Para aqueles que ainda olham para os acrónimos como se fossem uma mera caricatura grosseira da realidade, aqui estamos perante uma evidência dramática e (infelizmente) muito real da irrupção de um acontecimento que claramente podemos incluir nos contextos daquilo que vem sendo designado como um “mundo BANI”, ou “FANI”, na tradução portuguesa (Frágil, Ansioso, Não-Linear […]
Para aqueles que ainda olham para os acrónimos como se fossem uma mera caricatura grosseira da realidade, aqui estamos perante uma evidência dramática e (infelizmente) muito real da irrupção de um acontecimento que claramente podemos incluir nos contextos daquilo que vem sendo designado como um “mundo BANI”, ou “FANI”, na tradução portuguesa (Frágil, Ansioso, Não-Linear e Incompreensível): A invasão da Ucrânia.
É um episódio negro que marca o presente da pior maneira e marcará seguramente o futuro de uma forma atualmente ainda imprevisível, lançando os povos numa espiral de estupefação, ansiedade e com o sabor amargo do confronto inapelável com o absurdo.
Estamos de facto perante uma realidade que considerávamos impossível nos dias de hoje, incompreensível para as nossas mentes habituadas ao conforto do bom funcionamento (aparente) dos sistemas periciais, não-linear relativamente à nossa confiança numa arquitetura da racionalidade tão solidamente sedimentada que a tornaria imune aos eventuais ímpetos irracionais de dirigentes e líderes sem escrúpulos; uma realidade em suma que denuncia, de forma brutal, a fragilidade das estruturas sociais onde habitamos e onde construímos mais ou menos serenamente os nossos horizontes de futuro.
Perante os factos, inéditos desde a eclosão da Segunda Guerra Mundial, que vemos desfilar no quotidiano dos serviços informativos da comunicação social, e depois da estupefação inicial que tais acontecimentos nos provocaram, vamos ansiosamente começando a admitir que tais factos não só não configuram uma situação passageira, que os sofisticados e globalizados processos da diplomacia facilmente resolveriam, mas é algo que “está para durar” e que vai trazer muito sérias implicações nos nossos modos de vida, cuja extensão e gravidade ainda não conseguimos prever.
São também factos que, pela sua inquietante similitude com os acontecimentos que antecederam a Segunda Guerra Mundial, em que Hitler, rompendo descarada e traiçoeiramente os acordos estabelecidos com o Primeiro Ministro inglês, invadiu a Polónia, lançando a faísca que desencadeou a deflagração, nos fazem lembrar como os sistemas aparentemente sólidos de organização e regulação social cedem facilmente perante a insensatez de líderes autoritários que nada mais veem para além da alucinação das suas ambições tresloucadas.
Tais líderes, que utilizam os recursos e o poder que têm como instrumentos do seu ego exacerbado e do delirante e insaciável desejo de domínio, não cedem nem perante elementares princípios de justiça nem sentimentos de compaixão pelo género humano, não hesitando em praticar atos que apenas deixam atrás de si o horrível legado de uma imensa planície de devastação.
Vivemos um momento crítico da nossa História recente, em que um líder prepotente se acha acima de qualquer lei que não seja por ele ditada, que não reconhece legitimidade à livre manifestação da vontade de um povo soberano que ousou sair do seu raio de ação e que, por isso, e ignorando todos os apelos feitos por um grande conjunto de outros líderes da comunidade internacional, colocou o mundo numa enorme tensão e ansiedade e submetido à convulsão de Lideranças em Guerra, ameaçando com isso os valores da Razão que, por um determinado período de tempo, parece perdida.
Mas a História também nos diz que, apesar da sua aparência de poder ilimitado, esses líderes no final, mais cedo ou mais tarde, acabam derrotados e atirados para o “caixote de lixo da História”. E depois deles o Mundo sempre renasce, sempre tem renascido, fazendo prevalecer a paz, a liberdade e a justiça, reinventando finalmente um novo futuro para a Razão.
Por Mário Ceitil, Presidente da Associação Portuguesa de Gestão das Pessoas e Professor universitário

