Após a queda do Silicon Valley Bank, a ideia de corridas bancárias mais rápidas está a causar preocupação entre analistas e legisladores. No entanto, a onda de novas tecnologias, na última década, não é a primeira a mudar comportamentos.
O uso de aplicações e mensagens, em redes sociais, que espalham informações de pânico num ritmo acelerado para um grupo cada vez maior, marca uma rutura com as crises passadas, partilha o The Economist. As novas ferramentas de finanças digitais permitem que os depositantes retirem os seus fundos num clique, assim que se apercebem do que se passa nas redes.
Mas os exemplos anteriores sugerem uma espécie de padrão: as inovações inicialmente ajudam a facilitar um boom, contribuindo para a exuberância baseada numa sensação de possibilidade futurista, antes de acelerar e ampliar o colapso final.
A história também sugere que mudanças tecnológicas recentes podem ter um impacto mais profundo, remodelando os mercados também a longo prazo.
Um contexto
A partir da década de 1840, a América foi coberta pelo telégrafo elétrico, que transmitia mensagens por fios aéreos, conectando mercados financeiros anteriormente díspares em Boston, Chicago, Nova York e Filadélfia.
Em 1866, a comunicação confiável tornou-se possível também entre a América e a Europa, graças a um cabo telegráfico submarino. Os historiadores atribuem a esses novos métodos de transmissão de informações financeiras a suavização das ineficiências de preços.
A diferença entre os preços do algodão americano e britânico caiu um terço, por exemplo, e a volatilidade também diminuiu. A nova forma de comunicação foi significativa o suficiente para deixar um legado.
Mas a eficiência muitas vezes tem um custo. No século XIX, a comunicação por cabo era cara e limitada, e as informações recebidas corriam risco de manipulação por parte de quem as transmitia.
Um século depois, a nova tecnologia voltou a provocar preocupações durante a quebra do mercado em outubro de 1987. Descobriu-se mais tarde que a comunicação eletrónica além-fronteiras exacerbou os problemas.
No entanto, o efeito que os avanços tecnológicos têm sobre as crises bancárias é apenas uma das maneiras pelas quais eles transformam os mercados financeiros.
John Handel, historiador económico da Universidade da Virgínia, observa que o uso cada vez mais difundido da fita adesiva – uma forma mais avançada de transmissão de mensagens por telégrafo – nas finanças do final do século XIX aumentou o poder das instituições que a monopolizaram.
A Bolsa de Valores de Londres e a Exchange Telegraph Company, licenciada para transmitir dados da bolsa, foram beneficiárias. Isso ajudou a formalizar o papel das bolsas de valores nos mercados financeiros globais.
Hoje, o cenário é diferente
Historicamente, os bancos beneficiaram dos altos custos de transação e da baixa alfabetização financeira dos clientes, que juntos impediram que os depositantes transferissem muito dinheiro para fundos do mercado monetário de maior rendimento.
Hoje, as novas tecnologias de comunicação e finanças digitais fazem com que a população investidora esteja mais ciente das alternativas aos depósitos bancários e com que tenha mais oportunidades de investir neles.
Uma pesquisa recente de investigadores das universidades de Columbia, Pequim e Stanford observa que os bancos chineses, onde os depositantes têm mais exposição ao Yu’ebao, uma plataforma de investimento online que oferece investimentos em fundos do mercado monetário, registam mais levantamentos por parte dos clientes.
A nova tecnologia pode ter ajudado a facilitar o aumento de quase 300 mil milhões de dólares em fundos do mercado monetário americano em março, destabilizando ainda mais os bancos.
No entanto, este cenário pode ser apenas uma das maneiras pelas quais o comércio sem atrito e as informações disponíveis gratuitamente, de qualidade variável, afetarão as finanças nos próximos anos. Os lucros que os bancos têm desfrutado por décadas – ou séculos – graças aos altos custos de transação e baixa alfabetização financeira também podem se tornar mais difíceis de sustentar.

