mental. Além disso, promover ambientes de trabalho seguros onde as dificuldades possam ser partilhadas e debatidas, nomeadamente entre pares, mas também com chefias.

Fora do trabalho, torna-se essencial uma gestão ativa do stress, começando pela identificação dos principais stressores individuais e pela construção de um plano de autocuidado realista, ajustável e sustentável ao longo do tempo. A integração regular de exercício físico, seguindo as recomendações internacionais (por exemplo, a Organização Mundial de Saúde recomenda 150 – 300 minutos/semana para adultos dos 18 aos 64 anos), reconhecendo o seu papel protetor na saúde mental e física; o cuidado com a alimentação – especialmente adaptada a quem trabalha por turnos ou em horários noturnos -, e a valorização do sono como pilar essencial da saúde constituem mudanças estruturais com impacto direto no bem-estar e na resiliência. No caso do sono, a higiene do sono deve ser sempre a primeira linha de intervenção, antes de recorrer a soluções farmacológicas.

 

Como avaliam o nível de consciência e maturidade do ecossistema empresarial português face a estas questões?

PM: Penso que ainda existe e prevalece a perspetiva economicista, avaliando um incremento de recursos nesta área como um custo e não como investimento, o que contraria a evidência sólida de retornos para a instituição de mais de três, quatro vezes o seu custo. Ou a perspetiva de que fazer qualquer coisa será melhor que nada, optando-se pela opção que pareça ‘chave na mão’ ou mais disponível, sem avaliação da qualidade. O nosso livro pode ajudar os líderes das instituições a fazer escolhas mais informadas, pois a pouco e pouco, começam a mudar-se algumas mentalidade, embora a um ritmo ainda demasiado lento.

AG: No contexto laboral, a prevenção passa por uma abordagem que inclui promover diversidade de tarefas, respeitar horários, valorizar o descanso e um verdadeiro desligamento do trabalho – incluindo em férias -, bem como investir de forma contínua na formação, intervisão e atualização profissional, para maior normalização das respostas aos desafios e aumento de recursos para lhes fazer frente.

Um ambiente de trabalho mais “ativo”, com menos sedentarismo, com mais pausas ativas, bem como o incentivo ao lazer e ao ócio fora do trabalho, contribui para maior equilíbrio e satisfação profissional. Importa também reconhecer que as adversidades fazem parte do percurso, mas devem ser encaradas como oportunidades de aprendizagem, sem normalizar sofrimento evitável, e estar atento a comportamentos de risco, como o consumo de álcool ou outras substâncias, que tendem a agravar o problema. Por fim, deve ser facilitado o acesso a apoio externo e especializado (confidencial e de acesso fácil) sempre que necessário, com particular destaque para a sensibilização e formação junto de chefias.

 

Que mudanças faltam nas empresas e nas políticas públicas para que a saúde mental no trabalho passe a ser uma verdadeira prioridade?

PM: Possivelmente, face à inércia existente, uma mudança na legislação, em particular no que toca à organização dos serviços de Medicina do Trabalho, que possa incorporar um caráter mais mandatório e não opcional ou a título de recomendação a várias práticas com evidência demonstrada nesta área. O Colégio da especialidade de Medicina do Trabalho da Ordem dos Médicos, recentemente eleito, tem essa preocupação e esperamos poder dar o nosso contributo, no que toca à saúde mental.

AG: Em suma, a prevenção destas situações exige uma mudança cultural e estrutural, onde o bem-estar deixa de ser visto como uma responsabilidade exclusivamente individual e passa a ser reconhecido como um pilar da sustentabilidade pessoal e organizacional.

 

 

Arquivado em:Entrevistas, Leadership

Economia do desporto cresce 10% até 2030, mas enfrenta o risco da inatividade física global

20 Janeiro, 2026 by Leonor Wicke

O setor, que atualmente gera 2,3 biliões de dólares por ano, deverá crescer 10% nos próximos cinco anos, assente em quatro grandes pilares: a expansão do turismo desportivo, a consolidação do desporto como classe de ativos, a aceleração do desporto feminino e o desenvolvimento desportivo em mercados emergentes, conforme consta do novo relatório Sports for People and Planet, elaborado pelo Fórum Económico Mundial, com o apoio da consultora estratégica Oliver Wyman.

No entanto, o estudo também alerta para o facto de a inatividade física e os crescentes riscos climáticos e ambientais poderem reduzir em até 14% as receitas anuais do setor, o que representaria um total de 517 mil milhões de dólares até 2030, valor que poderia subir para 1,6 biliões de dólares em 2050, caso não sejam adotadas medidas multissetoriais coordenadas.

