Penso que seja importante explicar primeiro de que forma a sustentabilidade ambiental conseguiu estar no topo das atuais preocupações morais e económicas, e ser um dos conceitos mais centrais do debate político global. De seguida, ofereço a tese de que as questões associadas à sustentabilidade estão alinhadas com uma perspetiva multidisciplinar – algo que requer um conjunto de ferramentas e técnicas mais transversais do que aquelas que são oferecidas pela formação académica mais tradicional do ensino superior.
Durante a maior parte do nosso tempo neste Planeta, o homo sapiens tem estado principalmente preocupado com a garantia da sua reprodução como espécie num ambiente que, nas palavras do filósofo do sec. XVII, Thomas Hobbes, era um ambiente “de medo contínuo de uma morte violenta”, proporcionando uma vida “nasty, brutish e short” (desagradável, brutal e curta). Apesar disso, e através do crescimento da capacidade para a razão e da Ciência, conseguimos desenvolver durante os últimos séculos o que parecia uma capacidade quase inesgotável para dominar o nosso meio ambiente, a Mãe Natureza, exclusivamente em nosso benefício próprio.
Assim, crescemos até quase aos oito mil milhões de pessoas que vivem em média 79 anos no Planeta que temos hoje. A vida humana na Terra nunca foi tão boa para tantos, pensávamos nós! A crua realidade é que apesar dos avisos precoces que tivemos, estamos a aprender a um ritmo alarmante, que essa visão do progresso humano necessita urgentemente de uma reforma profunda. Apesar da publicação e trabalho seminal de autores como Rachel Carson no Silent Spring (1962) ou outros estudos (Osborn, 1948 e Vogt, 1948) cujas preocupações era sobre o grande impacto negativo que a espécie humana estava a infligir ao meio ambiente, foi somente com o relatório de 1987 das Nações Unidas e do Gro Harlem Brundtland, o UN Report of the World Commission on Environment and Development: Our Common Future, que uma nova consciência ambiental e global se desenvolveu. A publicação reuniu um conjunto de preocupações científicas e sociais sobre os limites naturais do nosso crescimento e ofereceu uma chamada urgente para reorientar os nossos modelos de desenvolvimento económico – seja dentro dos modelos capitalistas ou socialistas que dominavam nessa altura. Surgiu mais ou menos na mesma altura que autores como o Ronald Inglehart, primeiro na sua tese The Silent Revolution de 1977, onde percebemos como a mudança de valores e de cultura entre as gerações conseguia explicar o crescimento de valores descrito por ele como sendo “pós-materialistas”.
De acordo com essa teoria, nos anos 70 e 80 do século passado vimos a substituição das gerações mais velhas, cujos valores materialistas eram formados pela sua experiência dos períodos de “vacas magras” entre as duas guerras mundiais, pela geração dos seus filhos, os tais baby-boomers e os seus filhos, que foram criados em tempos de abundância e de paz, desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Inglehart sugere que essas gerações nunca tiveram de questionar a sua segurança material, tomando-a como um dado adquirido, e por isso essas gerações preocupavam-se cada vez mais com objetivos e valores não-materiais, tais como a expressão individual, a autonomia, a liberdade sexual, a igualdade de género, e o ambiente. Ele argumenta que tais valores “pós-materiais” iam continuar a dominar nas gerações mais novas dos países mais avançadas e (pós-)industriais, através do processo de substituição geracional. Tal como Inglehart previu, parece verdade que estamos cada vez mais preocupados com conceitos como a equidade intergeracional – e.g. a ideia de justiça entre as gerações.
A base deste conceito é a noção do que as formas de reprodução que existem hoje no Planeta não deviam condicionar a capacidade das gerações futuras para viver tão bem ou melhor que nós, com os recursos que lhes deixamos. A partir desta perspetiva moral, começamos a ver políticas públicas como o European New Green Deal, só para dar um exemplo, e uma aceitação mais generalizada (pelo menos retórica) de que temos de pensar não só nas nossas necessidades, mas também nas das gerações futuras.
Esta preocupação ética e moral está igualmente patente nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas. Porém, o nível de preocupação com questões de sustentabilidade tem sido, até ao momento, muito superior ao nível de ações com impacto real.
Vale a pena salientar que a determinação sobre o que é ou não é sustentável é uma atividade altamente política, porque requer fazer julgamentos de valor e uma alocação de recursos escassos com previsões sobre os impactos de diferentes alternativas, enquanto mantemos ao mesmo tempo padrões éticos fortes.
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Pode ler o artigo completo na edição de primavera da revista Líder.

Por Michael Baum, Doutorado em Ciência Política pela Universidade de Connecticut e Coordenador da Licenciatura em Filosofia Política e Económica da Universidade Católica








