O medo não entra no cockpit. Não pode. Não é bravura — é necessidade. Porque se entra, toma o lugar de decisões que têm de ser frias, limpas, quase instintivas. Nos primeiros tempos, claro, há nervosismo. Ansiedade, alguma inquietação antes da descolagem, o peso da responsabilidade no silêncio dos céus. Mas medo, não. O medo […]
O medo não entra no cockpit. Não pode. Não é bravura — é necessidade. Porque se entra, toma o lugar de decisões que têm de ser frias, limpas, quase instintivas. Nos primeiros tempos, claro, há nervosismo. Ansiedade, alguma inquietação antes da descolagem, o peso da responsabilidade no silêncio dos céus. Mas medo, não. O medo é outra coisa. E essa, aprende-se a domesticar antes sequer de levantar voo.
Muito se diz sobre o piloto automático, quase como se fosse ele o verdadeiro comandante. Mas isso está longe da verdade. O avião não voa sozinho. O que existe são sistemas — cada vez mais refinados, sim — que ajudam na tarefa. Que aliviam a carga. Que permitem manter rumo, altitude, velocidade. Mas tudo isso depende de inputs do piloto. O “automático” não substitui a vigilância. Se um sistema falha, há sempre redundâncias. E, se for preciso, há as mãos. As mãos voltam ao comando, sem hesitação, sem pânico. Para isso serve o treino: para garantir que, mesmo quando tudo falha, o avião se mantém estável. E o piloto, também.
Mais imprevisíveis são os que vêm a bordo. Passageiros em sobressalto, alterados, por vezes agressivos. Chamam-lhes “unruly passengers”. E é preciso saber lidar. Aqui, entra a coordenação entre cabine e cockpit. Comunicar bem, perceber o que está a acontecer, perceber se é o álcool a falar, se é o medo ou outra coisa qualquer. Por vezes, limita-se o consumo. Outras, prende-se ao assento. E, em alguns casos, a viagem termina com uma receção policial em terra. Tudo se avalia em tempo real, mas com distanciamento.
A emoção dos outros não pode contaminar quem está aos comandos.
E se houver um problema grave? Se algo fugir do guião? Acontece raramente, felizmente. Mas quando acontece, não há espaço para improviso. Há procedimentos. Há memória muscular. O corpo entra em modo técnico, o cérebro num registo quase automático — mas não desligado. Tudo é feito com sobriedade. Sem margem para descontrolo. É quase como se a emoção ficasse suspensa até se pousar. Até estar tudo resolvido.
Lá em cima, há espaço para muita coisa. Para contemplar o mundo, para respeitar a máquina, para pensar no que se transporta. Mas não há espaço para o medo. Esse, fica em terra.
Este artigo foi publicado na edição nº 30 da revista Líder, cujo tema é ‘Enfrentar’. Subscreva a Revista Líder aqui.