 

Inatividade física é uma das principais ameaças

A capacidade de crescimento do setor está ameaçada pelo aumento da inatividade física, especialmente entre os jovens, dos quais 80% não atingem os níveis recomendados de atividade. Entre 2020 e 2030, estima-se que essa inatividade física represente um custo aproximado de 300 mil milhões de dólares para os sistemas de saúde, exercendo uma pressão crescente sobre os orçamentos públicos.

A estes fatores somam-se os riscos ambientais, como o stress térmico, os fenómenos climáticos extremos e a poluição, que já estão a afetar o calendário das competições, a reduzir a atratividade para os espectadores e a pressionar as cadeias de abastecimento e as operações do setor.

A falta de tempo, as limitações económicas, as instalações inadequadas e as condições climáticas adversas continuam a ser os principais obstáculos à prática desportiva. As disparidades na participação limitam o potencial de crescimento do setor. Por exemplo, as mulheres e as raparigas representam apenas 37% dos praticantes desportivos na União Europeia, 40% nos Estados Unidos e 45% no Canadá.

 

Alterações climáticas impactam o setor

Por sua vez, os riscos ambientais associados às alterações climáticas representam também uma ameaça operacional e financeira crescente. Mais de 90% dos direitos de retransmissão e 76% das receitas de patrocínio no desporto profissional estão ligados a atividades ao ar livre. A título de exemplo, no Reino Unido, as condições meteorológicas adversas geram aproximadamente 320 milhões de libras por ano em perdas de receitas e custos de manutenção.

Por outro lado, ondas de calor, inundações e tempestades obrigam ao cancelamento de eventos e à reprogramação de calendários, prejudicando as vendas de ingressos, reduzindo o valor das transmissões e aumentando os prémios de seguros.

Por último, o próprio setor contribui para a pressão ambiental: as principais indústrias do desporto geram entre 400 e 450 milhões de toneladas de CO2 equivalente por ano, um valor comparável às emissões das grandes economias industrializadas.

 

Quatro pilares para o crescimento do setor

Apesar destes desafios, a Oliver Wyman e o Fórum Económico Mundial identificam quatro grandes motores de expansão que sustentam um potencial de crescimento significativo no setor. O turismo desportivo lidera este crescimento, representando 60% do aumento total das receitas do setor até 2030. Em 2025, concentrou 10% das despesas mundiais em viagens, registando uma taxa de crescimento anual de 28% desde 2020, muito superior aos 22% do setor turístico no seu conjunto.

Esta tendência deverá manter-se, com um crescimento anual projetado de 17,5% até 2030. Alguns exemplos são a Maratona de Nova Iorque, que atraiu, em 2024, mais de 17 000 corredores internacionais de 137 países, ou eventos como o UltraSwim 33.3, na Croácia, ou a Marathon des Sables, em Marrocos, cujas inscrições esgotam em poucos minutos.

A consolidação do desporto como classe de ativos global atingiu níveis sem precedentes, com mais de mil operações globais concluídas em 2021 e transações emblemáticas, como a avaliação de 10 mil milhões de dólares dos Los Angeles Lakers em 2025 (o valor mais elevado da história do desporto norte-americano).

Este crescimento é impulsionado pelo potencial de valorização dos ativos, por novos modelos de propriedade, por regulamentações financeiras mais robustas e pela convergência do desporto com os meios de comunicação, o entretenimento e a tecnologia. A base de investidores expandiu-se, passando a incluir investidores institucionais, fundos soberanos, empresas de capital de risco e atletas profissionais.

 

Desporto feminino e mercados emergentes destacam-se

O desporto profissional feminino apresenta um crescimento notável. A receita projetada deverá atingir 2,35 mil milhões de dólares em 2025, mais do que o triplo do valor registado em 2022. O futebol e o basquetebol concentram 80% dessa receita, impulsionados por federações como a FIFA e a UEFA. A Copa do Mundo Feminina da FIFA 2023 atraiu mais de 2 mil milhões de espectadores, enquanto os Jogos Olímpicos de Paris 2024 marcaram, pela primeira vez na história, a total paridade de género em campo.

Os mercados emergentes consolidam-se como potentes motores de crescimento. A América Latina, a África e o Médio Oriente registam as maiores taxas de crescimento no mercado de artigos desportivos, com previsões de aumentos anuais de dois dígitos na próxima década.

A Índia acelera os seus compromissos de investimento para 130 mil milhões de dólares até 2030, enquanto a China emitiu, em 2025, novas diretrizes para financiar projetos desportivos através de instrumentos de longo prazo, em apoio ao seu objetivo de atingir 985 mil milhões de dólares em 2030. Paralelamente, os fundos soberanos da Arábia Saudita, do Catar e dos Emirados Árabes Unidos investem diretamente em propriedades desportivas globais.

