A tecnologia da Hala Systems cruza dados provenientes de diferentes fontes — desde satélites e sensores remotos até redes sociais e outras plataformas abertas — para identificar padrões e antecipar ameaças. Os sistemas são executados na infraestrutura de cloud da Amazon Web Services (AWS), o que permite à empresa desenvolver e implementar rapidamente soluções em diferentes cenários de crise.
Essa flexibilidade é considerada essencial num contexto em que cada conflito apresenta desafios específicos. Ao recorrer à cloud, a equipa consegue adaptar as suas ferramentas a novos ambientes operacionais e aumentar rapidamente a capacidade de processamento quando necessário — um fator crítico quando minutos podem fazer a diferença entre a vida e a morte.
Tecnologia aplicada em zonas de guerra: Síria e Ucrânia
Um dos projetos mais conhecidos da empresa é o Sentry, uma plataforma de alerta precoce criada inicialmente para a Síria. O sistema combina sensores instalados em infraestruturas críticas, informação recolhida por voluntários no terreno e análise automatizada de dados para detetar possíveis ataques aéreos.
Quando um risco é identificado, o sistema emite alertas antecipados para a população civil. De acordo com estimativas da organização, a tecnologia terá alcançado mais de dois milhões de pessoas e proporcionado uma média de oito minutos de aviso antes de ataques, contribuindo para reduzir o número de vítimas entre 20% e 30%. O projeto chegou mesmo a ser exibido no Smithsonian National Air and Space Museum, em Washington.
Mais recentemente, a empresa tem estado envolvida na resposta à guerra na Ucrânia. Em colaboração com a organização não-governamental Save Ukraine, a Hala Systems desenvolveu uma ferramenta que monitoriza redes sociais e outras fontes abertas para identificar informações relacionadas com a deslocação forçada de crianças.
O sistema procura referências à movimentação de menores — incluindo menções a campos de treino militar — permitindo às equipas humanitárias localizar pistas relevantes. Segundo a organização, esta tecnologia já contribuiu para operações que resultaram no resgate de 207 crianças, número que continua a aumentar.
A empresa tem vindo também a reforçar o uso de agentes de inteligência artificial capazes de analisar grandes volumes de informação em tempo real, cruzar diferentes fontes e atribuir níveis de confiança aos conteúdos analisados. Esta abordagem ajuda a lidar com um dos principais desafios das guerras modernas: a desinformação.
Além disso, a Hala Systems está a desenvolver sistemas multiagente, que permitem processar vários fluxos de dados em simultâneo. Apesar da automatização, a empresa sublinha que as decisões finais continuam sempre sob supervisão humana.
«Não existem dois conflitos iguais e temos de desenvolver diferentes tecnologias para diferentes regiões. A AWS permite-nos ser adaptáveis», afirma Begoña Sesé de Lucio, responsável de produto da Hala Systems. A segurança dos sistemas é também uma prioridade, acrescenta a empresa, que recorre à infraestrutura da AWS para garantir elevados padrões de proteção de dados.
O trabalho da startup portuguesa levou-a agora a integrar o AWS Pioneers Project, uma iniciativa europeia lançada para destacar empresas que utilizam tecnologia com impacto social.
«A seleção da Hala Systems foi uma decisão natural», afirma André Rodrigues, porta-voz da AWS em Portugal e responsável tecnológico para empresas de software e tecnologia no sul da Europa. «Estão a usar inteligência artificial para enfrentar desafios críticos, desde a resiliência social até à segurança humana. Histórias como esta mostram o verdadeiro potencial da tecnologia.»
Com projetos já aplicados em zonas de conflito, a Hala Systems pretende continuar a expandir as suas ferramentas para novos cenários, incluindo respostas a desastres naturais e monitorização de infraestruturas críticas. O objetivo mantém-se o mesmo desde a fundação: usar tecnologia para proteger populações em situações de risco extremo.