«O negócio do desporto enfrenta uma oportunidade decisiva e, para continuar a ser um motor de crescimento e de coesão social, deve antecipar-se a desafios fundamentais, como a saúde e a sustentabilidade ambiental», conclui Pablo Campos, presidente da Oliver Wyman Iberia.

 

Chaves para enfrentar os desafios

Face às ameaças identificadas, a Oliver Wyman e o Fórum Económico Mundial propõem três vias multissetoriais para impulsionar a mudança e transformar esses riscos em oportunidades de inovação e crescimento sustentável.

A primeira via consiste em liderar a gestão de recursos para reforçar a resiliência empresarial. Tal implica o desenvolvimento de uma gestão integrada da água – especialmente relevante se considerarmos que a procura mundial de água doce deverá exceder a oferta em 40% até 2030. Esta via propõe ainda o desenvolvimento de modelos de negócio circulares que permitam dissociar o crescimento do esgotamento de recursos. A análise de quatro materiais centrais para o setor (plástico, alumínio, cimento e aço) demonstra que abordagens circulares poderão reduzir as emissões associadas à nova produção em até 40%.

Por sua vez, o relatório propõe colocar o desporto no centro das cidades, reconhecendo que cerca de 80% dos fatores que afetam a saúde da sociedade têm origem fora do sistema de saúde, o que sublinha o papel fundamental do ambiente físico na qualidade de vida e na longevidade. Esta abordagem assume especial relevância se considerarmos que as cidades geram 80% do PIB global e irão albergar quase 70% da população mundial em 2050. A via propõe integrar a atividade física no planeamento urbano sustentável, valorizar os espaços verdes como ativos desportivos que prestam serviços ecossistémicos críticos e desenvolver infraestruturas que priorizem o bem-estar comunitário e a resiliência climática.

Por fim, o relatório propõe mobilizar investimentos com propósito, através de parcerias público-privadas-filantrópicas e de patrocínios orientados para o impacto social e ambiental. O mercado de patrocínios, que deverá atingir 52 mil milhões de dólares em 2025, representa uma das alavancas financeiras mais poderosas do desporto e oferece uma oportunidade decisiva para reposicionar as associações de marcas como impulsionadoras de valor partilhado.

Arquivado em:Desporto, Notícias

2026: mais um ano à espera do Salvador?

20 Janeiro, 2026 by Leonor Wicke

A passagem do calendário ilude, mas os problemas persistem. Enquanto o mundo avança, Portugal continua à espera de um salvador que nunca chega – o seu próprio D. Sebastião estratégico.

 

O engano do calendário

Há uma ilusão reconfortante na passagem do ano: a de que um dígito a mudar no calendário fecha portas e abre outras, limpando o palco para um novo ato. É um conto de fadas para adultos. A realidade, especialmente a portuguesa, é mais dura e menos poética.

Os desafios de Portugal – a crise habitacional que estrangula gerações, o SNS que funciona na base do heroísmo em vez da eficiência, a economia que tropeça na burocracia e na fuga de cérebros – não fizeram as malas a 31 de dezembro. Não empacotaram. Não saíram. Hibernaram. Eram, são e serão os mesmos. O que mudou de 2025 para 2026 não foi a agenda nacional, mas apenas um número. Passámos de um ano que terminava em 5 para outro que termina em 6, mas continuámos presos ao mesmo script gasto: o da eterna intenção nunca concretizada.

Como na vida pessoal, também as nações são definidas por uma escolha simples, mas brutal: fazer acontecer ou ver acontecer. Portugal tornou-se um especialista na segunda arte. É o país-espectador da sua própria história.

 

O mito do D. Sebastião e o nevoeiro das distrações

A nossa crónica inação tem um arquétipo perfeito: o mito de D. Sebastião. A lenda diz que o rei desaparecido regressará num dia de nevoeiro para salvar a pátria. Esta narrativa não é um conto infantil; é o software operativo de um país que prefere a esperança mágica ao trabalho estratégico — um país que, por esperar salvação, deixa de planear a sua própria. Porque planeamento é trabalho. Espera é conforto.

O ‘nevoeiro’ não é meteorológico. É o nevoeiro das distrações estéreis que nos consomem: debates sobre sintomas em vez de causas, guerras culturais fabricadas, escândalos efémeros que ocupam manchetes enquanto 80 mil vagas ficam por preencher em construção, o SNS se desmancha lentamente, a habitação sobe a preços insanos. Esperamos, colectivamente, que a solução apareça na bruma – um salvador, um fundo europeu milagroso, um momento de iluminação coletiva. Enquanto isso, deixamos de plantar. E depois, admirámo-nos por o campo estar vazio. Nevoeiro é confortável. Claridade exige ação.

Esta espera passiva é a antítese da liderança. A Irlanda não esperou por um salvador; em 1987, decidiu atrair tecnologia global por meio de fiscalidade competitiva e de talento qualificado. Executou durante 30 anos, independentemente de quem governava. Resultado: GDP per capita €25.000 (1990) → €90.000 (2024). A Estónia não esperou pelo nevoeiro dissipar-se; em 1991, pós-soviética e falida, decidiu digitalização total. Em 10 anos tinha e-government completo. Nós, portugueses, continuamos à espera do rei.

 

Wishful Thinking vs. Realidade: a colheita do nada

Façamos, então, o exercício de honestidade que o mito nos impede de fazer. O que Portugal quer é conhecido: habitação, saúde, prosperidade. Bonito. Mas, como na agricultura, o inverno das intenções só dá fruto se for seguido pela primavera da ação e pelo verão da perseverança.

 

Querer não constrói nada

A verdadeira lição do novo ano é esta: querer não colhe. Só plantar colhe. E Portugal há décadas que se recusa a pegar na enxada. A questão não é se temos enxadas. É se temos coragem de as usar.

Vejamos o padrão que nos define:

  • Queremos casas, mas aprovamos uma lei de imigração que afasta os 80.000 trabalhadores da construção de que o país precisa.
  • Queremos um SNS forte, mas não atraímos os profissionais que o sustentam.
  • Queremos riqueza, mas decidimos que burocrata em Lisboa — que nunca arriscou capital, nunca montou negócio — sabe melhor do que o empresário em Braga ou Alcobaça de que talento a empresa precisa. É lógica invertida: quem produz pede autorização a quem nunca produziu.
  • Queremos o futuro, mas legislamos para o passado.

É mais do que wishful thinking. É autossabotagem estratégica: desejar os frutos da árvore enquanto se rega o cimento à sua volta.

 

A única palavra que o mito ignora: planeamento

Há uma palavra que desfaz mitos, dissipa nevoeiros e transforma desejo em destino. Uma palavra que países sérios sussurram nos corredores do poder e gritam nos seus planos de investimento. Uma palavra que Portugal teima em não pronunciar com a seriedade de quem a executa: PLANEAMENTO.

Planeamento não é burocracia. É o oposto. É a antecipação estratégica que substitui a reação caótica. É o que separa Singapura — que decidiu ser uma potência global e executou, ano após ano — da Argentina — que esperou ser salva pelos seus recursos naturais e viu-se reduzida à pobreza. É a diferença entre ter um mapa e andar às voltas no nevoeiro. E entre quem reconhece o nevoeiro como desculpa e quem o vence com clareza.

Singapura não tinha recursos naturais. Tinha planeamento. Identificou em 1965 que era um porto estratégico e virou-se para educação, talento, inovação. Executou. Resultado: PIB per capita de €70.000. Portugal tem recursos, geografia, talento. Tem tudo. O que não tem é o planeamento que transforma recursos em resultados.

Países que “fazem acontecer” não têm segredos mágicos. Têm uma disciplina feroz de planeamento: identificam um destino ambicioso, alinham recursos, definem métricas e executam, ano após ano, governo após governo. O seu “novo ano” é apenas mais uma etapa no caminho que traçaram — porque não esperam por salvadores; constroem com as próprias mãos. O nosso é um reset eterno, um voltar à estaca zero. 2026 é igual a 2025, que era igual a 2020 ou 2010. A ilusão do calendário faz-nos acreditar que algo mudou. Nada mudou. Até que alguém, finalmente, decida planear.

 

Conclusão: a escolha de 2026

O ano de 2026 já começou. A questão que ele nos coloca não é “o que desejamos?”, mas “o que vamos, finalmente, FAZER?”

A liderança que Portugal precisa não está num salvador mítico. Está na coragem de trocar o mito pelo mapa, a intenção pela ação, o desejo pelo planeamento. E essa liderança não vem de Lisboa. Vem de quem, em cada organização, em cada sector, em cada comunidade, decide que esperar é luxo que não podemos mais permitir.

Até que isso aconteça, seremos apenas espectadores do nosso próprio declínio, assistindo, ano após ano, à passagem dos calendários e à persistência dos nossos fracassos.

A escolha, como sempre, é nossa. Mas o tempo, esse, não aguarda mais nevoeiros. O que fazemos agora define o que colhemos em 2030. E o que Portugal será em 2045.

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